Entre vaias e beijos, "pode isso, Arnaldo?"
quinta-feira, 14 de maio de 2026
Atualizado em 13 de maio de 2026 14:00
Tem início a execução do Hino Nacional. Jogadores, arbitragem e comissões técnicas todos perfilados em respeito ao ato cívico. Na arquibancada, reverências e gracejos se misturam às primeiras manifestações da turba antes da partida começar. A depender das camisas em campo, toda a letra do símbolo sonoro da pátria é cantada apenas pela repetição do nome do time. O juiz apita um minuto de silêncio em homenagem a..., não importa. O único jogador que não respeita a ordem é a torcida. Tomando emprestado de Eduardo Galeano, coloco o fair-play de lado para repetir que o tal “jogador número doze” é quem movimenta a bola diante da modorra, “é ele quem sopra os ventos do fervor” e sacode a arena para a glória do espetáculo.
Em sua coluna “Meio de Campo”, publicada no site “Migalhas” no dia 29/4/2026, Rodrigo R. Monteiro de Castro, esse craque do Direito Societário e do Direito Futebolístico, disse que o atual técnico do tricolor paulista - o gaúcho Roger, substituto do argentino Crespo - sofreu assédio coletivo da torcida, tal qual Barbosa no “maracanaço” da final da Copa do Mundo de 1950. Tomou de empréstimo a alegoria do Coliseu, voltando à Roma Antiga, para afirmar que, pouco valendo as poucas opiniões ou gestos de acolhimento recebidos (como o abraço de Luciano após o gol contra o Mirassol pelo brasileirão), o que prevaleceu foi “a convicção, que mascara o preconceito”, exigindo do treinador que de cara precisasse se defender “de um suposto fracasso anunciado”. Rodrigo apontou um bullying coletivo recheado de “crueldade, de maldade, de desumanidade”.
Grosserias, ofensas e perversidade verbal, para dizer o mínimo, precisam ser colocadas aonde devem ficar: na deselegância, falta de gentileza e incivilidade. Todavia, historiador que sou e boleiro chegado a uma resenha, discordei de Rodrigo quanto ao assédio coletivo. Não das mazelas do fato, claro, pois inexiste dúvida de que parte da massa são-paulina, reverberada pela imprensa, pegou no pé do treinador desde o primeiro momento em que ocupou sua área técnica. Minha contraposição é de que se trata de “bullying”, exatamente tendo em vista que o articulista invocou a analogia do anfiteatro flaviano, incorporado por imperadores como Cesar e Nero para o amansamento e controle “a pão e circo” da vida romana.
Ao pensarmos num “coliseu”, somos levados a cenas imaginárias de gladiadores e feras se esfalfando em dor, sangue e suplício, a ponto do polegar de um único homem decidir pela morte ou o perdão daqueles que ofereciam o show de horrores para uma horda uivando de prazer nas galerias e arquibancadas das arenas espalhadas pelo império romano. Quem assistiu à franquia “Gladiador” nos cinemas pode performar ainda mais essa “memória” construída. Como curiosidade, estima-se que o Coliseu em Roma comportava em torno de 50 mil espectadores.
Eduardo Galeano me faz outro passe, “os outros onze jogadores sabem que jogar sem torcida é como dançar sem música." É de todo evidente que racismo, homofobia e qualquer outro tipo de violência verbal, física ou psicológica merecem a mais profunda reprimenda, repúdio, investigação e, se demonstrada sua ocorrência, aplicação severa das sanções legais previstas. Isso é o óbvio ululante. Mas e a vaia, a cobrança, a insatisfação, o inconformismo torcedor (ainda que proferidos sem o tato da urbanidade) com as constantes trocas de equipes técnicas, a malemolência em campo e outras hipóteses de inércia futebolística que levam o fervor do torcedor às raias da histeria?
Minha controvérsia se lança a um único ponto: profissionais que são, muito bem pagos e preparados para atuarem no ludopédio, jogadores e técnicos não são gladiadores e feras, escravizados e capturados para o entretenimento coletivo, mas sim homens e mulheres que cumprem um contrato, um contrato “de arena”, e que, portanto, escolhem estar sujeitos às intempéries e humores dos expectadores. Repetirei como um mantra, violência e ilegalidades do torcedor estão fora dessa preleção.
Fernando Mello, em excelente art. publicado no site “Poder 360” de 25/4/26, tem um ponto. “Uma nova epidemia assola o Brasil: a infelicidade futebolística”, crava o articulista. E mais, explicita sua convicção de que a “paixão nacional” está infestada pelo “vírus da insatisfação e do ódio” e potencializada pelo “imediatismo absoluto e o descontentamento geral e irrestrito”. Essa radiografia dialoga com o historiador Flávio de Campos acerca da modernização das arenas brasileiras como “lugares de consumo”. No art. “Arquitetura da Exclusão: Apontamentos para a inquietação com o conforto” (publicado no livro “Futebol objeto das ciências humanas”, Ed. Leya, 2014, p. 349/361), o autor observa que, “em nome do conforto e da segurança”, as atuais praças esportivas representam a implementação de “uma verdadeira higienização social do futebol.”
Há, portanto, um enorme cabo de força nesse Tema, mostrando a diacronia das tensões e transformações pelas quais passa o ambiente futebolístico brasileiro nesses quase 130 anos de sua prática.
A par de qualquer ilicitude ou ilegalidade, a prática abusiva e reiterada de humilhação e hostilidade num ambiente de trabalho caracteriza o assédio moral (seja ele individual ou coletivo) e se faz perniciosa e desagregadora para o melhor desempenho de uma organização e seus profissionais. A relação entre torcida e time está além desse cenário. A lei Geral do Esporte (14.597/23) traz em seu art. 2º. nada menos que 16 princípios fundamentais, dentre eles a educação, a inclusão, a liberdade e a segurança. A toxicidade da conduta maledicente do torcedor ou torcedora mais infeliz, insatisfeito ou consumido em ódio diante de seu time - sobretudo se reverberada num comportamento massificado – vai contra esses princípios que devem pautar os esportes. Se o coliseu romano tinha a barbárie como ação lúdica do império para o controle social, as arenas de futebol no contemporâneo precisam ser palco de um avanço civilizatório, de maneira que vaias e aplausos tenham lugar e sejam compreendidos com níveis toleráveis de emoção e responsabilidade profissional, mas também manifestados dentro de um mínimo de equilíbrio e harmonia social, em benefício da saúde física e mental da coletividade. Afinal, a retórica da lei tem sua função: o que devemos querer é “esporte para toda a vida”.

