Migalhas

Sábado, 22 de fevereiro de 2020

ISSN 1983-392X

Política & Economia NA REAL
Francisco Petros
José Marcio Mendonça

Política & Economia NA REAL n° 191

terça-feira, 27 de março de 2012

Dilma : mudanças e confronto ou marketing ? (I)

Dilma aproveitou a entrevista à revista "Veja" – à qual, aliás, nunca dedicou especial carinho, sempre dedicou "mau olhado" porque partiram da publicação semanal as principais denúncias de "malfeitos" que derrubaram um magote de ministros herdados de Lula – para anunciar que está adotando novas práticas políticas nas relações do Palácio do Planalto com o Congresso e os partidos aliados. "Não gosto desse negócio de toma lá dá cá" – avisou ela. Por "toma lá dá cá" entenda-se o amálgama da ampla e amorfa base aliança eleitoral e legislativa formada por Lula para facilitar a eleição de Dilma e dar sustentação a seu governo na Câmara e no Senado.

Dilma : mudanças e confronto ou marketing ? (II)

Antes, já se havia providenciado a divulgação dessa recente disposição da presidente com um bombardeio da imprensa com informações de fontes oficiosas a partir das derrotas recentes da presidente no Senado e na Câmara e da troca abrupta dos líderes governistas nas duas casas do Legislativo. Providenciou-se até uma declaração de apoio de ninguém menos que o presidente Lula, criador e mentor do monstrengo político que agora assombra o sono de Dilma. Como Lula está com a voz sob embargo, portou-a, para certa incredulidade geral, o novo líder da presidente no Senado, Eduardo Braga. Torce-se para que tal propósito presidencial seja para valer e que, principalmente, seja exequível. Há dúvidas fundadas, porém, entre muitos analistas de que isso seja possível e de que seja para valer por uma simples e boa razão : qual o real cacife da presidente para se confrontar com os partidos que a apóiam ? Qual a disposição dos partidos, inclusive e principalmente o PMDB, em abdicarem do "toma lá dá cá" que os sustenta a falta de programas, ideologia e identificação real com os eleitores ? A desconfiança é a de que não passa de mais um lance de marketing para desviar a atenção da opinião pública do corner político em que ela se encontra.

Encontros com visibilidade

É por essa razão que os encontros dos últimos dias entre a presidente e um grupo selecionado de empresários e a primeira reunião pública de Dilma com os líderes sindicais, patrocinados e badalados pelo Palácio do Planalto estão sendo vistos muito mais como uma estratégia de Dilma para acuar partidos e Congresso do que como encontros de trabalho. Afinal, os problemas que afligem empresários e trabalhadores são conhecidos até pelos bebês candangos. E para eles urge apenas soluções. Diagnóstico e receituário estão à disposição de Dilma, de Mantega, de Alexandre Tombini e de quem mais de direito para que exerçam na plenitude a tal de "vontade política" que tanto faltou aos governantes brasileiros antes de Lula. Segundo ele mesmo, Lula.

Economia : sustentáculo sob risco

Não há nenhum risco iminente para a economia brasileira do ponto de vista cambial ou fiscal. Mais do que as mágicas de marqueteiros, vozes empresariais e sindicais a favor, o apoio irrestrito de Lula e outros que tais, os pilares que sustentam a presidente são mais chãos : a economia e a inflação sob controle. Dilma controla a economia com as mãos de ferro, e, em segunda instância, nas de Guido Mantega e Alexandre Tombini, com os palpites dos conselheiros externos para esta área, Luis Gonzaga Belluzzo e Delfim Neto. De outro lado, o desempenho da atividade econômica dá evidências que o quadro de criação sustentada e empregos e aumento do consumo e do investimento que prevaleceu nos últimos anos não é mais um "porto seguro". Ao contrário, o PIB de 2011 foi decepcionante e os indicadores deste ano são sofríveis e declinantes. O governo terá de combater os riscos que vem de fora e que permanecerão por muito tempo e a deterioração das expectativas no front interno. Dilma e Mantega sabem disso e parecem correr contra o relógio. Todavia, falta-lhes a clareza sobre o rumo estratégico que vão tomar com o objetivo de traçar políticas de curto, médio e longo prazos. A reunião da semana passada, apesar de ser uma tentativa de acuar a classe política, também deixou rastros de que o grau de improvisação da política econômica é significativo. Os empresários sabem disso, mas não falam. Agem com discrição, reduzindo investimentos e vagas de trabalho.

Os parâmetros da economia

Os números oficiosos que o governo sob a batuta (e o tacape) da presidente Dilma está perseguindo este ano são os seguintes :

1. Crescimento do PIB não inferior a 4%, a ser alcançado a ferro e fogo.

2. Dólar na faixa de R$ 1,80 a R$ 1,90, o mais próximo possível do número superior.

3. Juros básicos no máximo em 9%.

4. Inflação abaixo da do ano passado, que bateu em 6,5%. Sem sacrifícios, porém, para atingir o centro da meta de 4,5%.

5. Manutenção do consumo pelo menos nos níveis do ano passado e continuidade da ascensão das famílias das classes D e E para a classe C.

Como ainda não tem – e nem se sabe se conseguirá – criar condições políticas para colocar o Brasil nesta rota sem riscos de percalços, adotando as tão necessárias reformas estruturais no país, o governo apela para expedientes de curto prazo e muito artificialismo na política econômica. Dois exemplos :

1. Para garantir que a inflação não saia dos eixos, apesar dos apelos quase desesperados do Petrobras, protela um necessário (e já atrasado) reajuste no preço dos combustíveis.

2. Para cumprir a promessa de fazer um superávit primário de 3,1% do PIB, está forçando as estatais a aumentar a entrega de dividendos ao Tesouro Nacional, vai ficar este ano com mais de R$ 3 bi do FGTS e, apesar do dito em contrário, estanca seus planos de investimentos, segurando a liberação de recursos.

O problema é que, em algum momento, tudo que é artificial desmancha no ar.

Não seria melhor assim ?

Na conversa com os jornalistas de "Veja" a presidente Dilma admitiu (até que enfim uma autoridade diz isto !) que a carga tributária no Brasil é alta demais. Como já havia acenado para os empresários, prometeu reduzi-la. Como e em que condições, porém, ficou no vazio. Anteontem, domingo, o jornal "O Estado de S. Paulo" publicou um estudo mostrando que os incentivos que o governo concedeu a determinados setores da economia, pontualmente, em seis anos custaram R$ 97,8 bi aos cofres do Tesouro. Ingênua pergunta a economistas e tributaristas oficiais e não oficiais : se os mesmos recursos viessem sido utilizados para uma diminuição linear de impostos, para todos os setores e não para alguns escolhidos, o resultado final para a economia brasileira não teria sido muito melhor ?

Conselheiro marqueteiro

Diz o sempre bem informado jornalista Ricardo Kotscho (por meio de seu blog "Balaio do Kotscho"), com a experiência de alguns anos vividos no Palácio do Planalto nos tempos de Lula, que o principal conselheiro de Dilma, na ausência temporária mais efetiva do ex-presidente, é João Santana. Nada contra ele, cuja competência no seu fazer de marketing político é inquestionável. Mas quando um marqueteiro passa a dar as cartas no campo da política real, algo está fora do lugar. E tem muito para não dar certo. Dilma disse, na reveladora entrevista à "Veja", que somente há crise política de fato quando se perder a legitimidade política. Porém, legitimidade, que só se conquista com o voto popular, pode ser perdida de várias maneiras e por diversas razões. Collor, por exemplo, perdeu por "malfeitorias", Sarney por inapetência gerencial e inflação nos infernos.

Do macro ao micro

A serem totalmente fiéis alguns relatos, sem identificação da fonte, a respeito do encontro da semana passada da presidente Dilma com 28 dos maiores empresários brasileiros, ela teria ouvido do presidente do grupo JBS Friboi, José Batista Junior, críticas a seu modo de governar, já referidas aqui nesta coluna e apontado como um dos maiores entraves a que o governo seja mais eficiente. Centralizadora, detalhista, rude a ponto de intimidar e inibir a iniciativa de ministros e colaboradores, Dilma leva sua administração a uma semiparalisia, a atrasos constantes em liberar projetos, à demora em tomar decisões. Pela expressão atribuída a Batista Junior, ela se prenderia demais ao micro em detrimento do macro. Para uma língua maldosa de Brasília, ela dá mais atenção ao consumo de grampos que ao buraco da estrada.

Assim como a mestre ?

Definição do líder do governo no Senado, Eduardo Braga, por um empresário amazonense bem informado e frequentador das rodas políticas locais : "Ele é realmente muito inteligente, articulado, por isso se julga quase um Deus. É arrogante, autoritário, prepotente e não escuta o que lhe falam por, como uma semidivindade, já saber tudo". Arlindo Chinaglia é visto pelos colegas da Câmara como pessoa de muitas arestas e também um tanto prepotente. A ministra Ideli Salvatti é histriônica, um elefante em loja de louças em matéria de habilidade política. Dois outros possíveis auxiliares de Dilma na tarefa de amainar o Congresso estão fora : Lula, por causa da voz prejudicada pelo tratamento médico e porque precisa manter ainda um bom repouso ; Michel Temer, sumido por razões que não se entendem (mas se explicam facilmente). O clima está, assim, mais para o confronto que para a conciliação.

Pragmatismo lulista

Frase do ex-presidente Lula em entrevista ao jornal "Folha de S.Paulo" anos atrás, citada semana passada pela colunista Dora Kramer : "Qualquer um que ganhar a eleição, pode ser o maior xiita ou maior direitista, não conseguirá montar o governo fora da realidade política. Entre o que se quer e o que se pode fazer vai uma diferença do tamanho do oceano. Se Jesus Cristo viesse para cá e tivesse votação num partido qualquer, Jesus teria de chamar Judas para fazer uma coalizão".

Agora é fazer a unidade de fato

Tucanos eram todos sorrisos, no domingo, depois da prévia que escolheu Serra como o candidato do PSDB à prefeitura de SP. Plumados federais, estaduais e municipais pareciam ter descoberto a pólvora da unidade partidária, sempre ameaçada pelo desfile de egos na passarela partidária. Contudo, os 52% alcançados por Serra, quando se esperava algo entre 70% e 80% para o ex-governador e ex-prefeito, foi, embora eles não digam, uma decepção. Mostrou a divisão ainda existente no partido e fortes resistências a Serra. Antes de começar a caçar alianças com outras legendas, os tucanos precisam fazer mesmo é uma aliança entre si. Conseguiram no domingo dar até alguma alegria à, no momento, cambaleante candidatura do petista Fernando Haddad.

Dando lustro na imagem

O novo presidente do TJ/SP, Ivan Sartori, está se saindo, no momento em que o Judiciário em todo o Brasil está na berlinda, pior do que a pior das encomendas : em pouco tempo à frente do TJ conseguiu desafiar a corregedora do CNJ, Eliane Calmon (voltou atrás), atacou a imprensa e ameaçou retaliar o jornal "Folha de S.Paulo", e decidiu mandar pagar auxílio alimentação a todos os magistrados do Estado, retroativamente a 2006, com justificativas um tanto canhestras. Assim se vai "lustrando" ainda mais a imagem da Justiça brasileira.

Radar NA REAL

23/3/12 TENDÊNCIA
SEGMENTO Cotação Curto prazo Médio Prazo
Juros ¹
- Pré-fixados NA estável estável/alta
- Pós-Fixados NA baixa baixa
Câmbio ²
- EURO 1,3329 baixa baixa
- REAL 1,8151 estável/baixa estável/baixa
Mercado Acionário
- Ibovespa 65.812,95 estável/alta estável
- S&P 500 1.397,11 estável/alta alta
- NASDAQ 3.067,92 estável/alta alta

(1) Títulos públicos e privados com prazo de vencimento de 1 ano (em reais).
(2) Em relação ao dólar norte-americano
NA – Não aplicável

Com a própria corda no pescoço

Diz o advogado contratado pelo senador Demóstenes Torres (DEM/GO) para defendê-lo das suspeitas de ligações suspeitas com o bicheiro Carlinhos Cachoeira, que juridicamente nada atingirá o político do Democrata, pois as possíveis provas conta ele seriam ilegais. A questão não é esta, contudo. Politicamente, Demóstenes está liquidado. Se ficar no Senado, será um morto-vivo, enforcado na própria corda ética com que procurou (acertadamente) enforcar muita gente. É mais um político que não faz o que apregoa, com o agravante de ser também um promotor de Justiça. Não há relação de amizade possível entre um homem público e um contraventor. Há muita gente no Congresso, no entanto, com receio de bater forte nessa história. Afinal, o notório bicheiro Cachoeira está na origem do primeiro escândalo do governo petista : a o caso Waldomiro Diniz.

Fed tentando manter a reputação

Ben Bernanke, o presidente do Fed, está fazendo uma pregação de profeta para assegurar que a política de expansão monetária e dólar fraco permaneça por muito tempo. Para ele a hora não é para se pensar em ajustes fiscais para o imenso déficit que resta na maior economia mundial. O que ele não diz explicitamente e que todos sabem é que o mundo continua a financiar o projeto econômico norte-americano. Os investimentos em papéis do Tesouro Americano continuam enormes e não há fuga de capitais na direção de China e outros BRICS, apesar de todas as avaliações dando conta do declínio do Império Americano.

Aviso aos analistas

A taxa de desemprego dos EUA que vem caindo nos últimos meses reflete mais a desistência de desempregados em buscar empregos que a sustentação da demanda. Portanto, ainda não é anúncio seguro para alimentar grandes expectativas.

Em defesa da liberdade de expressão

Patrícia Blanco foi eleita para a presidente do Conselho Diretor do Instituto Palavra Aberta, vago desde a aposentadoria de Evandro Guimarães nas Organizações Globo. O Palavra Aberta tem por mote defender o livre direito de expressão no Brasil e foi criado, entre outros, a ANJ – Associação Nacional de Jornais, ABERT – Associação Brasileira das Emissoras de Rádio e Televisão, ANER – Associação Nacional de Editores de Revistas, e a ABAP – Associação Brasileira de Agencias de Propaganda.

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Francisco Petros

Francisco Petros, é advogado, sócio responsável pela área societária, compliance e de governança corporativa do escritório Fernandes, Figueiredo, Françoso e Petros Advogados. Economista e pós-graduado em finanças. Trabalhou por mais de 25 anos no mercado de capital, em instituições financeiras brasileiras e estrangeiras. Foi presidente da APIMEC - Associação Brasileira dos Analistas e Profissionais de Investimentos do Mercado de Capitais (2000-2002).

José Marcio Mendonça

José Marcio Mendonça, é jornalista e comentarista político; editou o Caderno de Sábado, o suplemento de Cultura do Jornal da Tarde e foi chefe de redação da sucursal de Brasília dos jornais: O Estado de S.Paulo e Jornal da Tarde. Apresenta: A Palavra de Quem Decide na Rádio Eldorado e escreve para o Portal Estadão e no Blog: A Política como Ela é.

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