Migalhas

Segunda-feira, 24 de fevereiro de 2020

ISSN 1983-392X

Porandubas Políticas
Gaudêncio Torquato

Porandubas nº 310

quarta-feira, 21 de março de 2012

Abro a coluna com a verve do passado.

Ao abrir a sessão da Câmara Federal, quando ainda era sediada no Rio de Janeiro, o presidente Ranieri Mazzilli concedeu a palavra a Carlos Lacerda, então representante do Distrito Federal. Rápido e agressivo, o deputado Bocaiúva Cunha gritou ao microfone, sob os risos do plenário :

- Agora vocês vão ver o purgante !

Lacerda, num piscar de olhos, respondeu :

- Os senhores acabaram de ouvir o efeito !

Nem os adversários prenderam o riso.

Frentes abertas

Sob as glórias de 76% de aprovação popular, a presidente Dilma Rousseff quer inaugurar uma nova forma de governar. À sua imagem e semelhança. Impondo conceito, regras, formas, métodos. Será bem-sucedida. É possível. Na política, tudo é possível. Por conta de seu estilo, algumas frentes foram abertas contra o Governo. Vejamos.

I - A onda política

A nomeação de novos líderes do Governo para o Senado e Câmara é prerrogativa da presidente. Incontestável. Mas a cultura política aconselha que as nomeações deveriam ser precedidas de um sistema de consultas. Se houve consulta, não se sabe. Deve, isso sim, ter havido muita conversa de bastidor entre Dilma, Lula e um pequeno grupo de assessores. Resultado : a demissão do senador Jucá e do deputado Vaccarezza de seus postos para dar lugar ao senador Eduardo Braga e ao deputado Arlindo Chinaglia pegou de surpresa o mundaréu político. O PT mostrou-se rachado. E o PMDB, ferido. Para complicar, o PR do Senado saiu da base do governo. Os políticos não estão satisfeitos com o estilo rompante da ministra Ideli. Que, como se deduz, não dá um passo sem consultar a presidente. Forma-se uma onda no Congresso que poderá inundar os vãos e desvãos do Palácio do Planalto.

II - A onda empresarial

Os empresários, principalmente os integrantes do universo industrial, se queixam do processo de desindustrialização a que vem sendo submetido o país. De cada quatro produtos adquiridos no mercado brasileiro, um é chinês. O PIB industrial despenca. O chão de fábrica se estreita. Os empregos estão migrando da indústria para os setores de serviços. A insatisfação se expande. O governo promete medidas pontuais. Mas não age. Fábricas são fechadas. Polos têxteis, como o de São Paulo, enfraquecem. A mais poderosa Federação das Indústrias do país, a FIESP, toma a frente da movimentação. Dia 4 de abril fará um grande movimento em São Paulo, juntamente contra as Centrais Sindicais. As Centrais querem mobilizar cerca de 100 mil pessoas. Essa é mais uma poderosa frente contra a inércia do governo em relação à indústria.

III - A onda militar

A terceira frente contra o governo Dilma emerge na área militar. Mais exatamente, no refúgio dos militares aposentados. Que, agora de pijama, expressam um discurso de insatisfação/indignação contra as pretensões da Comissão da Verdade. O Ministério Público pretende resgatar a história dos desaparecidos. E quer que a Comissão da Verdade abra o véu do passado. Os militares sustentam o argumento de que a lei da anistia passou uma borracha no passado. Os desaparecidos foram dados como mortos. Como poderiam, agora, ser considerados vivos ? Não é possível, segundo eles, restabelecer essa condição. Mas os nossos aposentados das Forças Armadas não têm forças, ou seja, armamentos. Ocorre que os verbos contundentes que expressam poderão criar fagulhas nos quartéis. Não se pode desprezar a insatisfação nesse meio.

IV - A onda sindical

A quarta frente contra o estilo Dilma de governar age no seio das Centrais Sindicais. Que se sentem desprestigiadas. Sem a intensa interlocução que possuíam na era Lula. Naqueles tempos, os líderes sindicais desfilavam quando queriam pelo Palácio do Planalto. Agora, só esporadicamente. Não dispõem mais das portas abertas do poder central. Lutam para fazer chegar à presidente seu clamor. Por isso, as Centrais Sindicais se juntam aos empresários industriais, insatisfeitos, para adensar o bolsão de contrariedade contra o governo. Farão movimentação por todo o país, a partir de uma grande passeata, em São Paulo, dia 4 de abril.

V - A onda cultural

Há, ainda, uma frente contra o Governo, mais exatamente contra uma ministra do governo Dilma, Ana de Hollanda. A classe artística pede sua substituição. As manifestações pedindo a mudança da ministra se expandiram, recentemente, a partir da informação de que o Ministério da Cultura advogou em favor do ECAD (escritório de arrecadação e distribuição de direitos) em um processo no qual a instituição autoral é acusada de cartelização e gestão fraudulenta. O processo está em julgamento no Conselho de Administrativo de Defesa Econômica.

VI - A onda internacional

Há certo acirramento de ânimo entre o Brasil e alguns países. Na última viagem da presidente Dilma à Europa, ela fez sérias críticas à política monetária expansionista dos países europeus, que produz efeitos nocivos por desvalorizar de forma artificial as moedas. A chanceler da Alemanha, Angela Merkel, em tom crítico, respondeu com o argumento de que o Brasil exerce políticas protecionistas muito duras. A posição do Brasil em relação à ditadura síria e ao Irã também é motivo de críticas.

Mineirinhas

Frases de Augusto Zenun, de Campestre, sul de Minas - político, industrial, filósofo e, antes de tudo, udenista ortodoxo da linha bilaqueana (Bilac Pinto, o Bilacão, seu dileto amigo). Sempre infernou a vida de seus adversários, com as suas atitudes destemidas e sua natural mineirice.

"Quando estamos no governo, todo adversário que quer se encaixar, diz ser técnico".

"O preço do voto de um eleitor mentiroso é sempre o mais caro".

"Há um fato na política que a torna bastante interessante : o choque dos falsos políticos com os políticos falsos".

"Político é dividido em duas partes. Uma trabalha para ser eleito. A outra trabalha para conseguir um cargo público se for derrotado".

"Muita campanha eleitoral se parece com sauna : depois do calorão vem uma ducha fria". (Pinçadas de A Mineirice, de José Flávio Abelha)

Riscos

Não existe política sem riscos; o problema é de limites.

22% de insumos importados

Um dado revelador : 22,4% dos insumos utilizados por fabricantes brasileiros, no ano passado, foram importados. O maior patamar da série histórica iniciada desde 1996.

Uma frente por vez

Lição geral da política : ataque um inimigo por vez. Cuidado quando entrar na arena de guerra. Se você tem muitos adversários, poderá perder o foco.

Velhas lições

As lições de táticas e estratégias dos clássicos da política e das guerras parecem não merecer nenhuma consideração por parte de nossa presidente. Lembremos pequenos conselhos de Sun Tzu :

a) "Quando em região difícil, não acampe. Em regiões onde se cruzam boas estradas, una-se aos seus aliados. Não se demore em posições perigosamente isoladas. Em situação de cerco, deve recorrer a estratagemas. Numa posição desesperada, deve lutar. Há estradas que não devem ser percorridas e cidades que não devem ser sitiadas".

b) "Não marche, a não ser que veja alguma vantagem; não use suas tropas, a menos que haja alguma coisa a ser ganha; não lute, a menos que a posição seja crítica. Nenhum dirigente deve colocar tropas em campo apenas para satisfazer seu humor; nenhum general deve travar uma batalha apenas para se vangloriar. A ira pode, no devido tempo, transformar-se em alegria; o aborrecimento pode ser seguido de contentamento. Porém, um reino que tenha sido destruído jamais poderá tornar a existir, nem os mortos podem ser ressuscitados".

Não perder o controle

Lembro mais esses dois princípios :

- Nunca descuide da perda de controle sobre o processo de governo, se a governabilidade cai abaixo de seu ponto crítico;

- Se isso ocorrer, tente imediatamente reverter o processo de desacumulação de força, evitando ingressar nos limites de perda de capacidade de reverter o processo.

Serra nas prévias

No próximo domingo, ocorrerão as prévias tucanas para escolha do candidato do PDSB à prefeitura de São Paulo. Claro, José Serra será eleito. Apesar de José Aníbal garantir que ele ganhará essa pequena eleição. Serra será o candidato. Ganhará as eleições ? Perspectivas : tem competitividade; poderá polarizar a campanha; ir para o segundo turno. E a rejeição ? Se for muito alta, na margem dos 30%, babau. Perderá. Se conseguir baixar para a casa dos 15%, terá condições de chegar ao topo.

30% do PT

Fernando Haddad, candidato do PT, chegará aos 30% de intenção de voto. Essa é a margem histórica do PT. Lula carregando seu pupilo nas costas terá condição, sim, de elevar essa margem.

PR na oposição ?

Onda. Não vejo PR na oposição. Coisa de momento. Crise de nervos. Passa com qualquer calmante. Um cargo melhor aqui, um Ministério acolá. Nada que possa mudar a índole governista do partido.

A união do PMDB

Deputados e senadores do PMDB serão convocados para refletir sobre a equação : a unidade partidária é a porta do futuro. Quanto mais unidos, mais larga será a porta. A recíproca é verdadeira.

PT e PSB

Eduardo Campos continua a tricotar sua roupa para desfilar em 2014. Mas o PT e o PSB começam a brigar em algumas capitais. Em João Pessoa, o PT quer lançar candidato próprio, quebrando a aliança com o PSB do governador Ricardo Coutinho. Em São Paulo, avançam as negociações em torno de uma aliança entre PSDB e PSB. Em Fortaleza, também será possível que o PSB lance candidato próprio, rompendo a parceria com o PT da prefeita Luizianne Lins.

65% de conteúdo local

A nova presidente da Petrobras, Graça Foster, promete que a indústria nacional de serviços de petróleo usará 65% de conteúdo local. Ou seja, para cumprir a meta de buscar óleo nas camadas de pré-sal, a empresa investirá muito dinheiro. Seu programa de investimentos é da ordem de US$ 225 bilhões em 5 anos. As compras locais fazem parte da política de fortalecimento da indústria nacional. Trata-se, segundo ela, de "requisito básico da Nação e da Petrobras".

Rumores

Sobre rumores de crise ministerial, face a demissão do Ministro Clemente Mariani, da Fazenda, Jânio Quadros dirigiu um bilhete ao seu secretário particular José Aparecido de Oliveira :

"Aparecido :

Leio num jornal que o Ministério está em crise...

Veja se localiza para mim.

Leio, também, que recebi, da Fazenda, um bilhete enérgico.

Desminta. O ministro é educado bastante, para não o escrever ao presidente.

E o presidente não é educado bastante, para recebê-lo...

Assinado - Jânio Quadros

09/08/1961". (Historinha contada pelo escritor e jornalista amigo Nelson Valente em seu livro sobre Jânio Quadros)

Conselho aos novos líderes do Governo

Esta coluna dedica sua última nota a pequenos conselhos a políticos, governantes e líderes nacionais. Na última coluna, o espaço foi destinado aos novos líderes. Hoje, sua atenção se volta aos novos líderes do governo no Senado e na Câmara, respectivamente, senador Eduardo Braga e deputado Arlindo Chinaglia :

1. Na política, nem sempre a menor distância entre dois pontos é uma reta, como na geometria euclidiana. Portanto, procurem fazer também algumas curvas. Ou seja, não queiram andar apenas nas retas da política. Sob pena de tropeçarem.

2. Significa que deverão anotar as demandas de parlamentares e partidos. E implementar, pontualmente, tais demandas sob pena de um alto preço a pagar, mais adiante.

3. Os novos líderes precisam se lembrar que a imposição de uma nova modelagem na esfera da gestão e articulação política implica combinação/acordo com as partes envolvidas no processo.

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Gaudêncio Torquato

Gaudêncio Torquato, (gt@gtmarketing.com.br) é jornalista, consultor de marketing institucional e político, consultor de comunicação organizacional, doutor, livre-docente e professor titular da Universidade de São Paulo e diretor-presidente da GT Marketing e Comunicação.

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