Viagem do Lula

18/10/2007
José Roberto F. Militão

"A despeito das críticas e bazofias desrespeitosas, a verdade é que o presidente Lula ao prestigiar a África (Migalhas 1.759 – 15/10/07 – "África" – clique aqui) está contribuindo para retirá-la do esquecimento 'oportuno', e generalizado pelas antigas beneficiárias as metrópoles coloniais, que após quatro séculos de retirada dos braços africanos - cerca de 30% de todos jovens e saudáveis eram seqüestrados e traficados para escravidão e a 'colonização' (sem colonizar) da África, exclusivamente predatória para a exploração dos recursos naturais sem qualquer investimento em infra-estrutura permanente e agora, não reconhecem sua responsabilidade pelos crimes de lesa humanidade que empobreceram e espoliaram o continente. Aproveito para relembrar aos ilustres migalheiros fatos históricos relevantes: a criação da crença em raças; a designação dos africanos por 'raça negra' e a ideologia racial são concomitantes do século XVIII. A África atual e os afros descendentes na diáspora são vítimas do racismo imposto aos humanos a partir do iluminismo e sua concepção da igualdade natural dos homens (Rousseau; Revolução Francesa; Carta da Independência dos EUA) com a criação do 'racismo' científico do Conde Gobineau (1853), surgindo a partir de então a famigerada designação da 'raça negra', até então inexistente. A designação degradante dos pretos por 'raça negra', teve fins bem explícitos, nas palavras do nosso Marquês de Pombal, em lei visando beneficiar os nativos e que vigorou no Brasil a partir de 1755, in verbis, na grafia da época:

DIRECTORIO, que se deve observar nas Povoações dos Índios do Pará, e Maranhão em quanto Sua Majestade não mandar o contrario:

1 - SENDO Sua Magestade servido pelo alvará com força de Ley de 7 de Junho de 1755. abolir a administração Temporal, * que os Regulares exercitavaõ nos Indios das Aldeas deste Estado; * mandando-as governar pelos seus respectivos Principáes, * como estes pela lastimosa rusticidade, e ignorancia, com que até agora foraõ educados, * naõ tenhaõ a necessaria aptidaõ, * que se requer para o Governo, * sem que haja * quem os possa dirigir, * propondo-lhes naõ só os meios da civilidade, mas da conveniencia, * e persuadindo-lhes os proprios dictames da racionalidade, * de que viviaõ privados, * para que o referido Alvará tenha a sua devida execuçaõ, * e se verifiquem as Reáes, e piissimas intençoens do dito Senhor, * haverá em cada huma das sobreditas Povoaçoens, * em quanto os Indios naõ tiverem capacidade * para se governarem, * hum Director, * que nomeará o Governador, e Capitaõ General do Estado, * o qual deve ser dotado de bons costumes, zelo, prudencia, verdade, sciencia da lingua, e de todos os mais requisitos necessarios * para poder dirigir com acerto os referidos Indios debaixo das ordens, e determinações seguintes, * que inviolavelmente se observaráõ em quanto Sua Magestade o houver assim por bem, * e naõ mandar o contrario. (omissis)
10 - Entre os lastimosos principios, e perniciosos abusos, de que tem resultado nos Indios o abatimento ponderado, * he sem duvida hum delles a injusta, e escandalosa introducçaõ * de lhes chamarem NEGROS; * querendo talvez com a infamia, e vileza deste nome, * persuadir-lhes, * que a natureza os tinha destinado para escravos dos Brancos, * como regularmente se imagina a respeito dos Pretos da Costa de Africa. * E porque, além de ser prejudicialissimo á civilidade dos mesmos Indios este abominavel abûso, * seria indecoroso ás Reáes Leys de Sua Magestade * chamar NEGROS a huns homens, * que o mesmo Senhor foi servido nobilitar, * e declarar por isentos de toda, e qualquer infamia, * habilitando-os para todo o emprego honorifico: * Naõ consentiraõ os Directores daqui por diante, * que pessoa alguma chame NEGROS aos Indios, * nem que elles mesmos usem entre si deste nome * como até agora praticavaõ; * para que comprehendendo elles, * que lhes naõ compete a vileza do mesmo nome, * possaõ conceber aquellas nobres idéas, * que naturalmente infundem nos homens a estimaçaõ, e a honra. * (clique aqui)

Infelizmente, essa designação dos pretos por 'negros' acabou sendo imposta e hoje, existe até o movimento negro brasileiro, embora os antigos pretos não se reconheciam como negros e tinham suas irmandades de Homens de Cor e de Homens Pretos, jamais de Homens negros, nem os afro-americanos dos EUA que preferem os 'black's moviments', 'black music', 'black people', etc. Portanto, a intuição política do presidente sem cultura, mais uma vez se apresenta superior ao entendimento médio de quem prefere 'esquecer' os crimes do passado, que vão do seqüestro ao cárcere privado; do estupro ao genocídio; do trabalho forçado ao tratamento cruel, além da apropriação dos bens materiais, das riquezas minerais, do patrimônio cultural e tradicional, com a imposição de línguas, crenças e religiões alienígenas até a imposição de governantes títeres e de fronteiras políticas e geográficas dividindo povos e tradições, berço e semente das guerras como a tragédia de Ruanda dos Tutsis e Hutus e seus 2 milhões de vítimas, uma herança da metrópole Alemã (até 1ª. Guerra Mundial) e Bélgica depois. Enfim, se 'a escravidão foi uma nódoa na história da humanidade que jamais será apagada' conforme o Ministro da Fazenda Rui Barbosa que mandou queimar os arquivos de entrada de escravos no Brasil, é isso o que Lula está lembrando ao mundo ocidental: temos uma dívida histórica e temos responsabilidade com a sorte dos africanos da África e com os da diáspora, como os pretos brasileiros e os do Haiti, Cuba, Peru ou de News Orleans. O que faz Lula é o início da diplomacia de 'Reparações' devidas aos povos vítimas do maior crime de todos os crimes coletivos da história da humanidade."

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