No século XIV, Giotto di Bondone retratou Justiça e Injustiça em Pádua
Na Capela Scrovegni, pintor traduziu em imagens o conflito moral medieval.
Da Redação
sexta-feira, 30 de janeiro de 2026
Atualizado em 29 de janeiro de 2026 16:33
Além de habitar leis e processos, a Justiça também se faz imagem.
No início do século XIV, em Pádua, na Itália, ela ganhou corpo, rosto e gesto nas mãos do pintor e arquiteto Giotto di Bondone, um dos grandes nomes da transição entre a Idade Média e o Renascimento.
Os afrescos pintados na Capella degli Scrovegni foram encomendados por Enrico Scrovegni, membro de uma rica família de banqueiros marcada pela prática da usura (agiotagem) - atividade duramente condenada pela Igreja medieval.
Segundo a interpretação apresentada pela doutora em Educação Meire Nunes Lóde e pela doutora em História, Terezinha Oliveira1, a encomenda do ciclo de afrescos não se restringia a uma demonstração de devoção religiosa, mas se vinculava ao desejo de reconhecimento social e de reabilitação simbólica de sua imagem pública em um contexto marcado pela condenação moral da atividade bancária.
A obra
Segundo as pesquisadoras, a Capela degli Scrovegni carrega um programa iconográfico sofisticado e cuidadosamente estruturado.
Ao longo das paredes laterais, Giotto organizou cenas da vida de Joaquim e Ana, da Virgem Maria e de Jesus Cristo, compondo uma narrativa visual contínua que conduz o fiel do nascimento à redenção.
Na parte inferior dessas paredes, o artista introduziu dois ciclos alegóricos centrais para a compreensão da obra: o das virtudes e o dos vícios.
As virtudes aparecem dispostas na seguinte ordem: prudência, fortaleza, temperança, justiça, fé, caridade e esperança. Em correspondência direta, no lado oposto, estão os vícios: estupidez, inconstância, ira, injustiça, infidelidade, inveja e desespero.
Conforme observam Meire Nunes Lóde e Terezinha Oliveira, essa justaposição estabelece uma dualidade simbólica que representa o conflito moral vivido pelos fiéis.
Posicionados fisicamente entre essas imagens antagônicas, os observadores são chamados a exercer a prudência como guia para suas escolhas e ações, num percurso que pode conduzir tanto ao bem quanto ao mal.
A Justiça
Entre as virtudes representadas, a Justiça ocupa posição de destaque.
As autoras assinalam que a centralidade não é apenas espacial, mas também teológica e simbólica.
Giotto a representa como uma figura feminina serena, sentada em um trono, com vestes que caem suavemente e reforçam a impressão de leveza, equilíbrio e nobreza.
O olhar da Justiça, voltado para o altar, confere à figura uma dimensão espiritual, indicando sua vinculação direta à ordem divina.
A coroa que adorna sua cabeça simboliza a elevação moral e o poder de discernimento, atributos associados ao julgamento e à restauração da ordem.
Essa leitura é reforçada pelos símbolos tradicionais presentes na cena.
A balança, sustentada pelas mãos da Justiça, torna visível o juízo sobre os atos humanos.
Meire Nunes Lóde e Terezinha Oliveira chamam atenção para um detalhe significativo: os fios que sustentam a balança parecem se ligar a um ponto invisível acima da cena, sugerindo que, em última instância, é Deus quem conduz o julgamento.
Em um dos pratos da balança, um anjo se prepara para coroar um homem virtuoso, gesto que remete à recompensa celeste. No outro, outro anjo empunha uma espada, símbolo do poder de punir, mas também de restaurar a ordem e proteger a justiça.
A Injustiça
Em oposição direta à Justiça, Giotto apresenta a personificação da Injustiça.
Conforme descrevem as autoras, trata-se de figura masculina imponente, vestida de forma nobre e entronizada. No entanto, o trono está em ruínas, evidenciando a fragilidade e a instabilidade do poder.
Em uma das mãos, a Injustiça segura um cetro que se assemelha a uma lança dotada de ganchos, evocando a imagem de anzóis destinados a capturar as almas humanas.
Essa simbologia aproxima a figura dos demônios representados no Juízo Final, associação reforçada por seus traços grotescos e ameaçadores.
Na outra mão, a espada permanece embainhada, o que, segundo a interpretação de Meire Nunes Lóde e Terezinha Oliveira, simboliza o uso arbitrário e não legítimo da força.
O cenário ao redor da figura confirma o caos instaurado pela ausência de Justiça: árvores que crescem de forma desordenada, animais soltos e cenas de violência que incluem assassinato, ataque sexual e preparação para a guerra.
Trata-se, como destacam as pesquisadoras, de um mundo corrompido pela injustiça.
Justiça divina e Justiça laica
A análise de Meire Nunes Lóde e Terezinha Oliveira ressalta que o ciclo pictórico de Giotto não pode ser compreendido de forma isolada.
Ele se insere em um contexto histórico mais amplo, marcado pelas transformações dos séculos XIII e XIV e pelos debates em torno da justiça divina e da justiça laica.
Amparadas na historiografia, as autoras situam esse período como herdeiro do chamado Renascimento do século XII, caracterizado pela expansão urbana, pelo fortalecimento das universidades e pela retomada do Direito romano, agora reinterpretado à luz da teologia cristã.
Nesse cenário, o Direito começa a se afastar gradualmente de uma fundamentação exclusivamente religiosa, sem, contudo, romper com ela. A justiça permanece entendida como expressão da vontade divina, mas sua administração passa a ser reconhecida como tarefa humana, exercida no âmbito da vida social e institucional.
Quem foi Giotto di Bondone?2
Giotto di Bondone (1267–1337) foi um dos mais importantes pintores do final da Idade Média e é considerado o grande responsável pela transição da arte medieval para uma pintura mais naturalista.
Nascido na região da Toscana foi discípulo de Cimabue, embora relatos sobre sua origem humilde e descoberta como pastor sejam hoje vistos como lendários.
Giotto rompeu com os modelos bizantinos ao representar figuras sólidas, tridimensionais e expressivas, baseadas na observação da realidade.
Sua obra-prima é o ciclo de afrescos da Capela Scrovegni, em Pádua, no qual inovou ao explorar emoção, narrativa dramática e espacialidade.
Ao longo da vida, trabalhou em importantes centros italianos, como Florença, Assis, Roma e Nápoles, influenciando decisivamente gerações posteriores, incluindo artistas do Renascimento.
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1 LÓDE-NUNES, Meire Aparecida; OLIVEIRA, Terezinha. A justiça nos séculos XIII e XIV segundo Giotto di Bondone e Tomás de Aquino: imagens e textos como fonte. Brathair, São Luís, v. 23, n. 2, p. 291–306, 2023. Disponível em: https://ppg.revistas.uema.br/index.php/brathair/article/view/3966. Acesso em: 26 jan. 2026.
2 GIOTTO di Bondone. Biography. Disponível em: https://giottodibondone.org/biography.html. Acesso em: 26 jan. 2026.





