No século XVI, pintor Rafael Sanzio retratou a Justiça no Vaticano
Em afresco na Stanza della Segnatura, Justiça foi retratada como eixo do Direito Civil e Canônico.
Da Redação
sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026
Atualizado em 5 de fevereiro de 2026 18:41
Além de habitar leis e processos, a Justiça também se faz imagem.
Entre 1508 e 1511, por encomenda do Papa Júlio II, Rafael Sanzio decorou a Stanza della Segnatura, um dos aposentos do Palácio Apostólico do Vaticano.
Segundo as arte-educadoras Margaret Imbroisi e Simone Martins1, a sala consolidou-se como uma verdadeira "câmara do saber": ali, a pintura organiza uma visão de mundo em que a Justiça deixa de ser apenas virtude moral para assumir a condição de fundamento intelectual e institucional do governo.
Além da Stanza della Segnatura, Rafael também foi responsável pela decoração de outros três ambientes do Vaticano: a Stanza di Eliodoro, a Stanza dell’Incendio di Borgo e a Stanza di Costantino.
De biblioteca a "sala das assinaturas"
A reconstrução historiográfica indica que a Stanza della Segnatura foi utilizada pelo Papa Júlio II como biblioteca e escritório privado, além de espaço destinado à chancela de atos e decretos pontifícios - o que ajuda a compreender sua forte vocação jurídico-institucional.
As arte-educadoras destacam que a própria denominação "Segnatura" se relaciona ao tribunal da Santa Sé encarregado de matérias de graça e justiça, reforçando a associação entre o ambiente e a autoridade decisória do papado.
Um programa em quatro partes
O teto da Stanza della Segnatura é dividido em quatro campos, cada qual dedicado a uma faculdade do espírito, representada por alegorias femininas: Filosofia, Teologia, Poesia e Justiça.
Esses mesmos conceitos são retomados e aprofundados nas paredes laterais, em grandes composições:
- A Escola de Atenas, correspondente à Filosofia;
- A Disputa do Santo Sacramento, à Teologia;
- O Parnaso, à Poesia; e
- A parede dedicada à Justiça (foto a seguir).
Logo acima da janela, Rafael pintou uma figura feminina entronizada, posicionada no eixo central da composição. Segundo as arte-historiadoras, a imagem não representa um episódio concreto, mas um princípio abstrato: trata-se da Justiça.
A historiadora Christiane L. Joost-Gaugier2 chama atenção para um ponto sensível da composição: as três figuras femininas, tradicionalmente identificadas como virtudes, nem sempre se ajustam com clareza aos atributos clássicos da iconografia moral.
Daí a hipótese - debatida pela autora - de que esse trio dialogue com tradições simbólicas mais antigas, como a das Três Graças ou de "irmãs" associadas à harmonia do governo e à ordem da lei.
A tese é provocadora, mas coerente com o ambiente: concebida como biblioteca e espaço de reflexão, a parede funcionaria como verdadeira concordância visual entre fontes, sistemas e genealogias do Direito.
Laterais
Nas laterais da janela, aparecem duas cenas que funcionam como verdadeira síntese do direito ocidental. À esquerda, a entrega das Pandectas ao imperador Justiniano; à direita, a entrega das Decretais3 ao papa Gregório IX.
Na cena canônica, o papa retratado possui os traços do próprio Júlio II, ladeado por Giovanni de’ Medici e Alessandro Farnese, futuros papas Leão X e Paulo III, reforçando a ideia de continuidade institucional do poder pontifício.
A historiadora Christiane L. Joost-Gaugier propõe uma leitura decisiva: em vez de compreender toda a parede como "a parede da Justiça", o programa deve ser lido a partir da distinção entre Justiça, como instância supervisora, e Jurisprudência, como aplicação concreta da Lei nos painéis inferiores.
A escolha de Justiniano e Gregório IX, portanto, não é decorativa. Ela coloca lado a lado os dois grandes pilares de legitimação jurídica do Ocidente:
- Pandectas (ou Digesto): símbolo do Direito Romano consolidado no Corpus Iuris Civilis, frequentemente associado à racionalização do Direito Civil e à tradição imperial.
- Decretais (Liber extra): símbolo do Direito Canônico, como forma de sistematização normativa do poder pontifício e da disciplina eclesiástica.
Na leitura de Joost-Gaugier, essa composição revela também uma camada política: Júlio II é apresentado como herdeiro de um duplo legado - império e Igreja, lei civil e lei canônica -, convertendo erudição jurídica em argumento de poder.
Moldura jurídica
A leitura da Stanza della Segnatura ganha ainda mais sentido quando colocada em diálogo com a matéria anterior desta série, dedicada aos afrescos de Giotto di Bondone na Cappella degli Scrovegni.
Se em Giotto a Justiça aparece como virtude moral, voltada ao julgamento das ações humanas e ao destino individual das almas, em Rafael ela se desloca para o plano da institucionalidade: torna-se fundamento do Direito, da Lei e do exercício do poder.
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Referências
- IMBROISI, Margaret; MARTINS, Simone. Stanza della Segnatura, Rafael Sanzio. História das Artes, 2026. Disponível em: https://www.historiadasartes.com/stanza-segnatura-rafael/. Acesso em: 30 jan. 2026.
- JOOST-GAUGIER, Christiane L. The Concord of Law in the Stanza della Segnatura. Artibus et Historiae, v. 15, n. 29, p. 85–98, 1994. Disponível em: https://www.jstor.org/stable/1483486. Acesso em: 30 jan. 2026.
- Algumas fontes atribuem a cena da entrega das Pandectas ao imperador Justiniano ao pintor Lorenzo Lotto.
- BARDI, Andrea. La Stanza della Segnatura di Raffaello in Vaticano. Progetto Storia dell’Arte, 11 jan. 2022. Disponível em: https://www.progettostoriadellarte.it/2022/01/11/la-stanza-della-segnatura-di-raffaello-in-vaticano/. Acesso em: 30 jan. 2026.
- MUSEI VATICANI. Virtù Cardinali e Teologali e la Legge. Disponível em: https://www.museivaticani.va/content/museivaticani/it/collezioni/musei/stanze-di-raffaello/stanza-della-segnatura/virtu-cardinali-e-teologali-e-la-legge.html. Acesso em: 30 jan. 2026.



