Paraty já integrou rota do ouro e hoje é palco literário internacional
Antigo ponto estratégico do Brasil colonial, município reúne patrimônio histórico e projeção internacional com a festa literária.
Da Redação
segunda-feira, 20 de julho de 2026
Atualizado em 17 de julho de 2026 16:19
Por alguns dias, as ruas de pedra, os casarões coloniais e as praças de Paraty serão ocupados por escritores, leitores, artistas e jornalistas. Entre 22 e 26 de julho, a cidade do litoral Sul do Rio de Janeiro recebe a 24ª edição da Flip - Festa Literária Internacional de Paraty.
Muito antes de se tornar cenário de uma das principais celebrações literárias do país, porém, Paraty já concentrava histórias de disputas políticas, circulação de riquezas, fiscalização, poder e administração da Justiça.
Reconhecida como vila em 1667, a antiga Villa de Nossa Senhora dos Remédios de Paratii esteve no centro das rotas econômicas que ligavam o litoral às áreas mineradoras. A Carta Régia de 28 de fevereiro daquele ano reconheceu a autonomia que os moradores já reivindicavam em relação a Angra dos Reis.
Sua localização transformaria a vila em uma das principais portas de entrada e saída do Brasil colonial.
Caminho do Ouro
Com a descoberta de ouro em Minas Gerais, Paraty tornou-se ponto de passagem para quem seguia do Rio de Janeiro em direção às minas. Pelo porto da cidade circulavam pessoas, mercadorias, escravizados e parte da riqueza extraída no interior da colônia.
A vila era uma das extremidades do chamado Caminho do Ouro, conjunto de trilhas que atravessava a serra e estabelecia uma ligação entre o litoral e a região mineradora.
A posição estratégica também submetia a circulação a mecanismos de controle. Postos instalados ao longo do percurso permitiam a fiscalização das mercadorias e a cobrança de tributos pela Coroa portuguesa. Ruínas dessas estruturas ainda integram o patrimônio arqueológico relacionado ao caminho.
No fim do século XVII e durante parte do século XVIII, Paraty viveu um período de intensa movimentação. Seu porto permitia que o ouro chegasse ao litoral para, posteriormente, ser embarcado em direção à Europa. A própria Unesco identifica a cidade como o ponto final da rota utilizada no transporte do metal.
Com a abertura de caminhos alternativos e o declínio da mineração, Paraty perdeu parte da importância econômica alcançada naquele período. Mais tarde, a cidade ainda participou do ciclo do café, antes de enfrentar um longo período de isolamento.
Esse afastamento dos principais eixos econômicos contribuiu, paradoxalmente, para a preservação de seu conjunto arquitetônico. A reintegração mais intensa da cidade à região ocorreu apenas na década de 1970, com a construção da rodovia Rio–Santos.
Em julho de 1976, um ano após o início das obras de saneamento e poucos anos depois da abertura da rodovia Rio–Santos, O Globo dedicou uma reportagem especial a Paraty sob o título "O passado em busca do futuro".
O texto alertava que a cidade, preservada durante décadas pelo isolamento econômico, poderia perder justamente aquilo que a tornava singular diante do avanço do turismo e da expansão urbana.
A reportagem defendia a implantação de um plano de proteção para conciliar desenvolvimento e preservação do conjunto histórico, preocupação que permanece atual quase meio século depois.
Poder local
Durante o período colonial, a Câmara exercia funções mais amplas do que as atualmente associadas ao Legislativo. O chamado Senado da Câmara participava da administração da vila e reunia atribuições políticas, fiscais e judiciais.
Seus integrantes eram escolhidos entre os chamados "homens bons", grupo formado por moradores com posição econômica e social suficiente para ocupar cargos públicos. Juízes, vereadores, procuradores e almotacés que atuavam na solução de conflitos, na fiscalização do comércio e no cumprimento das determinações da Coroa.
Patrimônio entre a serra e o mar
O centro histórico preservado é hoje um dos elementos que tornam Paraty singular. O traçado urbano, os sobrados, as igrejas e as ruas de pedra mantêm marcas das diferentes etapas de formação da cidade.
Em 2019, o conjunto formado por Paraty e Ilha Grande foi reconhecido pela Unesco como Patrimônio Mundial misto, categoria que reúne valores culturais e naturais. O território protegido inclui o centro histórico, o Morro da Vila Velha e quatro áreas de preservação da Mata Atlântica.
Segundo a Unesco, Paraty é uma das cidades costeiras mais bem preservadas do Brasil. A paisagem reúne o patrimônio arquitetônico, a Serra da Bocaina, áreas de Mata Atlântica e a baía de Ilha Grande.
A preservação, contudo, não transforma a cidade em um espaço congelado no tempo. O centro histórico continua ocupado por moradores, comerciantes, comunidades tradicionais, atividades religiosas e manifestações culturais.
É nesse encontro entre patrimônio e vida cotidiana que Paraty recebe, todos os anos, milhares de visitantes.
A cidade dos livros
Criada em 2003, a Flip transformou Paraty em ponto de encontro da literatura brasileira e internacional. Durante a festa, a programação se espalha pelo centro histórico, com mesas, debates, lançamentos, exposições e atividades promovidas por casas parceiras.
Em 2026, a festa chega à 24ª edição. A programação ocorre de quarta-feira a domingo, entre 22 e 26 de julho, e reúne nomes da literatura, da cultura, do jornalismo e de outras áreas do conhecimento.
Ao escolher Paraty como sede, a Flip passou a incorporar a própria cidade à experiência do evento. As ruas, construções e paisagens deixam de funcionar apenas como cenário e passam a dialogar com os debates sobre memória, cultura e identidade.
Migalhas estará em Paraty para acompanhar a programação e produzir conteúdos sobre os encontros entre Direito, literatura, cultura e memória, além de mostrar aspectos históricos e jurídicos da cidade que recebe a festa.
A cidade que já viu passar o ouro retirado das minas agora recebe livros, ideias e histórias. Entre antigas instituições de poder e novas formas de contar o país, Paraty permanece como lugar de circulação - antes de mercadorias e riquezas, agora, sobretudo, de palavras.