Reduzir maioridade penal não é eficaz e fortalece crime organizado, avalia Pierpaolo
Segundo o criminalista, a proposta tem apelo eleitoral, mas, ao levar jovens ao sistema prisional adulto, tende a deixá-los à mercê do crime organizado, elevar a reincidência e reduzir as chances de reinserção social.
Da Redação
sexta-feira, 24 de julho de 2026
Atualizado às 18:09
A redução da maioridade penal pode ter apelo popular e eleitoral, mas não é uma medida eficaz para diminuir a criminalidade, avalia o criminalista Pierpaolo Bottini. Segundo o advogado, a transferência de adolescentes para o sistema prisional adulto tende a aumentar a reincidência, ampliar "a mão de obra do crime organizado" e reduzir as possibilidades de recuperação e reinserção social.
Em entrevista ao Migalhas durante a 24ª edição da Flip – Festa Literária Internacional de Paraty, em Paraty/RJ, Bottini afirmou que propostas de endurecimento penal costumam ganhar força com a proximidade das eleições, diante da preocupação legítima da população com o aumento da criminalidade.
“Sempre que a gente se aproxima da eleição, o discurso pelo recrudescimento do sistema penal, pelo endurecimento das penas, é algo que sensibiliza as pessoas, em especial porque as pessoas estão, com razão, muito preocupadas com o aumento do crime.”
Segundo o criminalista, esse tipo de discurso tem forte apelo popular. A proposta, no entanto, deve ser examinada com base em sua racionalidade e em seus efeitos concretos.
“A gente precisa olhar a racionalidade disso e verificar, de uma maneira muito clara, se esse tipo de proposta é vantajosa ou não é vantajosa”, ressaltou.
Para Bottini, a discussão não deve se limitar à capacidade de um adolescente de 17 anos compreender que determinada conduta é ilícita. A questão central, segundo ele, é saber se faz sentido, do ponto de vista prático, colocar jovens ainda em formação no mesmo sistema prisional destinado aos adultos e "tomado pelo crime organizado".
Confira:
Jovens à mercê do crime organizado
Bottini afirmou que estudos internacionais indicam aumento da reincidência quando adolescentes são transferidos para o sistema penal adulto.
“Existem dados internacionais que mostram que o jovem, quando é transferido para o sistema do adulto, a reincidência aumenta. E veja, isso em inúmeros estudos de inúmeros países.”
Na avaliação do criminalista, a medida não apenas deixaria de reduzir a violência, como também aproximaria os jovens do crime organizado e diminuiria suas chances de reinserção social.
“Então, eu estou aumentando a reincidência, eu estou aumentando a mão de obra do crime organizado e eu estou acabando definitivamente com qualquer chance de recuperação, de reinserção desses jovens na sociedade. (...)Isso vai aumentar a violência, isso não vai resolver o problema", enfatizou.
Educação e oportunidades
Como alternativa ao encaminhamento de adolescentes ao sistema prisional adulto, Pierpaolo defendeu o fortalecimento de medidas de acompanhamento, educação e formação profissional.
Segundo o advogado, jovens que recebem assistência, frequentam cursos e têm sua formação acompanhada possuem mais chances de reinserção social do que aqueles colocados em unidades prisionais.
“O jovem que é acompanhado, que é assistido, que frequenta um curso, ou um curso técnico, profissionalizante, que você cuida da formação dele, você tem uma chance muito maior de reinserir ele na sociedade do que você colocá-lo numa unidade prisional.”
O criminalista também criticou a falta de estrutura educacional e formativa nas unidades destinadas a adolescentes. Segundo ele, a maior parte dos jovens internados está envolvida com "crimes menores", tráfico de drogas, e não com atos praticados mediante violência ou grave ameaça.
Para Bottini, a resposta mais eficiente passa pela ocupação integral do tempo e pela criação de oportunidades capazes de afastar os jovens da influência de organizações criminosas.
“Eu acho que a oportunidade passa por uma ocupação do tempo integral, ou seja, ele não pode ficar à mercê do crime organizado.”