No STF, ministros usam a expressão "calha à fiveleta"; entenda o que é
Expressão foi usada por Flávio Dino e Gilmar Mendes durante julgamento e chamou a atenção de Edson Fachin no plenário.
Da Redação
quarta-feira, 12 de agosto de 2026
Atualizado às 18:36
A expressão "calha à fiveleta" ganhou espaço no plenário do STF nesta quarta-feira, 12, durante o julgamento sobre a validade da lei catarinense que redefiniu os limites do Parque Estadual da Serra do Tabuleiro.
O primeiro a recorrer ao termo foi o ministro Flávio Dino. Ao defender que a abertura da área para usos industriais configuraria retrocesso ambiental, S. Exa. antecipou que usaria uma expressão pouco usual.
"Agora, para uso industrial, a estas alturas, me parece realmente que, neste caso, e eu sei que vou usar uma expressão que Vossa Excelência não gosta, mas, neste caso, como diziam os antigos, ela calha à fiveleta: é um retrocesso ambiental."
Minutos depois, Gilmar também recorreu à expressão ao dialogar com o colega sobre os argumentos apresentados no julgamento.
A repetição chamou a atenção do presidente do STF, ministro Edson Fachin.
"Estou achando que essa expressão vai entrar nesse julgamento", comentou.
Gilmar, então, fez referência ao "código de linguagem" da Corte, em alusão ao chamado "glossário proibido" associado ao ministro Luís Roberto Barroso, conhecido por defender a substituição de expressões rebuscadas do juridiquês por uma linguagem mais simples e acessível.
Mas o que significa "calha à fiveleta"?
Apesar da sonoridade pouco usual, a expressão tem sentido simples: indica que algo se ajusta perfeitamente a determinada situação.
Como já explicou a coluna Gramatigalhas, do Migalhas, "fiveleta" remete a uma pequena fivela, enquanto "calhar", nesse contexto, significa ajustar-se. A imagem é a do pino da fivela que encontra exatamente o orifício do cinto.
Assim, dizer que algo "calha à fiveleta" equivale a afirmar que aquilo "encaixa-se perfeitamente" ou, em linguagem mais direta, "serve direitinho".
A expressão também integra o DPE - Dicionário de Péssimas Expressões, lançado pelo Migalhas, que reúne termos e construções rebuscadas do vocabulário jurídico.
No julgamento desta quarta-feira, Dino recorreu à expressão para dizer que, em sua avaliação, a ideia de "retrocesso ambiental" se ajustava precisamente ao caso em análise.
"Glossário proibido"
A referência de Gilmar ao "código de linguagem" resgata uma espécie de "herança" deixada pelo ministro Luís Roberto Barroso no plenário do Supremo: o combate, por vezes em tom de brincadeira, às expressões excessivamente rebuscadas do juridiquês.
A defesa de Barroso por uma comunicação mais direta é antiga. Em 2008, ainda como advogado, publicou no Migalhas o artigo "A revolução da brevidade", no qual criticava a linguagem empolada e inacessível do meio jurídico e defendia clareza, simplicidade e concisão na comunicação do Direito.
Anos depois, a ideia ganhou uma versão descontraída nas sessões do STF.
Em 2024, durante julgamento no plenário, Barroso revelou manter em seu gabinete um "glossário de palavras inutilizáveis". Entre as expressões citadas por ele estavam "no bojo", "irresignação derradeira", "remédio heroico" e "cediça sabença". A brincadeira levou os próprios ministros a passarem a fazer referências ao "léxico proibido" do então presidente.
A preocupação com a linguagem simples também marcou sua passagem pela presidência do CNJ. Sob sua gestão, o Conselho lançou o Pacto Nacional do Judiciário pela Linguagem Simples, voltado à adoção de uma comunicação mais clara, direta e compreensível nos tribunais.
O "glossário" acabou sobrevivendo como piada interna no Supremo.
Em 2025, por exemplo, Dias Toffoli chegou a consultar Barroso, em plenário, sobre a possibilidade de usar a palavra "spoiler". O então presidente respondeu que o termo não integrava o "léxico proibido".