Domingo, 24 de setembro de 2017

ISSN 1983-392X

Gramatigalhas

por José Maria da Costa

Ponto e vírgula – Depois de exclamação!?

quarta-feira, 13 de setembro de 2017

dúvida do leitor

O leitor Conrado de Paulo envia a seguinte mensagem para a seção Gramatigalhas:

"Caro Prof. José Maria: Veja o exemplo a seguir: 'Nunca vi nada parecido!; esse é genial.' Admite-se esse 'ponto e vírgula' depois da 'exclamação'?"

envie sua dúvida

1) Um leitor encontrou o seguinte exemplo: "Nunca vi nada parecido!; esse é genial." E indaga se pode haver um ponto e vírgula assim desse modo, após um ponto de exclamação.

2) Antes de qualquer análise teórica ou tentativa de sistematização do problema, confiram-se as seguintes citações, com a indicação de seus autores bem como dos estudiosos que as transcreveram: a) "Olé! exclamei" - Machado de Assis;b) "Ah! brejeiro" - Machado de Assis; c) "Mas, na morte, que diferença! que liberdade" - Machado de Assis (BECHARA, 1974, p. 335); d) "Sim! Quanto o tempo entre os dedos / Quebra um século, uma nação, / Encontra nomes tão grandes, / Que não lhe cabem na mão" - Castro Alves; e) "Oh! Se Carlos soubesse..." - Júlio Dinis; f) "Andrada! arranca esse pendão dos ares! / Colombo! fecha a porta dos teus mares!" - Castro Alves; g) "Ó meu filho, meu filho! replicou Frei Hilarião" - Alexandre Herculano (LIMA, 1972, p. 433-4); h) "Oh! dias de minha infância" - Casimiro de Abreu; i) "Meu velho Pedro! Meu fantasma de criança" - Antônio Nobre; j) "Deus! ó Deus! onde estás que não respondes?" - Castro Alves; k) "Coração, para! ou te refreia, ou morre!" - Alberto de Oliveira.

3) Dos exemplos dados e da constatação do que escreveram os estudiosos sobre esse assunto, podem-se estabelecer os seguintes aspectos: a) não se encontra, nas gramáticas mais conhecidas, um estudo regular e sistematizado de pontuação nem, muito menos, do assunto trazido pelo leitor para análise; b) nos exemplos dos bons autores de nossa literatura por eles transcritos, porém, não se encontra caso nenhum de uso do ponto e vírgula após o ponto de exclamação; c) além disso, percebe-se que, quando o usuário quer indicar uma pausa maior após o ponto de exclamação, então ele escreve a palavra seguinte com maiúscula; d) se, todavia, quer significar uma pausa menor, então faz uso de minúscula na palavra seguinte.

4) Respondendo, então, diretamente ao leitor: a) não é correto o exemplo dado por ele, em que emprega um ponto e vírgula após o ponto de exclamação; b) a correção se faz com a simples exclusão do ponto e vírgula; c) usar maiúscula ou minúscula para iniciar a palavra seguinte vai depender da pausa maior ou menor que ele queira conferir no caso concreto. Exs.: i) "Nunca vi nada parecido!; esse é genial." (errado); ii) "Nunca vi nada parecido! esse é genial." (correto); iii) "Nunca vi nada parecido! Esse é genial." (correto).

5) Vale a pena tecer, embora ligeiros, oportunos comentários adicionais sobre essa ausência de sistematização desse assunto por parte dos gramáticos e demais estudiosos da matéria. É que, num primeiro aspecto, apenas a partir da década de cinquenta do século XX, a pontuação tomou significativo impulso e passou a orientar-se – além das razões sintáticas tradicionais e dos impulsos subjetivos – pelas recomendações e exigências mais apuradas da redação técnica. Isso faz concluir que os chamados clássicos de nossa literatura nem sempre lhe atribuíram posição de relevo, motivo pelo qual não é incomum encontrar, mesmo em abalizados escritores, erros de pontuação similares aos cometidos hoje por qualquer usuário médio do idioma. Por outro lado, os livros de Gramática de hoje também apresentam poucos elementos sobre o assunto por duas razões: primeira, os gramáticos de peso normalmente têm sua formação forjada na primeira metade do século XX, vale dizer, antes do despertar para esse assunto; segunda, por um abissal equívoco dos responsáveis, o ensino da Gramática deixou de ter importância significativa nos currículos de nossas escolas exatamente no começo da segunda metade do século passado, o que significa pequenos esforços, estudos e progressos nesse campo.

Manual de Redação Jurídica
José Maria da Costa

José Maria da Costa é graduado em Direito, Letras e Pedagogia. Primeiro colocado no concurso de ingresso da Magistratura paulista. Advogado. Mestre e Doutor em Direito pela PUC/SP. Ex-Professor de Língua Latina, de Português do Curso Anglo-Latino de São Paulo, de Linguagem Forense na Escola Paulista de Magistratura, de Direito Civil na Universidade de Ribeirão Preto e na ESA da OAB/SP. Membro da Academia Ribeirãopretana de Letras Jurídicas. Sócio-fundador do escritório Abrahão Issa Neto e José Maria da Costa Sociedade de Advogados.