Quarta-feira, 18 de julho de 2018

ISSN 1983-392X

O sonho de Tite (ou o salvamento do futebol)

quarta-feira, 28 de setembro de 2016

Tite tinha um sonho. Seu sonho bateu em sua porta e ele foi atrás de sua realização.

Para trás deixou, no entanto, a esperança coletiva de uma nova ordem do futebol brasileiro. Algo que sua competência, na condução do time nacional, não poderá produzir.

A negativa ao convite para conduzir a seleção talvez tivesse sido o golpe de misericórdia em um modelo que não encontra qualquer motivo para continuar existindo. Está desgastado, ultrapassado e não representa dignamente o seu símbolo.

Tite poderia, lá na frente, retornar como herói, aclamado pelo povo.

Ou não.

E aí está o dilema do futebol brasileiro.

Num cenário menos poético, o comando se recomporia e encontraria uma alternativa para se manter onde sempre esteve: no poder.

E o sonho do treinador teria se aprisionado em suas próprias ideias. Ou na esperança das pessoas que identificam nele um salvador. Nada além disso.

O futebol brasileiro parece que sempre se conduziu de modo individualista. Cada um por si. Inclusive dentro de campo, como apontou com precisão o jornalista Paulo Calçade, em artigo publicado na edição de 26/9/16, do Estadão.

Cada agente luta por seus objetivos, por seus sonhos. Para tornar-se herói ou se viabilizar politicamente. Ou simplesmente por (legítimos) motivos financeiros.

Aqueles que tinham ao menos um verniz de ideal, com raras exceções, viram a página, sem muita hesitação, diante de uma proposta irrecusável.

Essa postura, aliás, vem de cima. De quem administrou – e administra – o futebol. De quem dita, portanto, as regras do jogo. É uma característica do sistema.

Imaginar que um jogador ou um treinador possa, isoladamente, combater e transformar essa realidade é ingenuidade.

Nem mesmo uma pequena coletividade tem sido exitosa nesses propósitos. O bom senso atesta essa afirmação. Sua força inicial foi rapidamente neutralizada pelo status quo. Além disso, o movimento sentiu na própria pele os efeitos de um modelo que impede a gestação de mudanças, sejam elas protagonizadas pelos clubes ou por iniciativas genuinamente republicanas: a falta de financiamento.

Sem fontes de financiamento, não há empresa. Se não há empresa, definham os empregos, a arrecadação de tributos, o desenvolvimento econômico. A consequência é a contenção do avanço social.

Essa lógica se aplica ao futebol. Sem meios de financiar-se, não se pode investir na educação e na formação de jogadores. Não se tem condição para reforçar as marcas dos times, suas estruturas e os seus produtos.

Os times brasileiros, diante dessa realidade, não competem com os mesmos instrumentos de seus pares, distribuídos globalmente. E, pior, afundam, aí sim, coletivamente.

O excesso de individualismo leva, portanto, o futebol brasileiro a um quase suicídio coletivo.

Guarani e Portuguesa já tomaram esse rumo. O Vasco tem flertado com a desgraça a cada dois anos. O Palmeiras, até recentemente, parecia que não teria destino diferente. O Botafogo, afundado em dívidas, se salva à conta de entidades sobrenaturais de almeida. O Corinthians, teme-se, pode enfrentar problemas realmente sérios para satisfação de sua dívida milionária. O São Paulo e o Internacional, exemplos recentes de sucesso internacional, vivem, provavelmente, as maiores crises de suas histórias.

Enfim, a situação é realmente crítica. E nenhuma iniciativa foi capaz de revertê-la.

O Profut, como já se disse antes, é fruto de uma medida emergencial, necessária para evitar o desaparecimento de times tradicionais. Mas ele não deixa de ser, também, um problema.

Porque se mostra mais preocupado com as sanções aos inadimplentes do que em criar um novo ambiente transformador. Ele não induz uma atuação coletiva.

Por isso tudo, jogar o fardo das frustrações decorrentes desse estado de coisas sobre as costas de Tite não é justo. Talvez seja desumano. E Tite é um simples, porém muito competente, ser humano.

Apenas o Estado, atuando como regulador, poderá oferecer a via de direito capaz de impor uma transformação comportamental.

Sem essa atuação, que me parece necessária e urgente, não se afastará do imaginário popular o folclore de que o futebol representa a capacidade do brasileiro de se ajustar, de se adaptar, de dar um jeitinho e com a sua inspiração divina, superar qualquer desafio.

Aliás, também não se pode imputar a uma medida legislativa a solução para todas as mazelas. Ela servirá como instrumento transformacional e de criação de um novo ambiente - de um novo mercado - que terá a força do futebol como o seu motivo de existir.

Mas os times, especialmente eles, manejados sob uma nova forma jurídica – a sociedade anônima do futebol – deverão, de uma vez por todas, entender que, ao contrário do que se passa no competitivo ambiente capitalista, em que a destruição do concorrente pode ser a solução de um agente, no plano do futebol, a força coletiva implica a força individual.

Os times não competem, ao menos internamente, pelo mesmo torcedor. A fidelidade futebolística não encontra paralelo no ambiente capitalista. Daí sua magia. E as oportunidades.

Oponentes dentro de campo, mas sócios em seus propósitos desenvolvimentistas. Esse deve ser o lema dos times. Do futebol. Do futebol do Brasil.

Juntos, os times podem transformar o campeonato brasileiro em objeto planetário de desejo e de admiração. Juntos, podem impor um novo modelo, que terá o jogador e o time como peças centrais.

E juntos poderão, quando o Estado cumprir sua função reguladora, constituir, se quiserem, uma sociedade anônima do futebol para gerir e negociar coletivamente determinados interesses.

Rodrigo R. Monteiro de Castro

Rodrigo R. Monteiro de Castro é presidente do MDA. Ex-presidente do IDSA. Professor de Direito Comercial do Mackenzie. Doutor em Direito Comercial pela PUC. Coautor do projeto de lei que institui a Sociedade Anônima Simplificada. Coautor do Livro "Futebol, Mercado e Estado" e autor dos livros "Controle Gerencial" e "Regime Jurídico das Reorganizações". Sócio do escritório r. monteiro de castro advogados.