Terça-feira, 17 de julho de 2018

ISSN 1983-392X

Em defesa de Neymar e a omissão do Estado

quarta-feira, 4 de julho de 2018

Se Mario de Andrade fosse vivo, saberia, penso eu, interpretar e descrever, como ninguém, esse herói que se chama Neymar. Um herói com traços macunaímicos.

Não, não estou me referindo ao seu caráter. Longe de mim julgar alguém que não conheço. Refiro-me aos sentimentos antagônicos que ele incita.

Antes, era apenas um menino que queria ser o melhor jogador do mundo – e será; hoje, uma personalidade que faz parte de um sistema irrefreável de interesses econômicos.

A incompreensão decorre das projeções e das expectativas que se fizeram e se fazem sobre alguém que é o que é, e não o que deveria ser ou o que os outros queriam que ele fosse. Neymar é, pois, tudo aquilo que ele mostra e faz em campo. E daí?

Daí a incompreensão, a intransigência e, sobretudo, algo que virou moda num país sem rumo: a falta de identificação, que justifica, em todos os planos, a intolerância e o ataque à diferença.

Sua postura incomoda – a mim também, em vários episódios – por se esperar dele um padrão de conduta que ele não adota, porque não quer, porque não está disposto ou porque sequer compreende. Em qualquer caso, a culpa não é dele, pelo que esperam dele.

Isso tudo não o desqualifica como jogador; mais do que isso: não o faz pior ou melhor em campo.

Por outro lado, faz emergir um debate, presente em vários setores, como o das artes, a respeito de sua função, de seu valor: uma obra de arte tem valor extrínseco, puramente estético, ou somente se justifica pela sua origem ética? O propósito, ou a falta dele, desqualifica o resultado ou este tem valor próprio? Indo adiante: o caráter do artista afeta sua obra ou ela se desprende de seu criador?

Um drible, uma jogada mágica, um desarme, um gol, uma vitória... se justificam pelo que representam no plano exterior ou apenas pelo que são, no mundo do futebol? As preocupações pessoais e sociais do protagonista mudam a intensidade do fato ou lhe oferecem, sobretudo, uma retórica midiática? Um jogador deve ser um exemplo ou não?

Afinal, do que falamos: de um jogo, apenas, ou de algo mais?

Se a resposta for um jogo, apenas, o debate para por aqui. Estamos todos perdendo tempo e energia com algo superficial e irrelevante.

Por outro lado, caso se atribua ao jogo de bola algo mais, aí o debate ganha sentido, devendo, no entanto, ser redirecionado. Em outras palavras, se a função do futebol é transformadora – e eu não tenho a menor dúvida de que seja –, não cabe a um jogador carregar esse fardo.

Neymar não é e não será Pelé, Tostão, Zico, Sócrates ou Ronaldo. Neymar é Neymar e será Neymar, o camisa 10 do Brasil dessa década e, provavelmente, em algum momento futuro, o melhor do mundo.

Se ele não levanta bandeiras sociais – será que não? - ou se sua atuação, quando enfrenta ou apanha de adversários, incomoda, o problema é nosso, que projetamos nele aquilo que queríamos ser ou que gostaríamos que ele fosse, como herói.

Deixemos que ele siga o seu caminho, e cobremos do Estado a formulação de uma política que possibilite o surgimento de um, vários ou cem mil grandes jogadores e cidadãos brasileiros, que possam compartilhar a responsabilidade que pesa, nessa Copa, sobre apenas um.

Rodrigo R. Monteiro de Castro

Rodrigo R. Monteiro de Castro é presidente do MDA. Ex-presidente do IDSA. Professor de Direito Comercial do Mackenzie. Doutor em Direito Comercial pela PUC. Coautor do projeto de lei que institui a Sociedade Anônima Simplificada. Coautor do Livro "Futebol, Mercado e Estado" e autor dos livros "Controle Gerencial" e "Regime Jurídico das Reorganizações". Sócio do escritório r. monteiro de castro advogados.