A recente resolução da ONU1 não é apenas um documento diplomático; é um libelo acusatório que retira o véu de uma neutralidade jurídica conveniente e covarde. Ao classificar o tráfico transatlântico e a escravidão como crimes contra a humanidade imprescritíveis, a ONU finalmente carimba o que o movimento negro brasileiro denuncia há décadas: o Estado e o mercado financeiro nacional estão sentados sobre um trono de ossos. Para o Brasil, essa diretriz internacional funciona como um ultimato que desmorona a narrativa de uma abolição generosa e expõe a medula de um capitalismo que nasceu e se sofisticou através do sequestro e da tortura de corpos negros.
O debate internacional, agora inflamado, não aceita mais o drible retórico de que "não se pode julgar o passado com os olhos do presente". A resolução é clara ao apontar que o racismo sistêmico que asfixia o Brasil hoje é o lucro acumulado e reinvestido de ontem. Quando olhamos para as entranhas do poder econômico nacional, o impacto dessa decisão atinge em cheio instituições que são pilares da República. É impossível falar em reparação sem pautar a responsabilidade do Banco do Brasil, cujas raízes estão profundamente enterradas no financiamento do tráfico negreiro, mesmo após a proibição legal de 1831. O banco não foi apenas um espectador, mas o motor financeiro que garantiu que a "lei para inglês ver" fosse ignorada em favor do acúmulo de capital da aristocracia escravocrata.
A discussão sobre a responsabilidade histórica do sistema financeiro ganhou um capítulo decisivo em novembro de 2023, quando um grupo de pesquisadores de universidades públicas brasileiras e americanas2 apresentou à presidência do Banco do Brasil um estudo detalhado sobre os vínculos da instituição com o tráfico transnacional de pessoas. O documento demonstra que o banco não apenas operava em uma economia dependente da escravidão, mas que sua própria governança era indissociável dessa prática: diretores e grandes acionistas eram proprietários de escravizados e figuras centrais do comércio negreiro.
Um exemplo emblemático é o de José Bernardino de Sá, o maior acionista individual do banco na época. Conhecido como Visconde de Vila Nova do Minho, ele foi um dos principais articuladores do tráfico no Atlântico Sul, sendo responsável pelo transporte de cerca de 19 mil africanos ao Brasil em um período em que o tráfico já era ilegal. Esses achados reforçam a necessidade de um olhar crítico sobre a formação do capital institucional no país e alinham-se às diretrizes da ONU que sugerem que instituições herdeiras desses processos reconheçam sua participação histórica como passo fundamental para a justiça reparatória.
Nesse cenário, a perversidade do sistema ganha contornos ainda mais dramáticos quando analisamos a resistência e a economia política das mulheres negras. Enquanto o Estado e o sistema bancário operavam para manter as correntes, mulheres negras forras e escravizadas, utilizando-se de táticas de sofisticação intelectual e financeira, organizavam as "poupanças de alforria". Elas transformavam o trabalho de ganho em estratégia de libertação, depositando moedas suadas em caixas de socorro e instituições que, ironicamente, muitas vezes compunham a liquidez de bancos que se tornariam a Caixa Econômica Federal e o próprio Banco do Brasil. Houve um sequestro sistêmico: O capital das mulheres negras era utilizado pelo sistema bancário para financiar a manutenção do cativeiro de seus próprios filhos e irmãos.
Diante do questionamento levantado pelo Ministério Público Federal, o Banco do Brasil manifestou-se publicamente lamentando o que classificou como um "infeliz capítulo da história"3. Em sua defesa, a instituição busca convenientemente contemporizar sua trajetória como um reflexo das complexidades da época, alegando que seu quadro de acionistas reunia tanto escravocratas quanto abolicionistas. Contudo, para além da revisão historiográfica, a instituição ressalta o seu compromisso contemporâneo com a equidade, simbolizado pela ascensão de Tarciana Medeiros, a primeira mulher negra a ocupar a presidência do banco. Em um dos maiores contrassensos da nossa história, coube a ela - representante da camada mais oprimida da sociedade - vir a público pedir desculpas pelos males financeiros de um sistema do qual seus antepassados foram vítimas, e não beneficiários. Ver uma mulher negra sendo a voz do pedido de perdão pelos lucros de senhores de engenho e traficantes é uma ironia cruel que beira o escárnio.
Embora o reconhecimento institucional do erro histórico seja um passo necessário, ele permanece no campo da retórica se não vier acompanhado de uma reparação material contundente. Não basta apenas que o Banco do Brasil se escore em políticas de diversidade que, na prática, frequentemente sobrecarregam os próprios funcionários negros com a missão exaustiva de "educar" colegas e gerir o trauma do racismo no ambiente corporativo; Ou em pequenos incentivos financeiros pontuais e locais para organizações da sociedade civil desenvolver suas atividades, é preciso mais.
A presença de lideranças negras no topo da pirâmide é um marco histórico, mas não pode servir de escudo para evitar o debate sobre a dívida bilionária que o capital financeiro tem com a população negra. A justiça exigida pela resolução da ONU não se faz com treinamentos de sensibilidade ou grupos de afinidade; ela exige o salto do simbólico para o pecuniário, enfrentando o fato de que o lucro de ontem, banhado em sangue e suor forçado, precisa ser devolvido hoje em forma de investimento direto e indenização coletiva para os descendentes daqueles que financiaram, com a própria vida, a pujança deste país.
A justiça exigida pela resolução da ONU exige o salto do simbólico para o pecuniário. A reparação não pode ser tratada como um "auxílio social", mas como a devolução de um valor furtado com juros e correção histórica. O Estado brasileiro tem o dever de estabelecer um fundo de reparação alimentado diretamente pelo lucro dessas instituições herdeiras do escravismo. Não se trata apenas de cotas, mas de uma transferência direta de patrimônio, reconhecendo que a riqueza dessas instituições foi erguida mediante o confisco das vidas e das economias de mulheres negras que financiaram a liberdade que o Estado lhes negava. Reparar é enfrentar o fato de que a conta bancária do Brasil é negativa com o povo negro, e o prazo para o pagamento já venceu.
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1 Resolução 52/38: Promoção e proteção dos direitos humanos e implementação da Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável. Adotada em 4 de abril de 2023, durante a 52ª sessão do Conselho de Direitos Humanos. Genebra: Nações Unidas, 2023
2 Universidade Federal Fluminense (UFF), Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ), Universidade Federal da Bahia (UFBA), Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), Universidade de Brasília (UNB), Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP), Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), Harvard University e University of Pittsburgh. Disponível aqui. Acessado em 27.04.2026
3 Manifestação na íntegra do Banco do Brasil disponível aqui. Acessado em: 27.04.2026