Gramatigalhas

À baila

Trazer à baila, Trazer à balha ou Trazer à bailha? O professor responde a questão.

20/4/2005

1) Mário Barreto emprega à balha sem problema algum ou explicação adicional, também não fazendo referência nenhuma à locução à baila: “Os exemplos, porém, que do nosso admirável Rui Barbosa, trouxe à balha o meu colega, não merecem o mínimo crédito por não serem limpas e puras as fontes donde os tirou”.1

2) Cândido de Figueiredo, por seu lado, opõe-se à expressão à baila, e assevera que o correto é à balha.

3) Heráclito Graça, por fim, que transcreve a lição do gramático por último citado, após alongadas considerações e com exemplos de autores abalizados, dá por corretas ambas as expressões, e conclui: “Vir à baila ou vir à balha são, portanto, formas idênticas, equivalem-se”.2

4) Também nessa esteira, o Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa, da Academia Brasileira de Letras, órgão incumbido oficialmente de determinar a existência dos vocábulos em nosso idioma, além de sua grafia oficial, registra baila e balha como formas variantes uma da outra. E ainda registra bailha como terceira forma para significar a mesma realidade.3

5) E Napoleão Mendes de Almeida traz alongada explicação: baila “é mais usada, mas é corruptela de balha, designação da divisão de madeira, de uns cinco palmos de altura, que rijamente se cravava no chão, no centro da liça, e que servia para impedir que os combatentes fossem de encontro um do outro e para facultar-lhes que se ferissem unicamente com as armas. O mantenedor (cavaleiro que combatia com a lança) vinha à balha ou para quebrar novas lanças com o mesmo aventureiro ou para acudir ao desafio de outro”.4

6) Ante as dúvidas e discussões entre os gramáticos e a própria posição oficial sobre o assunto, o melhor é concluir que há liberdade ao usuário para escolher, indistintamente, entre as três formas de expressão, usadas com freqüência na locução vir à balha, ou vir à baila, ou vir à bailha, que significa vir a propósito (in dubiis, libertas).

7) Cândido Jucá Filho, nesse sentido, vê como mera questão de opção o emprego de baila ou balha em casos que tais.5

8) Corrobora esse entendimento de facultatividade de uso a lição de Cândido de Figueiredo - que Heráclito Graça havia citado como contrário a tanto -, o qual manifesta visível preferência por à balha: “vir à baila é corruptela de vir à balha”, e, “quando as corruptelas se vulgarizam,... não é indecoroso subscrevê-las”.6

9) Resumindo a questão: são igualmente corretas as expressões “trazer à baila”, “trazer à balha” e “trazer à bailha”, todas com o mesmo sentido de trazer à discussão ou vir a propósito.

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1 Cf. BARRETO, Mário. De Gramática e de Linguagem. 2. ed. Rio de Janeiro: Organização Simões Editora, 1995. p. 39.

2 Cf. GRAÇA, Heráclito. Fatos da Linguagem. Rio de Janeiro: Livraria de Viúva Azevedo & Cia. . Editores, 1904. p. 68-71.

3 Cf. Academia Brasileira de Letras. Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa. 2. ed., reimpressão de 1998. Rio de Janeiro: Imprensa Nacional, 1999. p. 91-92.

4 Cf. ALMEIDA. Napoleão Mendes de. Dicionário de Questões Vernáculas. São Paulo: Editora Caminho Suave Ltda., 1981. p. 37.

5 Cf. JUCÁ FILHO, Cândido. Dicionário Escolar das Dificuldades da Língua Portuguesa. 3. ed. Rio de Janeiro: FENAME . Fundação Nacional de Material Escolar, 1963. p. 93.

6 Cf. FIGUEIREDO, Cândido de. Falar e Escrever. 4. ed. Lisboa: Livraria Clássica Editora, 1941. v. II, p. 277-278.

Colunista

José Maria da Costa é graduado em Direito, Letras e Pedagogia. Primeiro colocado no concurso de ingresso da Magistratura paulista. Advogado. Mestre e Doutor em Direito pela PUC/SP. Ex-Professor de Língua Latina, de Português do Curso Anglo-Latino de São Paulo, de Linguagem Forense na Escola Paulista de Magistratura, de Direito Civil na Universidade de Ribeirão Preto e na ESA da OAB/SP. Membro da Academia Ribeirãopretana de Letras Jurídicas. Sócio-fundador do escritório Abrahão Issa Neto e José Maria da Costa Sociedade de Advogados.

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