1) Em latim, similarmente ao que se dá em outros idiomas, o advérbio non aposto a outra palavra de força negativa destruía o sentido negativo da frase.
2) Em português, todavia, é correto - e isso sem perder o cunho negativo - repetir a idéia do não (anteriormente expresso na frase) em outras palavras de significação negativa, que apareçam na seqüência da construção. Exs.:
a) “Não encontrou nada naquele autor”;
b) “Não compareceu ninguém à audiência”;
c) “Não encontrou nenhuma saída para o caso”.
3) Em tais casos, dá-se o que se denomina negativa intensiva, e a segunda palavra de valor negativo, conforme o caso, também pode ser substituída por coisa alguma, pessoa alguma ou simplesmente por alguma (este último vocábulo, desde que posposto ao substantivo). Exs.:
a) “Não encontrou coisa alguma naquele autor”;
b) “Não compareceu pessoa alguma à audiência”;
c) “Não encontrou saída alguma para o caso”.
4) Nessas construções, porém, o não deve ser a primeira das palavras negativas, sendo errôneo repetir a negativa em exemplos como os seguintes:
a) “Ele nada não encontrou naquele autor”;
b) “Ninguém não compareceu à audiência”;
c) “Nenhuma saída ele não encontrou para o caso”.
5) Os exemplos do item anterior hão de ser assim corrigidos:
a) “Ele nada encontrou naquele autor”;
b) “Ninguém compareceu à audiência”.
c) “Nenhuma saída ele encontrou para o caso”.
6) Aires da Mata Machado Filho coleciona, nos melhores autores, variadas formas de dupla negativa:
a) “Nunca por nunca deparei um homem que pudesse...” (Camilo Castelo Branco);
b) “O sentimento nunca em tempo algum lhe deixou brilhar no rosto o festival rubor da mocidade” (idem);
c) “Nunca dos nuncas poderás saber a energia e obstinação que empreguei em fechar os olhos” (Machado de Assis);
d) “Nem tu não hás de vir” (Gil Vicente).1
7) A um consulente que lhe indagava se era português legítimo dizer “não vi nada”, Cândido de Figueiredo respondeu pela afirmativa, justificando: “duas negativas, em latim, afirmam; em português, não”.
8) Em outra passagem, tal gramático observava que “isso são reminiscências do latim. No latim, com efeito, duas negativas afirmam; mas, em português, a sintaxe é outra”.
9) E continuava: “A língua portuguesa é considerada filha da latina, mas não nos confundamos: o que temos do latim é grande parte do vocabulário; quanto à sintaxe, temos muitas coisas que os latinos não conheceram nunca e que portanto nos não vieram de lá”.2
10) De Silveira Bueno advém interessante lição nesse mesmo sentido: "Os erros são como as doenças; fáceis de contrair, mas difíceis de curar. Este, de que duas negativas juntas fazem uma afirmativa, é dos mais renitentes. Algum gramático, fauna que não se extingue, tendo lido que, em latim, duas negativas valem uma afirmativa, como non nullos = ullus; non nihil = aliquid, transportou para o português a mesma doutrina e errou. Em nosso idioma, duas ou duzentas negativas juntas são sempre negativas".3
11) Para Cândido Jucá Filho, a negação dupla às vezes efetivamente nega (“ninguém não diga”, “desinfeliz”) e às vezes afirma (“não sem razão” = com razão, “nada anormal” = mui normal, “sem desconhecer” = conhecendo).4
----------
1 Cf. MACHADO FILHO, Aires da Mata. .Principais Dificuldades.. In: Grande Coleção da Língua Portuguesa, 1. ed. São Paulo: co-edição Gráfica Urupês S/A e EDINAL. Editora e Distribuidora Nacional de Livros Ltda., 1969. vol. 1, p. 114-115.
2 Cf. FIGUEIREDO, Cândido de. Falar e Escrever. 4. ed. Lisboa: Livraria Clássica Editora, 1941. vol. II, p. 46 e 272.
3 Cf. BUENO, Francisco da Silveira. Questões de Português. São Paulo: Saraiva, 1957. 2. v., p. 311-312.
4 Cf. JUCÁ FILHO, Cândido. Índice Alfabético e Crítico da Obra de Mário Barreto. Rio de Janeiro: Fundação Casa de Rui Barbosa, 1981. p. 86.