Gramatigalhas

Dar-se ao trabalho de ou Dar-se o trabalho de?

Dar-se ao trabalho de ou Dar-se o trabalho de? Professor esclarece a dúvida.

24/7/2013

A leitora Marilia Guimarães envia a seguinte mensagem ao Gramatigalhas:

"Sempre fico na dúvida do que usar: 'dar-se ao trabalho' ou 'dar-se o trabalho de'? O Professor Poderia me ajudar?"

1) Com frequência se encontram, em textos jurídicos e arrazoados forenses, frases como "O advogado não se deu ao trabalho de pesquisar a íntegra do acórdão”, em que o verbo dar-se, pronominal, tem o sentido de entregar-se, de dedicar-se; e se fica em dúvida se essa sintaxe é a correta, ou se uma outra é que é certa: "O advogado não se deu o trabalho de pesquisar a íntegra do acórdão".

2) Fixe-se, desde logo, que ambas as construções são corretas, podendo as observações aqui feitas ser estendidas a outras expressões similares, como dar-se ao incômodo ou dar-se ao luxo.

3) Do primeiro modelo (dar-se ao trabalho), podem-se alinhar alguns exemplos: a) "Não ponho o número, para que algum curioso... se dê ao trabalho de investigar e completar o texto" (Machado de Assis); b) "Não queria se dar ao trabalho de buscar emprego" (Nélida Piñon); c) "Lúcia Miguel Pereira, sempre tão escrupulosa, deu-se ao trabalho de ler toda essa matéria impressa" (Manuel Bandeira).

4) De igual modo, podem-se citar exemplos da segunda estrutura (dar-se o trabalho): a) "Ela nem se dá o trabalho de responder à pergunta" (Érico Veríssimo); b) "Quem quer que se dê o trabalho de ler..." (José Guilherme Merquior); c) "Deu-se o trabalho de vir aqui" (Menotti Del Picchia).

5) Quanto ao que ocorre no plano da sintaxe, em tais casos, assim explicita com propriedade Domingos Paschoal Cegalla: a) na estrutura ele deu-se ao trabalho, o pronome oblíquo se é objeto direto, e trabalho é o objeto indireto, querendo a expressão significar que a pessoa se entregou ao trabalho; b) já na construção ele deu-se o trabalho, o pronome oblíquo se é objeto indireto, e trabalho é o objeto direto, com o sentido prático de que alguém impôs o trabalho a si próprio.

6) Remate-se com Celso Pedro Luft, para quem dar-se ao trabalho é a sintaxe originária, enquanto dar-se o trabalho é construção que ocorre nos dias de hoje.

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Colunista

José Maria da Costa é graduado em Direito, Letras e Pedagogia. Primeiro colocado no concurso de ingresso da Magistratura paulista. Advogado. Mestre e Doutor em Direito pela PUC/SP. Ex-Professor de Língua Latina, de Português do Curso Anglo-Latino de São Paulo, de Linguagem Forense na Escola Paulista de Magistratura, de Direito Civil na Universidade de Ribeirão Preto e na ESA da OAB/SP. Membro da Academia Ribeirãopretana de Letras Jurídicas. Sócio-fundador do escritório Abrahão Issa Neto e José Maria da Costa Sociedade de Advogados.