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Concertar ou consertar?

Confira o texto "Concertar ou consertar?"

13/2/2008

1) Indaga-se se existe equívoco na frase: "... concertando o que deve ser concertado (p. ex. crédito imobiliário), mas sem aumentar impostos". Ou seja: seria concertando e concertado, ou consertando e consertado? Em resumo:

I) existem as formas concertar e consertar?;

II) em caso positivo, qual a diferença entre ambas?

2) Em termos históricos, lembra-se que concertar vem do latim concertare, ou certare, que originalmente tinha a idéia de lutar, mas com vistas a pôr em alguma ordem, enquanto em consertar residia com clareza a idéia de restaurar, de reparar.

3) Apesar dessa clara diferença de significado na origem, passou a não haver, no evolver de nosso idioma, distinção entre tais vocábulos, e essa situação perdurou até 1913, quando se publicou a segunda edição do dicionário de Cândido de Figueiredo.1

4) Na atualidade, entretanto, o Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa, editado pela Academia Brasileira de Letras ordena que se escreva concertar, quando se quer o significado de harmonizar, e se use consertar, quando se pretende o conteúdo semântico de restaurar, de reparar.2 Essa distinção se espraia para todos os vocábulos pertencentes às respectivas famílias etimológicas: concertabilidade e consertabilidade, concertado e consertado, concertador e consertador, concertamento e consertamento, concertante e consertante, concertável e consertável, concerto e conserto.

5) Ora, a Academia Brasileira de Letras é o órgão que detém a incumbência da lei para determinar oficialmente a grafia das palavras em nosso léxico, de modo que sua maneira de entender é a palavra oficial no idioma. Por isso descabe toda e qualquer discussão acerca de outras propostas de uso dos mencionados vocábulos na atualidade.

6) Com essas considerações, vejam-se as grafias corretas em exemplos práticos:

I) – "Ouvi um esplêndido concerto de violões";

II) – "O conserto desse sapato é simplesmente inviável, ante seu estado de deterioração".

7) Anote-se, adicionalmente, que, em determinadas situações, um mesmo exemplo pode admitir as duas grafias, conforme o significado que se queira atribuir ao vocábulo. Exs.:

I) – "O presidente precisa concertar o discurso de seus ministros" (se se quer dizer que ele precisa harmonizar a fala dos ministros);

II) – "O presidente precisa consertar o discurso de seus ministros" (se se quer dizer que ele deve retificar ou reparar-lhes a fala).

8) Também se acrescente que palavras como concertar e consertar – que têm a mesma pronúncia, mas grafias diversas – são denominadas homófonas (homo = igual + fonas = som).

9) Não confundir com homógrafas, que são palavras de mesma grafia, mas de pronúncia diferente. Exs:

I) pôde (pretérito perfeito) e pode (presente do indicativo);

II) colher (verbo) e colher (substantivo).

10) De igual modo, também não confundir com as parônimas, que são palavras de grafia e pronúncia apenas parecidas, mas de sentido integralmente diverso, como arrear e arriar, deferir e diferir, eminência e iminência.

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1-Cf. HOUAISS, Antônio. Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa. 1. ed. Rio de Janeiro: Objetiva, p. 785.

2-Cf. Academia Brasileira de Letras, Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa. 4. ed., 2004. Rio de Janeiro: Imprinta, p. 200 e 204.

Colunista

José Maria da Costa é graduado em Direito, Letras e Pedagogia. Primeiro colocado no concurso de ingresso da Magistratura paulista. Advogado. Mestre e Doutor em Direito pela PUC/SP. Ex-Professor de Língua Latina, de Português do Curso Anglo-Latino de São Paulo, de Linguagem Forense na Escola Paulista de Magistratura, de Direito Civil na Universidade de Ribeirão Preto e na ESA da OAB/SP. Membro da Academia Ribeirãopretana de Letras Jurídicas. Sócio-fundador do escritório Abrahão Issa Neto e José Maria da Costa Sociedade de Advogados.

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