1) Um leitor narra que encontrou um poema de Camões com o título "Ao Desconcerto do Mundo" e lhe pareceu que o correto deveria ser desconserto, já que a idéia é que o mundo precisaria de reparo.
2) Veja-se, num primeiro aspecto, que, no campo da ortografia, as palavras que têm grafia e pronúncia parecidas, mas com sentidos diversos, denominam-se parônimas.
3) Isso se dá com diversos vocábulos: arrear (pôr arreio) e arriar (baixar, ceder); deferir (conceder) e diferir (diferenciar); delatar (denunciar) e dilatar (aumentar, prorrogar); eminência (elevação, altura, proeminência) e iminência (característica do que está prestes a acontecer); flagrância (estado do que é flagrante, do que ocorre no ato) e fragrância (perfume agradável); ratificar (confirmar) e retificar (corrigir).
4) Nesse mesmo rol se podem inserir concerto (acordo, ajuste, convenção, pacto) e conserto (remendo, reparo). Exs.: I) "Do concerto das vontades em litígio, extraiu-se uma minuta de acordo"; II) "Para muitos, aquela situação não tem conserto".
5) Há um conhecido poema de Camões, que tem por título "Ao desconcerto do mundo" com o seguinte teor: "Os bons vi sempre passar / No Mundo graves tormentos; / E para mais me espantar, / Os maus vi sempre nadar / Em mar de contentamentos. / Cuidando alcançar assim / O bem tão mal ordenado, / Fui mau, mas fui castigado. / Assim que, só para mim, / Anda o Mundo concertado."
6) Vejam-se os dois versos finais: "Assim que, só para mim, / Anda o Mundo concertado." A leitura nos faz entender que o que o poeta quer dizer, em suma, é que apenas para ele o mundo anda estruturado e, portanto, concertado.
7) Se, a par dessa conclusão, se pode extrair uma outra de que o mundo também precisa de remendo, de reparo e, portanto, de conserto, isso é outra questão, que não altera item algum do que já foi afirmado.