Meio de campo

São Paulo Futebol Clube, Uberlândia, Santa Cruz e Internacional de Limeira: A SAF como elemento de (des)conexão

Resultados recentes de clubes ligados à SAF contrastam com a resistência ao modelo e expõem o tratamento desigual dado a seus sucessos e fracassos no futebol brasileiro.

16/10/2026

Já se escreveu neste espaço que a SAF, como ideia, ainda não foi normalizada pela maioria da imprensa. Quando uma vai mal, é comum que se reverbere o tropeço e o associe à natureza jurídica. Se é SAF, não pode ser bom.

Por outro lado, quando a SAF vai bem ou quando o sucesso se atrela a um projeto de SAF, implementado ou em andamento, o atributo é ignorado ou pouco enaltecido.

Em outro cenário, quando um clube de natureza associativa vai mal, muito mal, é comum que se tente encontrar solução de resgate no próprio associativismo - ou em dirigentes clubistas -, e afastar a SAF como possibilidade de solucionamento; como se a SAF fosse um problema quase existencial. O melhor exemplo atual é o São Paulo Futebol Clube.

No passado, foi considerado uma das principais referências organizacionais do futebol; atualmente, uma referência do que não fazer. Em recente entrevista, o atual treinador, Dorival Junior, revelou que gramados do centro de treinamento são imprestáveis e podem justificar as recorrentes lesões de atletas1. Pior: também se noticiou o corte temporário de luz, em determinada área do Estádio do Morumbi, por falta de pagamento2.

Por que essas situações não geram as reações ou a indignação, direcionadas ao associativismo, que gerariam se ocorressem em uma SAF - e por conta da SAF? Por que, ademais, a atual crise política no São Paulo, que coincide com a maior crise econômica da história, não fez surgir um candidato que defenda a SAF como alternativa?

Ao contrário: mesmo que algum candidato pretendesse a SAF, hipótese que se coloca apenas pelo debate, enfrentaria resistência (quase) fatal da estrutura de poder, formada por conselheiros interessados e conflitados e por associados que se preocupam com o social - e com frequência torcem para outro time.

Não por acaso, pouco se trata de sucessos, mesmo que embrionários - e eventualmente conjunturais -, que envolvam SAF.

O Uberlândia é um exemplo.

Conforme informado no sítio eletrônico do clube, por ocasião da aprovação da operação, a assembleia geral realizada em junho de 2025 aprovou a constituição de uma SAF, com apenas um voto contrário e, logo na sequência, também aprovou, por aclamação - portanto, com o voto do mesmo associado dissidente, a proposta de ingresso de determinados investidores, para aquisição de 90% das ações de emissão da companhia3.

Em 2026, como se sabe, o Uberlândia sagrou-se campeão brasileiro da série D4 e em 2027 testará a estrutura na série C. Se não fosse SAF, teria subido? Importa, na verdade, que a novidade pouco ou nada reverberou, nos principais centros, os mesmos que costumam ser implacáveis com fracassos, inclusive momentâneos, de SAF's.

Dois outros casos merecem atenção: de Pernambuco, o tradicionalíssimo Santa Cruz, que, sob a presidência de Bruno Rodrigues, largou de um ano sem qualificação em campeonato brasileiro para, em dois anos, atingir a série B5.

Verdade que o processo ainda não está implementado, mas, quase desde o princípio do mandato, o clube vem tratando de implementá-lo e, durante o percurso, recebeu recursos, adiantados, que viabilizaram pagamentos de salários e outras obrigações. A propósito, notícia de 2 outubro, data próxima do jogo que selou o acesso, anota o ingresso de R$ 6 milhões, montante que, não existisse o projeto de SAF, jamais entraria6.

O outro caso vem do interior de São Paulo: a Internacional de Limeira, que, ao lado do Santa Cruz - e de outras duas associações -, ganhou seu acesso, após 35 anos, à série B7.

A operação foi inicialmente aprovada, em conselho deliberativo, no final de agosto de 2026, com apenas uma dissidência. Conforme notícias de imprensa, jogadores históricos, como Ronaldo e Roberto Carlos, terão algum tipo de participação8. O principal investidor, também conforme divulgado pela imprensa, é Enrico Ambrogini, que passou pela SAF do Cruzeiro - além de clubes como o Sport.

De acordo com nota pública emitida pelo clube, “a aprovação é resultado de um processo iniciado em 2023, com a constituição da Comissão da SAF (...). Desde então, foram realizados estudos, análises, reuniões e negociações envolvendo diferentes propostas e modelos. A atual operação começou a ser estruturada em 22 de dezembro de 2025 (...). O processo foi conduzido com o objetivo de construir uma estrutura capaz de oferecer maior segurança jurídica, governança, sustentabilidade e proteção aos interesses institucionais, esportivos e patrimoniais do Clube (...)”.9

A construção da operação, ao que parece, ocorreu ao longo do ano e a anunciação antecedeu, em poucas semanas, a almejada classificação. Teria o feito sido realizado sem a perspectiva e a iminente SAF da Internacional? Possivelmente, não.

Mas pouco importa essa investigação para o aparato de aversão ao modelo. Importaria, apenas, se fosse uma SAF a caminho do rebaixamento. Aí, sim, geraria notícia: o fracasso da SAF.

Uberlândia, como fato, e Santa Cruz e Internacional de Limeira, como projetos, merecem ser acompanhados - noticiados e, espera-se, celebrados.

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1. Disponível aqui. Acesso em 14.10.2026.

2. Disponível aqui. Acesso em 14.10.2026.

3. Disponível aqui. Acesso em 14.10.2026.

4. Disponível aqui. Acesso em 14.10.2026.

5. Disponível aqui. Acesso em 14.10.2026.

6. Disponível aqui. Acesso em 14.10.2026.

7. Disponível aqui. Acesso em 14.10.2026.

8. Disponível aqui. Acesso em 14.10.2026.

9. Disponível aqui. Acesso em 14.10.2026.

Colunista

Rodrigo R. Monteiro de Castro advogado, professor de Direito Comercial do IBMEC/SP, mestre e doutor em Direito Comercial pela PUC/SP, coautor dos Projetos de Lei que instituem a Sociedade Anônima do Futebol e a Sociedade Anônima Simplificada, e Autor dos Livros "Controle Gerencial", "Regime Jurídico das Reorganizações", "Futebol, Mercado e Estado” e “Futebol e Governança". Foi presidente do IDSA, do MDA e professor de Direito Comercial do Mackenzie. É sócio de Monteiro de Castro, Setoguti Advogados.

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