Migalha do Saber

A IA e a nova era da gestão de riscos

A Inteligência Artificial já faz parte do dia a dia de investidores e bancos, mudando a disposição para tomada de risco e melhorando sistemas de análise, mas com consequências ainda imensuráveis

9/7/2026

O risco sempre esteve no centro das escolhas humanas e especialmente das grandes decisões econômicas. Investir, empreender, conceder crédito ou financiar um projeto significa, essencialmente, tomar decisões considerando incertezas. No livro “Desafio aos Deuses: A Fascinante História do Risco”, Peter L. Bernstein nos lembra que o controle do risco é uma das ideias centrais que distinguem os tempos modernos do passado mais remoto. Para ele, o desenvolvimento de instrumentos para compreender probabilidades e administrar incertezas ao longo da história foi a grande transformação que permitiu a que as pessoas não ficassem mais resignadas diante do destino. Não por acaso, a edição brasileira recebeu prefácio de Daniel Dantas, Luiz Orenstein e Pérsio Arida, renomados economistas brasileiros que sabem muito bem qual a relevância do conceito de risco para o desenvolvimento dos mercados financeiros modernos. 

Algumas décadas depois da publicação da obra, talvez estejamos diante de uma nova revolução capaz de mudar como são tomadas as decisões racionais no mercado. A inteligência artificial (IA) está alterando a forma como pessoas, investidores, bancos e reguladores analisam riscos. Ao aumentar drasticamente nossa capacidade de previsão e processamento de informações, já há percepção de que a IA está levando investidores a assumir mais riscos. Mas com isso, nasce também uma questão que merece reflexão: se há maior apetite ao risco e uso da IA ainda irá evoluir, quais serão as consequências para o sistema financeiro e para a própria economia? 

A resposta não é simples. De um lado, a IA reduz assimetrias de informação e amplia significativamente a capacidade analítica. Novas ferramentas conseguem analisar milhões de dados em segundos, identificar padrões invisíveis ao olho humano, acompanhar notícias em tempo real, simular cenários econômicos e monitorar riscos continuamente. Para muitos investidores, isso transmite uma sensação de maior controle sobre o futuro e pode refletir em maior aceitação de investimentos que antes seriam considerados arriscados. Para bancos, gestores e seguradoras, também representa decisões mais rápidas e modelos muito mais sofisticados. Um desdobramento natural é uma mudança na fronteira entre prudência e ousadia. 

Essa transformação já está em curso. Segundo a Pesquisa Febraban de Tecnologia Bancária 2026, realizada pela Deloitte, o Cloud e Inteligência Artificial Generativa tornaram-se as maiores prioridades de investimentos em tecnologia dos bancos brasileiros, ambas citadas por 84% das instituições. No total, os investimentos em IA cresceram 39% entre 2024 e 2025, alcançando R$ 826 milhões. 

Os bancos já usam e pretendem ampliar a presença da tecnologia em diferentes áreas, como em análise de crédito, prevenção a fraudes, atendimento ao cliente, compliance, monitoramento regulatório, gestão operacional e investimentos. 

A tendência aparece ainda na hora de dar mais segurança ao sistema e protegê-lo de golpes cada vez mais perigosos. Um estudo global do ano passado, realizado pela consultoria EY em parceria com o Institute of International Finance, mostrou que 75% dos Chief Risk Officers (CROs) pretendem utilizar IA no combate a fraudes e crimes financeiros. 

Se bem empregada e com acesso ampliado, a IA tem potencial de transformar a indústria bancária, trazendo mais eficiência e uma série de vantagens na gestão de risco como um todo, o que faz pensar se irá alterar as métricas atualmente utilizadas para garantir a segurança no sistema financeiro. 

Hoje, bancos mantêm elevados colchões de capital, fundos de pensão adotam premissas atuariais conservadoras. O Fundo Garantidor de Crédito (FGC) calcula sua capacidade de cobertura considerando riscos sistêmicos, enquanto o Banco Central (BC) e os reguladores internacionais estruturam exigências prudenciais sobre modelos estatísticos desenvolvidos ao longo de décadas. Mas e se a IA reduzir parte dessa incerteza? Não porque elimine o risco — algo impossível —, mas porque permita medi-lo de forma mais dinâmica, granular e contínua. 

Vale reforçar que isso não significaria afrouxar a regulação, mas torná-la mais precisa. Quanto mais eficiente for a mensuração do risco, menor tende a ser a necessidade de manter recursos excessivamente imobilizados. O capital hoje destinado exclusivamente à cobertura prudencial poderia, em determinadas circunstâncias, ser direcionado para ampliar crédito, financiar investimentos produtivos, estimular inovação e aumentar a capacidade de crescimento da economia. 

Claro que é preciso cautela com qualquer nova tecnologia e a história financeira demonstra que modelos sofisticados frequentemente produzem excesso de confiança. A crise de 2008 foi um lembrete de que fórmulas podem falhar justamente quando mais são necessárias. Além disso, algoritmos aprendem com dados do passado, enquanto as grandes crises costumam nascer de eventos inéditos. 

Por isso, governança, transparência, diversidade de modelos e supervisão humana continuarão sendo indispensáveis. A IA não elimina julgamento, apenas desloca para outro estágio as decisões críticas. A tecnologia amplia capacidades, mas não substitui julgamento, responsabilidade e pensamento crítico. 

O seu potencial transformador, porém, não pode ser ignorado. Um levantamento da consultoria PwC, publicado este mês, estima que bancos capazes de incorporar plenamente a IA poderão melhorar em até 15 pontos percentuais seus índices de eficiência. Mais do que reduzir custos, a IA tende a transformar esse indicador em uma medida da própria maturidade tecnológica das instituições. 

Talvez estejamos entrando em uma nova etapa da história da administração de riscos. A grande questão será saber se essa nova capacidade produzirá apenas investidores mais confiantes ou um sistema financeiro genuinamente mais seguro. Caso a segunda hipótese prevaleça, talvez a maior contribuição da IA para o mercado financeiro não seja prever o futuro, mas permitir que a economia utilize seu capital com mais eficiência, preservando a estabilidade que torna o crescimento possível. Se Bernstein mostrou como aprendemos a administrar o risco, a IA pode representar o próximo capítulo dessa história — desde que nunca confundamos maior capacidade de cálculo com a ilusão de que o futuro, enfim, tornou-se previsível.

Colunista

Pierre Moreau é sócio-fundador do Moreau Advogados e da Casa do Saber (2004), ex-conselheiro fiscal do Hospital Sírio Libanês, árbitro de diversas câmaras de arbitragem. Professor do Insper e professor visitante na Universitat St. Gallen, organizou e escreveu diversos livros como Fora da Curva II (Portfolio-Penguin, 2020), A Nova Geração de CEOs (Portfolio-Penguin, 2018), Grandes Crimes (Três Estrelas, 2017), Fora da Curva (Portfolio-Penguin, 2016), Grandes Advogados (Casa da Palavra, 2011 e O Financiamento da Seguridade Social na União Europeia e no Brasil (Quartier Latin, 2005). É mestre e doutor em Direito pela PUC/SP. Cursou Harvard Law School e Harvard Business School.

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