Migalhas de Vulnerabilidade

I'm Just Ken (sou apenas o Ken): o apagamento das mulheres e da luta feminista no mundo real

Uma reflexão sobre questões de gênero, misoginia, e os padrões culturais que influenciam a maneira como as mulheres são percebidas e tratadas na sociedade contemporânea.

7/3/2024

No dia 23 de janeiro de 2024 o Oscar anunciou a lista dos indicados à premiação. E um ponto que chama a atenção se relaciona com o Filme da Barbie, que foi um grande sucesso de bilheteria do ano de 2023 que chegou a arrecadar mais de 1,446 bilhão de dólares.

O filme conseguiu emplacar 10 (dez) indicações no Oscar, sendo uma delas a de Melhor Filme, mas a não indicação em duas categorias específicas vieram a causar uma estranheza, sendo elas a de Melhor Diretor e Melhor Atriz. Sendo a diretora do filme Greta Gerwig e a atriz Margot Robbie ignoradas pela academia que elege os indicados.

Nota-se que o ator que interpretou o Ken no filme (Ryan Gosling) foi indicado na categoria de Melhor Ator Coadjuvante. O que acaba por comover uma reflexão social e jurídica acerca da invisibilização de gênero e as consequências que isso acarreta para toda uma sociedade. “O mundo patriarcal necessita da glória masculina sobre os outros para viver e necessita da dominação e da ocultação histórica das mulheres para se manter em pé”1

Fato é que o patriarcado naturalizado vem sempre no sentido de querer colocar as mulheres como obedientes, submissas e silenciosas2. E tal influência se enraíza em todos os níveis e aspectos da sociedade, não estando nenhuma mulher “isenta” de sofrer com este movimento.

O debate em pauta se relaciona em muitos aspectos com os pactos narcísicos e branquitude, que são tidos como acordos silenciosos, não verbalizados ou formalizados, mas que mantém em situação de privilégio e poder, ou seja, que estrutura a relação de dominação que pode se constituir através de classe, gênero, raça e etnia e de identidade de gênero, dentre outras3.

Esses pactos acabam por proporcionar uma situação de manutenção dos homens brancos, heterossexuais e cisgênero no poder e também em evidência na sociedade. E que se conecta intrinsecamente com o patriarcado, misoginia e machismo, pontos que foram enfrentados pelo Filme Barbie, justamente no sentido de acolher as críticas que está boneca e personagem recebe em razão de seus padrões estéticos e valores majoritariamente difundidos.

Mesmo que a diretora e a atriz sejam brancas, não usufruem dos privilégios da branquitude de forma tão plena assim, pois conforme a autora Cida Bento esclarece:

[...] nem todas as pessoas definidas como brancas tiram proveito da branquitude do mesmo modo, pois ela varia segundo gênero, sexualidade, classe, religião, idade, nacionalidade, que precisam ser levadas em conta na análise etnográfica.4

Outro acontecimento envolvendo premiações e o Filme Barbie foi no Globo de Ouro deste ano (07/01/24), momento em que o mestre de cerimônias Jo Koy reduziu e sexualizou toda a obra cinematográfica em foco, falando que: “Barbie foi baseado em uma boneca de plástico com seios grandes”. Apesar do esforço das cineastas de trazer outros elementos para as telas.

O que reforça o discurso misógino e machista enraizado na cultura global, o que mais uma vez se encontra como uma barreira para um tratamento igualitário, efetivação e promoção de direitos das mulheres. O patriarcado tenta por todas as formas invisibilizar, reduzir e sexualizar o corpo feminino, o trabalho feminino, o esforço deste grupo no geral.

Não se quer aqui “radicalizar” a crítica, mas trazer para a reflexão a dificuldade da implementação de uma nova visão e tratamento acerca da mulher. Uma das dificuldades de debater temas como esse, se dá exatamente por um movimento de esvaziamento da pauta. Observe-se, por exemolo, a resiginificação do termo “feminista” para “feminazi” que atualmente é compreendido como algo negativo, atribuindo à pessoa que se define como feminsita alguém abjeta5.

A não indicação ao Oscar só reforça as seguintes reflexões: A quem a ocultação das mulheres pode servir? Por que a luta feminista deve ser ignorada?

 Ao enaltecer o Ken e não a Barbie, e as polêmicas em torno do enredo de seu filme, o Oscar ilustra com todas as cores como patriarcado age. Nota-se que isso está acontecendo em uma das premiações mais renomadas do mundo, imagine o que ocorre nas ruas e no dia a dia das mulheres de todo mundo, e principalmente daquelas que possuem mais do que um marcador de vulnerabilidade, como por exemplo mulheres perifericas, negras, transsexuais, atípicas etc.

Não se vive em um mundo igualitário e o patriarcado reforça a manutenção desse estado de desigualdade de gênero. A luta social e jurídica deve se voltar não ao homem, mas a essa forma de pensar e agir que enaltece o masculino e o branco.

Para finalizar, coloca-se em foco a canção I’m Just Ken interpretada pelo ator Ryan Gosling para o filme Barbie, que venceu o prêmio de melhor canção original no 29º Critics Choice Awards e que em certo momento de sua letra vem a dizer:

'Cause I'm just Ken

Anywhere else I'd be a ten

Is it my destiny to live and die a life of blonde fragility?6. 

Ser apenas o Ken no mundo real significa ser superior a Barbie, uma inversão do que ocorre na Barbieland, lugar que as Barbies dominam e exercem as principais funções de uma sociedade. Ser apenas o Ken em nossa sociedade significa ter privilégios, ter mais visibilidade, probabilidade e chances de sucesso profissional.

Referências

BENTO, Cida. O pacto da branquitude. São Paulo: Companhia das Letras, 2022.

DINIZ, Debora; GEBARA, Ivone. Esperança feminista. Rio de Janeiro: Rosa dos Tempos, 2022.

__________

1 DINIZ, Debora; GEBARA, Ivone. Esperança feminista. Rio de Janeiro: Rosa dos Tempos, 2022. p. 31.

2 DINIZ, Debora; GEBARA, Ivone. Esperança feminista. Rio de Janeiro: Rosa dos Tempos, 2022. p. 29.

3 BENTO, Cida. O pacto da branquitude. São Paulo: Companhia das Letras, 2022. p. 120.

4 BENTO, Cida. O pacto da branquitude. São Paulo: Companhia das Letras, 2022. p. 66.

5 DINIZ, Debora; GEBARA, Ivone. Esperança feminista. Rio de Janeiro: Rosa dos Tempos, 2022. p. 70.

6 Tradução livre: “Porque sou apenas o Ken. Em qualquer outro lugar, eu seria um dez. Será que meu destino é viver e morrer em uma vida de fragilidade loira?”.

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Coordenação

Thamis Dalsenter é coordenadora acadêmica do Instituto de Direito da PUC-Rio. Doutora em Direito Civil pela UERJ. Mestre em Teoria do Estado e Direito Constitucional da PUC-Rio. Professora de Direito Civil do Departamento de Direito da PUC-Rio.