Política, Direito & Economia NA REAL

Pacem in Terris

Política interna, populismo, desigualdade e a ausência dos promotores da paz.

3/3/2026

Há épocas em que o mundo parece envelhecer de repente. Não porque lhe faltem ciência, riqueza ou tecnologia, mas porque lhe falta ética. O nosso tempo é um desses. A civilização contemporânea, tão ágil para inventar meios de conexão, cura, cálculo e produção, voltou a depender, com uma docilidade inquietante, do mal da destruição. A guerra reapareceu não apenas como episódio, mas como atmosfera. Ela paira sobre a política internacional como uma névoa de resignação. Em muitos países, já não se pergunta como evitá-la, mas como “administrá-la”, como “narrá-la e entendê-la”, como “lucrar com ela”, como apresentá-la às sociedades sem demasiada vergonha.

Eis o primeiro sinal do nosso rebaixamento. A guerra deixou de ser, para muitos, uma falha extrema da política e tornou-se um instrumento da normalidade. Ao invés de ser vista como a falência das instituições, a guerra é tratada como recurso de governo. Paradoxalmente, a miséria moral dos líderes empresta uma aparência de grandeza às guerras. O mundo, neste início de março de 2026, não está apenas cercado por conflitos - está educado por eles. A “pedagogia do medo” prevalece.

Não se trata de uma multiplicidade casual de frentes desconexas. O conflito entre Rússia e Ucrânia prossegue em sua devastação, o Oriente Médio voltou a uma combustão ampliada, com Gaza destroçada e a escalada Israel-Irã-EUA ameaçando toda a região, o Iêmen continua como laboratório de exaustão humanitária, Afeganistão e Paquistão atravessam combates primevos de uma guerra, Taiwan vive sob pressão militar, cibernética e psicológica crescente da China, o Sudão tornou-se o palco da maior crise de deslocamento forçado do planeta e, no hemisfério ocidental, a atuação militar de Donald Trump na Venezuela reintroduziu, sob linguagem de poder, uma lógica de ocupação que deveria estar confinada ao passado. Esses fatos não pertencem a um inventário aleatório do caos. Eles compõem um sistema.

O que unifica esse sistema não é apenas a geopolítica. É algo mais próximo, mais incômodo e, por isso mesmo, mais revelador: boa parte dessas guerras armadas, dessas “quase-guerras” e dessas escaladas permanentes nasce da crise política interna dos próprios regimes envolvidos. A política externa, muitas vezes, não passa de política interna projetada sobre o mapa. Líderes enfraquecidos, coalizões frágeis, economias pressionadas, sociedades polarizadas, ressentimentos identitários e desigualdades crônicas produzem uma tentação recorrente: fabricar no exterior a intensidade que já não se consegue produzir legitimamente no interior. Raymond Aron compreendeu com sobriedade exemplar que a política internacional jamais pode ser separada da forma dos regimes e da anatomia do poder que a conduz.1

É claro que seria pueril dizer que toda guerra nasce de uma pesquisa eleitoral ruim ou de um gabinete acuado. A realidade internacional é mais trágica do que uma caricatura dessas. Há conflitos reais de segurança, disputas territoriais autênticas, ameaças estratégicas objetivas. Mas a recusa da caricatura não deve levar à recusa da evidência. Governantes em dificuldade recorrem, com frequência histórica quase didática, ao conflito externo como tecnologia de recomposição interna. A guerra concentra a atenção coletiva, simplifica a linguagem pública, fabrica lealdades emocionais, desidrata a crítica, reorganiza a economia ao redor de urgências, recodifica fracassos como sacrifícios patrióticos e transforma o governante vacilante em figura de exceção. O líder que já não convence tenta, então, assustar.

O Oriente Médio oferece, hoje, a mais violenta demonstração desse processo. Gaza converteu-se num território onde a devastação já ultrapassou o léxico ordinário da tragédia. Segundo o OCHA, sigla em inglês para “Escritório da Nações Unidas para a Coordenação de Assuntos Humanitários” quase toda a população atual da Faixa, cerca de 2,1 milhões de pessoas, foi deslocada, e toda a população necessita de assistência humanitária. Além disso, entre 7 de outubro de 2023 e 9 de fevereiro de 2026, pelo menos 588 “trabalhadores humanitários” foram mortos no território. Em 28/2/26, Israel fechou todas as passagens para Gaza, inclusive as utilizadas para ajuda humanitária e evacuações médicas, aprofundando o estrangulamento de uma população já submetida à fome, ao colapso hospitalar e à ruína material.

Essa realidade, por si só, bastaria para fazer ruir qualquer retórica de normalidade. Mas, o elemento mais inquietante está em outro plano. Benjamin Netanyahu chega a 2026 sob pressão política acentuada. A Reuters noticiou em janeiro que ele enfrentará os eleitores pela primeira vez desde o ataque terrorista de 7/10/23 do Hamas e que o desfecho da crise com o Irã é visto por analistas como decisivo para salvar seu legado. A mesma reportagem registrava que pesquisas sucessivas desde o fim de 2023 apontavam derrota de Netanyahu numa eleição a ocorrer em prazo máximo em outubro próximo. Não é intelectualmente sério reduzir a guerra à biografia política de um só homem. Mas é impossível ignorar que a guerra se tornou o cenário dentro do qual essa liderança busca recompor autoridade, deslocar o foco do fracasso interno e recuperar o manto da indispensabilidade.

A escalada regional agravou ainda mais essa lógica. Em 28/2 e 1/3/26, os ataques combinados dos Estados Unidos e de Israel contra o Irã, seguidos de retaliações iranianas em vários pontos da região, empurraram o Oriente Médio para uma zona de perigo sistêmico. António Guterres, secretário-Geral da ONU, declarou que o uso da força pelos Estados Unidos e por Israel contra o Irã, assim como a resposta iraniana, mina a paz e a segurança internacionais. A União Europeia, por sua vez, pediu contenção máxima e advertiu para riscos econômicos amplos, inclusive sobre rotas vitais como o estreito de Ormuz. Em poucas horas, o conflito deixou de ser apenas um drama regional e passou a ameaçar energia, comércio, abastecimento, diplomacia e o já precário direito internacional.

O que isso revela é algo mais grave do que um mero erro de cálculo estratégico. Revela uma espécie de poder que só consegue falar alto quando está à beira do abismo. O governante incapaz de oferecer coesão política duradoura aprende a sobreviver pela produção contínua de emergência. A guerra funciona, nesse contexto, como a linguagem suprema da urgência. Ela dispensa a paciência da reforma, a lentidão da Justiça, a autocrítica institucional e a contenção democrática. Em vez de governar, administra-se o medo. Em vez de persuadir, convoca-se a tribo. Em vez de construir paz, fabrica-se inimigo.

A Ucrânia e a Rússia oferecem outro teatro dessa transformação, talvez ainda mais acabado. A guerra já não pode ser lida apenas como invasão, resistência e disputa territorial. Ela passou a integrar a própria estrutura política do regime russo. A ONU informou, em fevereiro de 2026, que pelo menos 15.172 civis foram mortos e 41.378 feridos desde fevereiro de 2022! A missão de monitoramento das Nações Unidas observou também que 2025 foi o ano mais letal para civis desde 2022, impulsionado por aumento expressivo do uso de drones de curto alcance e de ataques em áreas povoadas. A guerra, ali, não é mais um meio contingente: tornou-se forma de reprodução de poder.

Ao mesmo tempo, a realidade econômica começou a cobrar o preço do militarismo permanente. A Reuters reportou, em fevereiro de 2026, que o déficit orçamentário russo pode quase triplicar em relação à meta oficial, em razão da queda das receitas petrolíferas e de descontos comerciais ampliados. Dias antes, outra reportagem da agência registrara que o FMI reduziu a projeção de crescimento da Rússia para 0,8% em 2026. Em termos políticos, isso importa porque mostra que o conflito, para Moscou, já não serve apenas para projetar força externa, mas também para disfarçar fragilidade interna. Encerrar a guerra significaria expor, sem anestesia, o custo humano, fiscal, institucional e psicológico do regime.

É aqui que a guerra deixa de ser instrumento e se torna ecossistema. Ela gera interesses que dependem de sua continuidade, cria uma economia de fornecedores, propagandistas, burocratas e ideólogos, recodifica a crítica como traição, faz da disciplina uma virtude nacional e converte a paz num evento perigoso, porque a paz pede balanço, responsabilidade, revisão, memória, e a memória é tudo o que um poder personalista deseja controlar. A guerra sustenta o governante não apenas quando ele vence, mas também quando precisa adiar o momento em que será julgado.

A experiência contemporânea ensina que o populismo não deve ser compreendido apenas como gesticulação verbal, desprezo pelas mediações ou elogio plebiscitário da vontade. O populismo é, antes de tudo, uma tecnologia de simplificação moral. Ele precisa dividir a realidade em campos absolutos: o povo verdadeiro e os seus traidores, de um lado, e a nação virtuosa e seus sabotadores, de outro. Na política externa, o conflito deixa de ser eventual e se converte em tentação permanente. O líder populista precisa de inimigos externos porque eles lhe oferecem o palco ideal para a encenação da decisão soberana.

Donald Trump, na Venezuela, tornou isso quase literal. A espetacular captura de Nicolás Maduro pelas forças dos Estados Unidos, em janeiro de 2026, abriu uma nova fase de tutela americana sobre os fluxos petrolíferos venezuelanos. A Reuters informou que apenas um terço dos americanos aprovou o ataque, enquanto 72% declararam preocupação com o risco de excessivo envolvimento dos EUA na Venezuela. A mesma cobertura mostrou que Trump vinculou a operação ao futuro econômico do petróleo venezuelano, afirmando que companhias americanas investiriam bilhões para restaurar a produção do país. Mais recentemente, a Reuters noticiou que Washington passou a controlar diretamente as receitas dessas vendas, com expectativa de US$ 2 bilhões até o fim de fevereiro.

Há, nesse episódio, um ensinamento brutal sobre o nosso tempo. O conflito externo não tem uso apenas para satisfazer ambições estratégicas: serve também para reorganizar o imaginário doméstico de autoridade. Um governo pressionado por tensões econômicas, polarização e desgaste institucional reaparece como governo de comando, de impulso, de iniciativa, de músculo. A ação militar encurta o caminho entre insegurança interna e prestígio externo. O governante troca legitimidade por teatro.

Esse mecanismo não é americano, embora nos Estados Unidos ele adquira grande e inédito poder performativo. Também surge, com intensidades diversas, em democracias fatigadas, regimes híbridos, autocracias eleitorais e lideranças sitiadas por crises de popularidade. Benjamin Netanyahu, Vladimir Putin, Donald Trump e outros líderes de nosso tempo não são idênticos entre si, nem equivalentes moral ou institucionalmente. O que os aproxima é outra coisa: a percepção de que a política interna já não pode ser sustentada apenas por administração, resultado ou promessa racional. É preciso intensidade. E a guerra fornece intensidade como quase nada mais fornece.

O populismo contemporâneo ressurgiu com a afinidade eletiva com a militarização. Ele não tolera a ambiguidade, prefere o clarão da ameaça. Ele não sabe trabalhar com o adversário legítimo, precisa do inimigo radical. E, quando a desigualdade social produz massas humilhadas, frustradas ou cronicamente desprotegidas, essa linguagem encontra terreno fértil. A ilustre intelectual Martha Nussbaum2 insiste, em sua obra sobre emoções políticas, que as democracias dependem de sentimentos públicos capazes de conter o medo, a repugnância e a humilhação como fundamentos da vida comum. Quando essas emoções não são educadas, a política tende a tornar-se punitiva. E a política punitiva, cedo ou tarde, encontra na guerra seu grande teatro.

Está claro que nenhuma guerra séria se explica apenas pela desigualdade. Mas, quase nenhuma guerra prolongada deixa de ser, em algum nível, alimentada por ela. A desigualdade produz mais do que carência, produz humilhação. Produz a convicção de que a ordem social não distribui dignidade. Produz raiva, insegurança, competição feroz por reconhecimento e disponibilidade para narrativas que prometem reparação por meio da exclusão de alguém. Quando o Estado fracassa em oferecer cidadania, o ressentimento torna-se matéria-prima para líderes que fabricam coesão pela agressividade.

É por essa razão que a guerra contemporânea deve ser lida também como sintoma da falência do contrato social. Em sociedades profundamente fraturadas, a energia política que poderia ser investida na redução da pobreza, na universalização de direitos, na reconstrução de infraestrutura pública, na reforma das instituições e na pacificação do debate é desviada para a mobilização identitária. A desigualdade alimenta o populismo que alimenta o conflito que alimenta a indústria militar que, por sua vez, legitima novos desvios de recursos que poderiam reduzir a desigualdade. Forma-se assim um círculo vicioso, tão lucrativo para alguns quanto devastador para quase todos.

Afeganistão e Paquistão são um exemplo eloquente dessa dinâmica. Nos últimos dias de fevereiro e no primeiro de março de 2026, Reuters e Associated Press relataram os confrontos mais intensos entre os dois países em anos, com ataques aéreos, represálias na fronteira e acusações mútuas relativas ao abrigo concedido a grupos militantes. A Reuters destacou que a escalada foi precipitada por bombardeios paquistaneses em território afegão e pela alegação de Islamabad de que o Talibã abriga o Tehrik-e-Taliban Pakistan. O Financial Times observou, na mesma conjuntura, que 2025 foi o ano mais letal em duas décadas para as forças de segurança paquistanesas. Estamos, aqui, diante de uma fronteira em que a crise interna de ambos os regimes se derrama sobre a geografia.

Colunista

Francisco Petros Advogado, especializado em direito societário, compliance e governança corporativa. Também é economista e MBA. No mercado de capitais brasileiro dirigiu instituições financeiras e de administração de recursos. Foi vice-presidente e presidente da seção paulista da ABAMEC – Associação Brasileira dos Analistas do Mercado de Capitais e Presidente do Comitê de Supervisão dos Analistas de Investimento. É membro do IASP - Instituto dos Advogados de São Paulo e do Corpo de Árbitros da B3, a Bolsa Brasileira, Membro Consultor para a Comissão Especial de Mercado de Capitais da OAB – Nacional. Atua como conselheiro de administração de empresas de capital aberto e fechado.

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