A lista em tempo real da Forbes1 não é apenas um “entretenimento estatístico” para curiosos do mercado e pretendes à imensa riqueza. Ela funciona como uma radiografia instantânea do regime contemporâneo de acumulação de riqueza. Em março de 2026, a própria Forbes registrou um recorde de 3.428 bilionários no mundo, com patrimônio combinado de US$ 20,1 trilhões, US$ 4 trilhões acima do ano anterior! No topo da lista anual aparecem Elon Musk, Larry Page, Sergey Brin, Jeff Bezos, Mark Zuckerberg, Larry Ellison, Bernard Arnault, Jensen Huang, Warren Buffett e Amancio Ortega - sete dos dez primeiros derivam sua fortuna diretamente do setor de tecnologia. A fotografia em tempo real, embora oscile a cada pregão, preserva a mesma lógica estrutural: Musk, Page e Brin permanecem entre os primeiros colocados, o que mostra como ativos acionários, plataformas digitais, semicondutores, software e ecossistemas de dados passaram a ocupar o centro da produção de riqueza extrema. Afora as mudanças comportamentais das sociedades que esses bilionários originaram no mundo líquido no qual vivemos.
O primeiro ponto que o “estado da arte” das pesquisas acadêmicas sobre o tema põe à luz é que a desigualdade relevante hoje não é apenas a desigualdade de renda, mas, sobretudo, a desigualdade de riqueza. A literatura sociológica e econômica recente deslocou o foco do “fluxo” (renda) para o “estoque” (riqueza): salários importam, mas patrimônio, herança, participação acionária e valorização de ativos importam ainda mais. O World Inequality Report 20222 sintetiza esse diagnóstico com números difíceis de contornar: os 10% mais ricos detêm 76% da riqueza global, enquanto a metade inferior da humanidade possui apenas 2%. Mais ainda: desde meados da década de 1990, o 1% do topo capturou 38% de toda a riqueza adicional criada no planeta durante aquele período, ao passo que os 50% inferiores ficaram com apenas 2%. No mesmo período, a fatia dos bilionários na riqueza global saiu de cerca de 1% para mais de 3%. A lista da Forbes, portanto, não cria o problema: ela torna visível as variáveis relacionadas ao tema.
A pesquisa acadêmica mais sofisticada e empenhada em avaliar o tema também deixou de tratar a desigualdade como mero “subproduto inevitável” do talento ou do mérito individual - isso mesmo, a propalada meritocracia está em baixa. Um artigo de síntese publicado no Journal of Economic Literature em 2024, por Samuel Bowles e Mattia Fochesato3, mostra que a questão decisiva não é explicar como as diferenças surgem, mas o porquê elas perduram e se reproduzem por longos períodos (décadas e não anos). O argumento é importante porque recoloca instituições de Estado, poder político e, especialmente nessa era, a tecnologia no centro da análise. Desigualdades tornam-se duráveis quando novas tecnologias elevam o valor dos ativos controlados pelos poucos e quando estruturas políticas e jurídicas permitem que essas vantagens sejam transmitidas, protegidas e ampliadas. Essa leitura conversa diretamente com a configuração atual do topo da lista da Forbes: não se trata apenas de indivíduos “bem-sucedidos”, mas de posições estruturais ancoradas em propriedade intelectual, efeitos de redes sociais, escala global de atuação e alta capacidade de converter riqueza privada em influência pública - este último item algo notório e espetaculoso em tempos de Donald Trump.
É por essa razão que a composição setorial do ranking importa tanto. O predomínio de fortunas associadas à tecnologia não é um detalhe, digamos “folclórico ou específico” do capitalismo digital. Trata-se de uma pista sobre a natureza da “nova concentração de renda”. A literatura recente sobre “superstar firms”4 mostra que automação, economias de escala e markups5 crescentes ajudam a explicar a ascensão de empresas gigantescas e a elevação da concentração setorial. Um estudo publicado no Journal of Monetary Economics em 20256 liga explicitamente a digitalização de processos ao surgimento dessas firmas dominantes: empresas maiores e mais produtivas automatizam mais, expandem-se ainda mais e aprofundam a concentração da renda e, mais fortemente, da riqueza. Quando se olha novamente para Musk, Page, Brin, Bezos, Zuckerberg, Ellison e Huang, percebe-se que a lista da Forbes é, em grande medida, a expressão patrimonial desse processo. A desigualdade contemporânea não é apenas “mais riqueza no topo”, mas também é mais poder econômico em setores capazes de moldar inovação, infraestrutura digital, fluxo de informação e expectativas de mercado - e isso é essencial ao processo político. Como se vê há um processo de formação de expectativas muito mais ativo do que nos períodos nos quais a inovação era menos agressiva. Paradoxalmente, o Brasil tem o diferencial de maior crescimento da sua economia no setor agrícola, fruto de nosso atraso tecnológico mais amplo.
O segundo grande achado da literatura recente é que riqueza não se distribui como renda. A OECD vem insistindo nesse ponto, e seus trabalhos mais novos são particularmente eloquentes. Em estudo publicado em 20267, a organização observa “que a riqueza é muito mais desigualmente distribuída do que renda e consumo e que essa desigualdade é impulsionada sobretudo por ativos financeiros, sendo parcialmente moderada pela habitação”. No conjunto de países analisados, o quintil inferior frequentemente apresenta riqueza líquida negativa! No caso dos Estados Unidos, o top 1% detinha 38% da riqueza total em 2023 - isso mesmo: os EUA são um país profundamente desigual. Em outra frente, a OECD também destaca que, embora o aumento do valor dos imóveis tenha atenuado a desigualdade em alguns países no fim da década de 2010, a alta dos preços da moradia tornou a propriedade cada vez menos acessível para jovens e famílias de menor patrimônio. Traduzindo para uma linguagem menos técnica: a desigualdade atual não é somente a diferença entre quem ganha muito e quem ganha pouco, mas entre quem possui ativos que se valorizam e quem vive sem patrimônio - ou endividado. O mercado financeiro também transplanta os seus domínios da economia real.
Quando esse quadro é transportado para o terreno da mobilidade social, o problema se torna ainda mais grave. A OECD resume bem a questão ao afirmar que desigualdade e falta de oportunidade têm efeitos duradouros e amplos sobre a vida das pessoas. Dentre seus exemplos, crianças cujos pais possuem ensino superior têm probabilidade 45% maior de concluir a universidade do que aquelas cujos pais não chegaram ao ensino secundário. No relatório de 20258 sobre América Latina e Caribe, a mesma organização afirma que o decil superior de renda na região ganha 12 vezes mais do que o decil inferior. A desigualdade, assim, deixa de ser apenas uma fotografia distributiva e vira uma máquina de “reprodução intergeracional”. Nesse contexto, a lista da Forbes não deve ser lida como um catálogo de indivíduos extraordinários, mas como o ápice visível de uma estrutura em que ativos, educação, redes e heranças tendem a se reforçar mutuamente por longos períodos. Os efeitos políticos desse processo já estão em franca ação e têm relação com temas como o aumento da criminalidade via organizações criminosas sedimentadas em segmentos sociais desfavorecidos.
A literatura mais recente também reforça que desigualdade patrimonial não é só um tema moral, mas um tema sobre “democracia”. O NBER Working Paper de 20249 recorda que uma promessa central da democracia moderna era romper o vínculo entre riqueza econômica e poder político, mas observa que, nas contemporaneamente, os mais abastados seguem “super-representados” entre votantes e legisladores. É um ponto decisivo. Quando a Forbes mostra fortunas individuais próximas ou superiores ao PIB anual de muitos países, o que aparece não é apenas capacidade de consumo privado, mas também capacidade de financiar agendas, influenciar regras, pautar tecnologias, adquirir meios de comunicação, litigar indefinidamente e moldar o debate público via redes sociais globais. A desigualdade extrema, nesse sentido, corrói a igualdade política antes mesmo de aparecer como, digamos, “estatística social”. O caso Master expressa bem o que se pretendeu informar nesse paper.
Há ainda uma dimensão macroeconômica que a pesquisa recente passou a enfatizar com mais força. Um artigo de 202410 na revista World Development, baseado em dados de 165 países entre 1995 e 2019, encontra relação negativa e estatisticamente significativa entre desigualdade de riqueza e crescimento econômico: um aumento de um desvio-padrão no índice de Gini patrimonial11 está associado a uma queda de 0,34 ponto percentual no crescimento anual - “0” significa igualdade perfeita; “1” significa desigualdade máxima, isto é, todo o patrimônio concentrado em uma só unidade. Isso é importante porque desfaz a oposição simplista entre eficiência e equidade, muito usada como argumento ideológico. A velha tese de que concentrar riqueza no topo seria sempre funcional ao investimento produtivo e à inovação encontra hoje crescente contestação empírica. Em excesso, a concentração patrimonial parece reduzir dinamismo, comprimir oportunidades e alimentar formas de poder econômico pouco competitivas. O topo da lista da Forbes pode impressionar o imaginário, mas a literatura já não permite tratá-lo como evidência automática de prosperidade social.
Outro consenso importante do debate atual diz respeito à tributação. O FMI, em nota técnica de 202412, sustenta que a política tributária é instrumento central para enfrentar desigualdade e propõe distinguir três vias: (i) tributação dos retornos do capital, (ii) tributação do “estoque de riqueza” e (iii) tributação das “transferências patrimoniais”. A conclusão do documento é cuidadosa: tributar retornos efetivos tende a ser menos distorcivo e mais equitativo do que um tributo anual amplo sobre patrimônio. Por essa razão, a prioridade deveria recair sobre o fortalecimento do imposto sobre renda sobre o capital, especialmente “ganhos de capital”, o fechamento de brechas e o uso de novas tecnologias e troca internacional de informações para melhorar a fiscalização. O mesmo texto sublinha que a tributação da herança é importante para conter a formação de riqueza dinástica. A OECD13 vai no mesmo sentido ao afirmar que riqueza e heranças são distribuídas de forma desigual e tendem a ganhar peso no futuro.
O estudo14, publicado em 2025 no Journal of Public Economics reforça esse ponto ao mostrar que transferências acima do percentil 95 (os mais ricos) geralmente ampliam a desigualdade patrimonial. O debate acadêmico, portanto, não converge para uma única solução mágica, mas converge nitidamente para a ideia de que a desigualdade de riqueza não se corrige sem enfrentar os temas do “capital”, “herança’ e “elisão tributária transnacional”.
Por fim, é impossível separar a ascensão dos “super ricos” da estagnação contemporânea do combate à pobreza. O Banco Mundial advertiu, em seu relatório de 202415, que a redução da pobreza global e os avanços em prosperidade compartilhada perderam ímpeto no pós-pandemia. Em suas figuras-resumo, a instituição fala em quase estagnação e no risco de que a década de 2020 se torne uma “década perdida” para a redução da pobreza. Isso não significa que a existência de bilionários explique, sozinha, a persistência da pobreza mundial. Significa algo ainda mais sério: enquanto a riqueza extrema acelera no topo e se beneficia da valorização de ativos, da tecnologia e da integração financeira, os mecanismos de disseminação social do progresso mostram-se frágeis, lentos e insuficientes. A coexistência entre o boom patrimonial dos bilionários e a estagnação da prosperidade compartilhada é precisamente o núcleo do “mal-estar” contemporâneo com o processo político, por vezes reacionário.
Vista assim, a lista da Forbes deixa de ser uma curiosidade sobre pessoas ricas e se torna um documento do nosso tempo. Ela condensa, em nomes próprios e cifras espetaculares, processos que a academia hoje descreve com clareza crescente: financeirização, concentração tecnológica, herança, baixo acesso a ativos, mobilidade travada e reaproximação entre riqueza e poder político. E la nave va, no uso da expressão felliniana.
O problema da desigualdade, portanto, não está em haver indivíduos muito ricos, mas em a arquitetura econômica e institucional produzir, reiteradamente, posições patrimoniais tão elevadas que elas passem a operar acima da própria experiência democrática ordinária. O desafio do século XXI não é apenas reduzir pobreza: é impedir que a concentração extrema da riqueza converta poucos acionistas privados em “majoritários” e a imensa maioria dos povos em “minoritários”.
É por isso que a leitura séria da lista da Forbes não convida à inveja nem ao moralismo fácil e populista, mas a uma pergunta institucional decisiva: quanta desigualdade uma democracia consegue suportar antes de deixar de ser, substantivamente, uma democracia?
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1 FORBES. Forbes Real-Time Billionaires List: The World’s Richest People. Forbes, 2026. Disponível no portal da Forbes. Acesso em: 13/3/2026.
2 Disponível aqui. (acesso em 13/3/2026)
3 BOWLES, Samuel; FOCHESATO, Mattia. The Origins of Enduring Economic Inequality. Journal of Economic Literature, v. 62, n. 4, p. 1475–1537, dez. 2024.
4 O termo surgiu com o economista da Universidade de Chicago Sherwin Rosen (1938-2001), no artigo clássico “The Economics of Superstars” (1981), para explicar por que, em certos mercados, pequenas diferenças de talento ou qualidade podem gerar enormes diferenças de remuneração. Nos anos 2010, especialmente no período 2017–2020: a literatura de organização industrial e macroeconomia adapta essa lógica para a teoria da firma, falando em superstar firms. (N.A.)
5 Markup é a margem adicionada ao custo para formar o preço de venda. É dada pela fórmula markup = (preço-custo)/custo.
6 FIROOZ, Hamid; LIU, Zheng; WANG, Yajie. Automation and the rise of superstar firms. Journal of Monetary Economics, v. 151, art. 103733, 2025. Disponível em: ScienceDirect. Acesso em: 13/3/2026. DOI: 10.1016/j.jmoneco.2025.103733.
7 Disponível aqui. Acesso em 13/3/2026.
8 OECD. Social Mobility and Inequality in Latin America and the Caribbean. Paris: OECD, 18 dez. 2025.
9 Disponível aqui. Acesso: 13/3/2026
10 Disponível aqui.
11 O índice de Gini patrimonial é o Gini aplicado à distribuição da riqueza, e não da renda. Em vez de medir como a renda se reparte entre pessoas ou famílias, ele mede como se distribui o patrimônio líquido - isto é, ativos menos passivos: imóveis, aplicações financeiras, participações societárias e outros bens, descontadas as dívidas. A diferença decisiva está no objeto medido. No Gini de renda, pergunta-se quem ganha mais e menos ao longo de um período. No Gini patrimonial, pergunta-se quem possui mais e menos riqueza acumulada. Por isso, o Gini patrimonial costuma revelar desigualdades ainda mais intensas do que o Gini de renda, porque riqueza tende a ser muito mais concentrada do que fluxo de rendimentos. A própria OCDE destaca que a riqueza é “far more unequally distributed than income and consumption”. (N.A)
12 HEBOUS, Shafik; KLEMM, Alexander; MICHIELSE, Geerten; OSORIO-BUITRON, Carolina. How to Tax Wealth. IMF How to Notes, v. 2024, n. 001. Washington, DC: IMF, mar. 2024.
13 Op. Cit.
14 MORELLI, Salvatore et al. The Influence of Inheritances on Wealth Inequality in Rich Countries. Journal of Public Economics, 2025.
15 WORLD BANK. Poverty, Prosperity, and Planet Report 2024. Washington, DC: World Bank, 2024.