Por dentro da Suprema Corte dos EUA

Advogando perante a suprema corte dos EUA – parte III - entrevista com Nicole A. Saharsky

Nicole Saharsky revela os bastidores da Suprema Corte dos EUA, unindo técnica, estratégia e experiência em casos de alto impacto jurídico e social.

14/1/2026

Atuar perante a Suprema Corte dos Estados Unidos é um exercício reservado a um grupo restrito de advogados. Em um sistema em que a Corte escolhe discricionariamente os casos que irá julgar e decide questões de profundo impacto jurídico, político e social, a advocacia de excelência exige técnica refinada, clareza argumentativa e credibilidade construída ao longo do tempo.

É nesse cenário que se destaca Nicole A. Saharsky, sócia do Mayer Brown em Washington D.C. e uma das principais referências atuais em Supreme Court advocacy. Com mais de trinta sustentações orais perante a Suprema Corte, Nicole construiu uma trajetória singular, marcada tanto por sua experiência no Office of the Solicitor General do Departamento de Justiça dos Estados Unidos, onde atuou representando o governo federal, quanto por sua atuação no setor privado, assessorando clientes em casos de alta complexidade e relevância institucional. Sua formação inicial em engenharia química imprime à sua advocacia um rigor metodológico que se reflete na forma como estrutura argumentos, avalia provas e dialoga com juízes em temas jurídicos sofisticados.

O Mayer Brown, por sua vez, figura entre os poucos escritórios globais com uma prática sólida, contínua e amplamente reconhecida perante a Suprema Corte dos Estados Unidos. Sua equipe de Supreme Court & Appellate combina profundidade técnica, experiência institucional e capacidade estratégica para atuar em litígios que frequentemente contribuem para a formação e a evolução da jurisprudência da Corte. A tradição do escritório nesse campo confere não apenas vantagem competitiva a seus clientes, mas também uma responsabilidade singular na conformação do direito federal norte-americano.

Nesta entrevista, Nicole A. Saharsky compartilha reflexões sobre sua trajetória profissional, oferecendo uma visão privilegiada de quem atua, com frequência e autoridade, no centro do sistema judicial dos Estados Unidos. Ademais, esta entrevista traz um convidado especial: o advogado Mauro Pedroso, sócio de contencioso e arbitragem do escritório Tauil & Chequer Advogados associado a Mayer Brown, em Brasília, que gentilmente fez o contato com a entrevistada, com quem frequentemente debate questões jurídicas.

1.

Flávio Jardim, Rodrigo Becker, Gustavo Favero Vaughn, Mauro Pedroso: Você já sustentou oralmente mais de trinta casos perante a Suprema Corte dos Estados Unidos - um feito notável. Em retrospecto, quais momentos lhe parecem ter sido os mais marcantes ou inesperados em sua trajetória de atuação diante da Corte?

Nicole A. Saharsky: Minha primeira sustentação oral continua sendo a mais memorável. Nunca esquecerei a sensação de estar no púlpito, tão próxima dos Justices, com todos eles absolutamente atentos a mim e ao que eu dizia. Eu estava muito nervosa, embora o caso fosse relativamente simples - os Justices me fizeram perguntas por apenas sete minutos, dentro dos trinta minutos previstos para a sustentação, e vencemos por unanimidade, por 9 a 0 (todos votaram a favor da nossa tese, sem qualquer divergência).

2.

Flávio Jardim, Rodrigo Becker, Gustavo Favero Vaughn, Mauro Pedroso: Tendo passado vários anos no gabinete do solicitor general, você pôde observar a Suprema Corte a partir da perspectiva do governo. De que forma essa experiência influenciou a maneira como você passou a representar o setor privado perante a Corte?

Nicole A. Saharsky: Quando trabalhei para o governo, era fundamental garantir que as posições de todas as partes interessadas fossem consideradas. Atuei em muitos casos nos quais precisei representar diferentes órgãos do governo federal - como o Departamento de Estado, o Departamento de Defesa, a Agência de Proteção Ambiental, entre outros. Isso exigia a coordenação com diversos atores institucionais, para assegurar que todas essas perspectivas fossem efetivamente ouvidas. Procuro adotar a mesma postura na advocacia privada: compreender a fundo as preocupações e as ideias dos clientes e incorporá-las de forma adequada tanto nas manifestações escritas quanto na sustentação oral.

3.

Flávio Jardim, Rodrigo Becker, Gustavo Favero Vaughn, Mauro Pedroso: A Suprema Corte desempenha um papel singular na preservação do equilíbrio entre os Poderes e na garantia da estabilidade jurídica. Como você enxerga a evolução desse papel em meio às intensas disputas políticas e sociais da atualidade?

Nicole A. Saharsky: Há hoje uma atenção muito grande voltada para a Suprema Corte como instância de controle do poder presidencial. O presidente Trump editou diversas ordens executivas e adotou políticas sem precedentes, o que tem levado a Corte a julgar, com mais frequência do que o habitual, casos relacionados aos limites da autoridade do presidente. Ainda está em aberto quando - e em que medida - a Suprema Corte dirá “não” ao presidente, em vez de permitir que suas políticas sigam adiante.

4.

Flávio Jardim, Rodrigo Becker, Gustavo Favero Vaughn, Mauro Pedroso: Você já representou clientes em uma ampla gama de áreas - do Direito Administrativo ao antitruste e à discriminação no emprego. O que há em comum em sua atuação bem-sucedida como advogada em grau recursal em campos tão diversos do direito?

Nicole A. Saharsky: O mais importante é conseguir explicar por que a posição jurídica do meu cliente é consistente e faz sentido. A maioria dos juízes nos Estados Unidos é formada por generalistas: eles não se dedicam a um único ramo do direito, mas julgam casos de diversas áreas. Por isso, é essencial apresentar de forma clara o arcabouço jurídico aplicável a alguém que não esteja familiarizado com aquele tema específico, demonstrando como nossos argumentos se inserem nesse quadro de maneira coerente. Isso ajuda o juiz a se sentir seguro de que a tese defendida pelo meu cliente é a correta.

5.

Flávio Jardim, Rodrigo Becker, Gustavo Favero Vaughn, Mauro Pedroso: O Mayer Brown é um dos poucos grandes escritórios de advocacia com uma atuação contínua e claramente reconhecida perante a Suprema Corte dos Estados Unidos. Como você avalia a relevância - e a responsabilidade - de um escritório privado que exerce um papel tão ativo na formação da jurisprudência da Corte? Isso ainda é uma exceção no cenário jurídico atual?

Nicole A. Saharsky: A prática do Mayer Brown perante a Suprema Corte é antiga e amplamente reconhecida. Entendemos que isso beneficia nossos clientes nos casos julgados pela Corte, pois confere ao escritório credibilidade institucional e um conhecimento aprofundado sobre a forma como a Suprema Corte decide seus casos. Embora muitos outros escritórios tenham desenvolvido práticas voltadas à Suprema Corte nos últimos anos, poucos contam com a mesma amplitude e profundidade que caracterizam a atuação do nosso escritório.

6.

Flávio Jardim, Rodrigo Becker, Gustavo Favero Vaughn, Mauro Pedroso: Ao decidir pela concessão de um writ of certiorari [equivalente à repercussão geral do recurso extraordinário no Brasil], a reputação do advogado ou do escritório de advocacia influencia a decisão discricionária da Suprema Corte dos Estados Unidos sobre quais casos serão apreciados? Como funciona esse processo de seleção e existe espaço para uma atuação efetiva do advogado no sentido de influenciá-lo?

Nicole A. Saharsky: Sim, a reputação do advogado que atua nos autos [counsel of record] - isto é, o responsável principal pelo caso perante a Suprema Corte - tem relevância. Os Justices conhecem bem os advogados e os escritórios que comparecem com frequência à Corte. A decisão sobre a concessão do certiorari é tomada exclusivamente com base nas manifestações escritas, sem sustentação oral nessa fase. Por isso, a única forma de influenciar efetivamente esse processo é por meio da elaboração de memoriais claros, consistentes e persuasivos.

7.

Flávio Jardim, Rodrigo Becker, Gustavo Favero Vaughn, Mauro Pedroso: O caso envolvendo a seleção feminina de futebol dos Estados Unidos e a igualdade salarial teve repercussão mundial. Para além da vitória que obteve, o que você entende que esse caso simboliza no contexto mais amplo da busca pela igualdade de gênero por meio da atuação judicial?

Nicole A. Saharsky: O acordo histórico que obtivemos em favor da seleção feminina de futebol dos Estados Unidos é importante porque demonstra que pessoas submetidas a tratamentos injustos podem obter uma reparação efetiva por meio da Justiça. Esse caso teve um impacto significativo em escala global, pois incentivou seleções femininas de outros países a recorrer ao Judiciário ou a negociar a equiparação salarial - e, na maioria dessas iniciativas, os resultados foram positivos. Além dos Estados Unidos, acredito que Brasil, Inglaterra, Irlanda, Austrália, Noruega, Nova Zelândia, País de Gales e Espanha já tenham alcançado a igualdade de remuneração entre as seleções masculina e feminina de futebol.

8.

Flávio Jardim, Rodrigo Becker, Gustavo Favero Vaughn, Mauro Pedroso: As mulheres continuam sub-representadas entre os advogados que realizam sustentações orais perante a Suprema Corte. Como foi a sua própria trajetória nesse contexto e de que maneira a comunidade jurídica pode promover maior diversidade na advocacia perante os tribunais?

Nicole A. Saharsky: Você tem razão ao observar que, historicamente, menos mulheres do que homens realizaram sustentações orais perante a Suprema Corte, mas acredito que esse cenário esteja mudando. Nos últimos anos, em especial, muitas mulheres têm sustentado casos em nome de governos estaduais e federal, bem como de organizações de interesse público. Grande parte da minha experiência perante a Suprema Corte foi adquirida quando atuei no governo federal, no Office of the Solicitor General do Departamento de Justiça dos Estados Unidos. Nos últimos anos, esse órgão passou a apresentar uma divisão praticamente equilibrada, próxima de 50% entre mulheres e homens, entre os advogados que realizam sustentações na Suprema Corte.

9.

Flávio Jardim, Rodrigo Becker, Gustavo Favero Vaughn, Mauro Pedroso: Nos últimos anos, a participação de amicus curiae, dados empíricos e argumentos de política pública têm exercido influência crescente nos julgamentos perante a Suprema Corte. Como você avalia o papel desses elementos na formação do raciocínio jurídico da Corte?

Nicole A. Saharsky: A Suprema Corte não está vinculada aos precedentes da mesma forma que os demais tribunais federais, o que lhe permite revisitar e até rever decisões anteriores quando entende que foram equivocadas. Por isso, a Corte avalia constantemente não apenas qual posição tem maior respaldo jurídico formal, mas também se essa posição é coerente, razoável e compatível com o conjunto de sua própria jurisprudência. Nesse contexto, a participação de amicus curiae desempenha um papel fundamental ao apresentar argumentos de política pública e dados empíricos que auxiliam os Justices a avaliarem se determinadas teses jurídicas fazem sentido na prática.

10.

Flávio Jardim, Rodrigo Becker, Gustavo Favero Vaughn, Mauro Pedroso: Você iniciou sua trajetória acadêmica na engenharia química antes de migrar para o Direito. Essa formação científica influenciou a sua maneira de pensar o Direito, a avaliar as provas ou mesmo as estratégias aplicadas na sua atuação como advogada?

Nicole A. Saharsky: A engenharia química é muito metódica e eu costumo aplicar essa mesma abordagem ao Direito. Procuro desenvolver meus argumentos jurídicos de forma gradual e estruturada, passo a passo, verificando se cada etapa é coerente e se não há lacunas no encadeamento lógico do raciocínio.

11.

Flávio Jardim, Rodrigo Becker, Gustavo Favero Vaughn, Mauro Pedroso: Por fim, para jovens advogados - especialmente mulheres - que sonham um dia ocupar o púlpito da Suprema Corte, que conselhos você daria para desenvolver tanto a competência técnica quanto a confiança necessárias para alcançar esse objetivo?

Nicole A. Saharsky: Acredito que toda oportunidade pode ser uma boa oportunidade, especialmente no início da carreira. Há muito a aprender, tanto no conteúdo do Direito quanto na forma de redigir boas petições e atuar com eficiência em sustentações orais. Por isso, é fundamental estar aberto a novas experiências e aproveitar ao máximo cada chance de aprendizado.

Colunistas

Flávio Jardim é desembargador Federal do trf da 1ª Região. Professor da graduação e da pós-graduação do IDP. Doctor of Juridical Science (S.J.D.), Fordham University School of Law, em Nova Iorque, EUA (2018). Mestre em Constituição e Cidadania, Instituto Brasileiro de Ensino, Desenvolvimento e Pesquisa – IDP, em Brasília (2012). Master of Laws (LL.M.) in American Law, Boston University School of Law, em Boston, EUA (2003). Bacharel em Direito, Centro Universitário de Brasília – UNICEUB, em Brasília (2001).

Gustavo Favero Vaughn é mestre em Direito Processual pela USP. LL.M. pela Columbia Law School, em Nova Iorque. Auditor do Superior Tribunal de Justiça Desportiva do Futebol. Relator da Terceira Turma do Tribunal de Ética e Disciplina da OAB/SP. Professor da pós-graduação do IDP. Advogado, sócio de Cesar Asfor Rocha Advogados.

Rodrigo Becker é doutor em Direito Processual pela UERJ. Mestre em Direito pela UnB. Advogado da União. Ex-procurador-Geral da União. Professor da graduação e da pós-graduação do IDP. Membro fundador da ABPC. Membro do IBDP. Líder do Grupo de Pesquisa "Scotus" sobre a Suprema Corte dos EUA, no IDP.

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