Porandubas Políticas

Porandubas nº 787

O Produto Nacional Bruto da Felicidade em nossas plagas crescerá nos próximos tempos ou perderá alguns pontinhos?

30/11/2022

Em terras paraibanas...

Abro a coluna com as águas termais do Brejo das Freiras...

Brejo das Freiras é uma Estância Termal nos confins da Paraíba, perto de Uiraúna, Souza e até da serra de Luis Gomes/RN, minha querida cidade natal. Trata-se de um lugar para relaxamento e repouso. O Governo da Paraíba tinha (não sei se ainda tem) um hotel, com uma infraestrutura para banhos nas águas quentes. Década de 70. Apolônio, o garçom, velho conhecido dos fregueses da região, recebe, um dia, um hóspede de outras plagas. Pessoa desconhecida. Lá pelas tantas, quase terminando a refeição, o senhor levanta a mão, chama Apolônio e pede:

– Meu caro, quero H2O.

Susto e surpresa. Anos e anos de serviços ali no restaurante e ninguém, até aquele momento, havia pedido aquilo. Que diabo seria H2O? Apolônio, solícito:

– Pois não, um instante!

Aflito, correu na direção da única pessoa que, no hotel, poderia adivinhar o pedido do hóspede. Tratava-se de Luiz Edilson Estrela, apelidado de Boréu (por causa dos olhos grandes de caboré), empedernido boêmio, acostumado aos salamaleques da vida.

– Boréu, tem um senhor ali pedindo H2O. O que é isso?

Desconfiado, pego sem jeito, Boréu coça o queixo, olha pro alto, tenta se lembrar de algo parecido com a fonética e, desanimado, avisa:

– Apolônio, sei não. Consulte o Freitas.

Freitas era o diretor do Grupo Escolar, o intelectual da região. Localizado, o professor tirou a dúvida no ato:

– H2O é água, seus imbecis. Quer dizer água.

Apressado, Apolônio socorreu o freguês, já inquieto com a demora, com uma jarra do líquido. Depois, no corredor, glosando o feito, gritou em direção a Boréu:

– Ah, ah, ah, esse sujeito achava que nós não sabia ingrês. Lascou-se!

Panorama

PNBF em alta ou em baixa?

O Produto Nacional Bruto da Felicidade em nossas plagas crescerá nos próximos tempos ou perderá alguns pontinhos? Primeiro, explico: o PNBF é a soma dos fatores que elevam o bem-estar físico e espiritual do povo. Essa gama de fatores abriga muita coisa – boa saúde, alimentação boa e barata, casa própria, transporte rápido e barato, dinheiro no bolso para pagar as despesas da família, segurança e harmonia social. Entre os inúmeros componentes da carga psicológica, a alegria e, em alguns casos, a catarse coletiva pela vitória do Brasil na Copa do Mundo. Se o Brasil ganhar a Copa, a felicidade nacional subirá.

Pois é...

Estamos animados com o ingresso garantido nas oitavas de final. Mesmo não sendo um time daqueles que admiramos, como o da Copa de 58 (Pelé) e o de 70. Os mais antigos se recordam daquele garoto de 17 anos, que viria se tornar o maior jogador de todos os tempos, Pelé. E aquele gênio de pernas tortas, que fazia dribles de causar estupefação. Pelé e Garrincha eram reservas de Joel e Dida e se tornaram titulares apenas no terceiro jogo do Brasil. Outros craques: Didi, Nilton Santos, Djalma Santos, Zito, Gilmar, Bellini, Vavá, Zagallo, Orlando. Depois da estreia em que bateu a Áustria por 3 a 0 e do empate por 0 a 0 com a Inglaterra, surgiram as vitórias consagradoras, 2 a 0 sobre a União Soviética, 1 a 0 sobre País de Gales, 5 a 2 sobre a França, e, na final, sobre a Suécia, na decisão, por 5 a 2, sendo 2 de Vavá, 2 de Pelé e 1 de Zagalo.

As alegrias em 1970

A seleção brasileira derrotou a Itália por 4 a 1, conquistando pela terceira vez a Copa do Mundo FIFA, em 1970. Os gols da partida foram marcados por Pelé, Gérson, Jairzinho e Carlos Alberto Torres. Boninsegna fez o gol de honra dos italianos no Estádio Azteca, na Cidade do México. Temos hoje aquela força de ontem? O que mudou no futebol? Deixo as respostas para os entendidos. Minha área é a política. Mas como todos os nativos se consideram técnicos, também dou os meus palpites. Sinto que não temos a genialidade dos times do passado. Até temos, sim, geniais jogadores, com qualidades individuais bem acima do entrosamento coletivo. Mas, como todos os crentes, continuo apostando que teremos uns pontinhos subindo na escala do PNBF.

E se não trouxermos a taça...

Nesse caso, o clima ficará mais frio. E experimentaremos o que se chama de "reversão de expectativas". Os bolsonaristas de raiz torcem pela derrota. A comunidade nacional, em peso, quer ver a bandeira verde amarela tremulando nas ruas e nos prédios. Se perdermos, o pessimismo tende a voltar em gotas, para muitos. Com a negatividade em ascensão, componentes da carga psicológica ressurgem com força, como desânimo, descrédito, desespero, angústia, tristeza, indignação. O ódio, destilado no congelador, volta a acirrar ânimos. Em suma, esses sinais tendem a afastar os grupos da política. E a condenar os governantes. O pessimismo, em início de mandato dos novos governantes, é pernicioso para a dinâmica institucional.

Lula III

O governo Lula III sinaliza vontade de querer abraçar a sociedade. Esse sinal se apresenta no número de integrantes do governo de transição, hoje somando mais de 400 figurantes. Se o acervo de ideias e sugestões forem acatadas, o Lula III implantará uma administração participativa, acolhendo o ideário dos polos do poder social e da vontade coletiva. Se o governo fizer disso apenas uma ação de marketing, será cobrado e recriminado mais adiante. A conferir.

O imbróglio

Haverá um conjunto de problemas de difícil trato pela frente. O principal deles estará amarrado à árvore da economia. Que galhos sustentarão a floresta? Qual será o tamanho do Estado? O programa de privatizações será travado? Qual será a parcela estatal a ser estendida e avolumada em detrimento da parcela liberal? O tal mercado está de olhos atentos. Fernando Haddad, caso seja o ministro da Fazenda (Economia), ampliará sua credibilidade no mercado? Escolherá uma equipe com visão no Estado intervencionista ou no Estado liberal? Haddad é pessoa de bom trato.

José Múcio

Se for o José Múcio, pernambucano que foi deputado por 20 anos, ex-ministro e ex-presidente do TCU, o escolhido para comandar o Ministério da Defesa, podemos aduzir que um clima de harmonia deverá voltar a reinar no universo das Forças Armadas. Múcio sabe fazer articulação, que é a componente que tanto ajuda os gestores. Articulação com a esfera política, articulação com as forças da sociedade civil, articulação com os poderes constitucionais, enfim, articulação com todos os movimentos, agrupamentos e setores da comunidade nacional.

A área social

O espaço mais visado pela política é o que mexe com as massas. O sucesso ou o insucesso de um governo nasce nas políticas com foco no bem-estar das margens situadas na base da pirâmide. Quem estiver no comando dessa área certamente ganhará visibilidade, projeção, aclamação ou, no contraponto, apupos e vaias. Quem irá para a coordenação dos programas de auxílio e ajuda? Simone Tebet tem o perfil adequado para exercer a função. Mas o PT não aceita ficar de fora desse espaço. Daí a disputa, que ganha contornos de duelo, luta esganiçada, pressão. Lula que o diga. Mas não vai dizer.

Bolsonaro e a vida partidária

Será muito difícil para Jair Bolsonaro comandar o exército da direita, no Brasil, a partir de sua inserção na vida partidária, sob o convite de Valdemar da Costa Neto para ser o líder do PL e dos partidos de oposição ao próximo governo. Bolsonaro terá salário, escritório, residência, estrutura e todo apoio para comandar as tropas que fustigarão o governo Lula III. Pergunto: sua índole intempestiva será aceita pelos componentes das tropas? E se ele der um "rompante" em algum aliado? Terá jogo de cintura para negociar, articular, orientar, enfim, liderar tropas? E o que fará a família Bolsonaro?

Dona Michelle

Já a senhora Michelle Bolsonaro verá horizontes abertos para uma inserção plena na vida partidária. Teve um bom desempenho como primeira-dama. Construiu uma identidade. Defensora da família e dos bons costumes. Uma pastora evangélica respeitada. Poderá, se quiser, fazer carreira na política. Teria ampla base de eleitores.

Janja

Quem deverá ajudar o marido, agindo como uma ombudswoman, é Rosângela Silva, a Janja, cujo perfil mereceu uma análise deste escriba em artigo para a Folha de São Paulo, publicado domingo, 27.

3º turno

As camadas tectônicas da política ainda não se acomodaram, depois do terremoto de outubro passado. Os movimentos contra a posse de Lula continuam, aqui e ali, sob os urros inconcebíveis de galeras insatisfeitas. Um terceiro turno ressurge. O xingamento contra uns e outros, artistas e círculos da mídia, continua. A perseguição às pessoas chega ao pico. A sociedade está rachada ao meio.

Fecho a coluna novamente com a Paraíba

Zeca I

Zeca Boca de Bacia fazia a alegria do povo em Campina Grande/PB. Personagem folclórico, amigo de políticos. Dava assessoria informal a Ronaldo Cunha Lima e a seu filho Cássio, prestes a ganhar o mandato de senador. Quando Zeca abria a boca, a galera caía na risada. Certa vez, numa de suas internações na clínica Santa Clara, em Campina Grande, a enfermeira foi logo perguntando:

– Zeca, qual o seu plano (de saúde)?

E ele:

– Ficar bom!

Outra vez, Zeca pegou um táxi em Brasília para ir à casa de Ronaldo Cunha Lima. Em frente à casa do poeta, o taxista cobrou R$ 15. Zeca só tinha R$ 10. Sem acordo, disparou:

– Então, amigo, dê cinco reais de ré!

Mais Zeca de Campina

Em João Pessoa, num restaurante chique, Zeca pediu um bode assado. O garçom retrucou:

– Desculpe-me, senhor, aqui só servimos frutos do mar.

Zeca emendou sem dar tempo:

– Então me traz uma água de coco.

_____


Um dia, outro taxista cobrou R$ 20. Zeca, liso, só tinha R$ 10. E pagou.

– Cadê o resto? – pergunta o taxista.

Zeca não hesita:

– E eu vim sozinho? Vamos rachar!

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Colunista

Gaudêncio Torquato jornalista, consultor de marketing institucional e político, consultor de comunicação organizacional, doutor, livre-docente e professor titular da Universidade de São Paulo e diretor-presidente da GT Marketing e Comunicação.