A busca por um concurso público é, para muitos brasileiros, uma chance real de transformar a própria vida. Em um país marcado por desigualdades, o concurso simboliza meritocracia, justiça e mobilidade social. É o caminho daqueles que acreditam que o esforço, a disciplina e o estudo podem superar qualquer obstáculo. Por isso, nada é mais angustiante do que ver esse projeto ser destruído na fase da investigação social, especialmente quando a eliminação se baseia em critérios que não dizem respeito ao caráter, mas sim a fatos administrativos da vida cotidiana.
Uma das razões mais comuns e injustas de eliminação tem sido o registro de infrações de trânsito, que algumas bancas insistem em interpretar como indício de desrespeito às leis, má conduta ou falta de idoneidade moral. Mas será que essa leitura é correta? Afinal, é legal excluir um candidato de concurso público por infrações de trânsito?
A resposta, com base na Constituição, na jurisprudência e na lógica administrativa, é categórica: não - infrações de trânsito, por si só, não podem justificar eliminação em concurso público.
Primeiro, é preciso compreender que infrações de trânsito constituem sanções administrativas, não penais. Não são crimes, não revelam desonestidade, não indicam corrupção ou desvio moral. Multas são comportamentos pontuais, muitas vezes involuntários ou decorrentes de fatores externos, que fazem parte da vida urbana moderna. O trânsito brasileiro, caótico e complexo, é ambiente que gera infrações até mesmo em pessoas extremamente prudentes.
O Direito Administrativo moderno exige que a investigação social seja guiada por pertinência, isto é, somente devem ser avaliados fatos que tenham relação direta com as atribuições do cargo. E aqui está o ponto-chave: cometer infrações de trânsito não compromete a capacidade de exercer funções públicas, sejam elas policiais, administrativas, fiscais, judiciárias ou legislativas.
A jurisprudência confirma esse entendimento. Os tribunais brasileiros têm sido firmes ao determinar que:
- infrações de trânsito não possuem natureza moral;
- multas não indicam risco à função pública;
- eliminação por infração leve ou média é inconstitucional;
- somente fatos graves e reiterados, diretamente ligados à função, poderiam ser analisados;
- a vida administrativa privada não define caráter;
- o candidato não pode ser punido duas vezes pelo mesmo fato.
Outro ponto essencial é que muitas infrações de trânsito são passíveis de recurso e podem ser anuladas. Eliminar alguém antes da conclusão do processo administrativo viola o devido processo legal e o direito de defesa, protegidos pela Constituição. Há casos, inclusive, em que o candidato é eliminado com base em infrações cometidas por terceiros que dirigiam seu veículo - situação que afronta o princípio fundamental da responsabilidade pessoal.
E mais: o concurso público exige “vida pregressa ilibada”, não “vida perfeita”. A Administração não pode transformar a exigência de moralidade em exigência de irrepreensibilidade absoluta, como se qualquer deslize administrativo transformasse o candidato em alguém indigno do cargo. A Constituição garante igualdade de oportunidades e rejeita qualquer forma de discriminação indireta.
A eliminação por infrações de trânsito, portanto, representa evidente desvio de finalidade. A finalidade da investigação social é detectar condutas que comprometam a confiança pública, não fiscalizar a vida administrativa privada do candidato. Quando a banca utiliza multas como critério de eliminação, ela transforma o concurso público em mecanismo de punição civil continuada - o que é juridicamente inadmissível.
É importante ressaltar que infrações de trânsito até podem ser analisadas dentro de um contexto mais amplo - por exemplo, múltiplas infrações gravíssimas que indiquem desprezo consciente e reiterado à legislação, especialmente quando o cargo exige habilitação profissional. Mas mesmo nesses casos, a eliminação deve ser individualizada, motivada, contextualizada e proporcional, nunca automática.
Eliminações baseadas em simples infrações leves ou médias, atrasos de licenciamento, multas de radar ou pontuações isoladas são inconstitucionais e configuram abuso de poder.
Se você foi eliminado de um concurso público por infrações de trânsito, saiba que essa decisão pode ser revertida. A Justiça brasileira tem protegido candidatos contra excessos da Administração e reconhecido que a vida cotidiana não apaga o mérito de anos de preparação. O concurso público deve ser instrumento de inclusão e justiça - e não uma barreira artificial imposta por critérios irrelevantes.