Às 18h, os sinos da Universidade tocam. Antes mesmo das salas de aula, a cidade ensina pelo ritmo. Coimbra não se explica; ela se vive. Vivemos o curso sob o inverno e, talvez por esse motivo, os silêncios também falavam. Em uma cidade moldada pelo saber, tornou-se evidente que os Direitos Humanos não se esgotam na normatividade: eles atravessam os sentidos.
Toda a experiência iniciou-se já em minha estadia. Estive hospedada em um espaço cujo próprio nome remete à sabedoria, o hotel “Sapientia”, onde todos os dias, após o toque do sino da histórica torre da universidade, começava a hora do vinho. Aos hóspedes, era oferecido um copo do vinho de marca registrada “Antonino Vidal”, professor da Universidade de Coimbra no século XIX. Instaurava-se uma pausa. Um gesto simples, quase ritualístico, em que pude perceber que a sabedoria também habita nos intervalos. Ali, a idade do vinho era o meu novo sabor.
Mas essa foi apenas uma das experiências vividas. Coimbra inteira conta histórias, esteja onde estiver hospedado. Em suas ladeiras carregadas de memórias, faziam-me sentir que toda a sabedoria escorria como o Rio Mondego, nas chuvas desta época do ano.
A Universidade de Coimbra é do “sentir”. Logo na primeira aula, ouvi de uma professora uma afirmação precisa: os Direitos Humanos são normas jurídicas e, em seguida, ouvi também que bastava “o ser humano ser humano”, uma afirmação que carrega o peso da tradição que sustenta esses direitos nos planos internacional e interno. Mas foi a própria vivência acadêmica que me ensinou que, embora nasçam como norma, os Direitos Humanos só se realizam plenamente quando se tornam experiência, pois o inato será sempre o fundamento mais genuíno e as discussões acadêmicas serviram como ponto de partida.
Observar com consciência tornou-se um exercício diário. Em meus registros pessoais, percebi que olhar para o outro é incomum, e essa constatação tornou-se o fio condutor de todo o trajeto de aprendizagem. A educação em Direitos Humanos, quando legítima, não se limita à mera transmissão de conteúdos; ela desloca, desconstrói e nos ensina a enxergar além de nós mesmos, e foi exatamente isso que aconteceu.
Essa experiência de deslocamento do olhar encontra fundamento no próprio núcleo da educação em Direitos Humanos: a dignidade da pessoa humana. Tanto no Brasil quanto em Portugal, ainda que inseridos em contextos históricos e sociais distintos, a dignidade afirma-se como valor estruturante do Estado Democrático de Direito, ou seja, na Constituição Federal brasileira e na Constituição Portuguesa que igualmente a consagra como eixo central do ordenamento jurídico.
O Brasil reafirma esse compromisso ao incorporar tratados internacionais de direitos humanos com status constitucional, ampliando a proteção da pessoa humana, reconhecendo a diversidade, a vulnerabilidade e a igualdade material como expressões concretas da dignidade. A educação em Direitos Humanos revela-se como prática transformadora, capaz de articular experiência, norma e responsabilidade ética.
As duas nações, separadas pelo Atlântico, mas unidas por uma mesma gramática dos direitos humanos, compartilham a compreensão de que a pessoa humana ocupa o centro do sistema jurídico, não como meio, mas como fim em si mesma. Nesse sentido, evoca-se o imperativo categórico de Kant, segundo o qual a pessoa humana não admite mensuração nem tem preço. Bem como, em outro plano, a experiência vivida em Coimbra, percebida de maneira profundamente pessoal, mostrou-se refratária à lógica da precificação, enquanto vivência formativa.
Procurei, em todos os lugares e sempre que possível, observar aqueles ao meu redor com atenção, pois, dessa forma, não apenas compreendemos a empatia compassiva, como também percebemos que olhar para o outro ainda é algo incomum; e, durante o curso, pude perceber que é justamente nesse olhar que reside o extraordinário.
Esses pequenos ritos dialogam diretamente com a noção de dignidade da pessoa humana. Os Direitos Humanos não se manifestam apenas em grandes declarações, mas na possibilidade de existir sem pressa e de ser reconhecido em sua singularidade. Ao longo da experiência, entendi que o mundo gira em torno da singularidade.
O problema do Direito é, em essência, o problema do mundo. Sua regra de ouro é simples e profunda: tratar o outro como gostaríamos de ser tratados. Por isso, o preconceito é sempre autoral, nasce de quem o cria, carrega sua assinatura e revela, em quem o sustenta, a feiura que produziu.
A educação afirma-se como eixo estruturante dos direitos humanos, capaz de formar cidadãos conscientes, estimular o pensamento crítico e fortalecer a democracia. É por meio dela que se previnem a violência e a exclusão, pois, quando a liberdade é aprisionada, é a própria personalidade que perde suas referências. Pensar por conta própria é exercer uma liberdade irrestrita e incondicional. Coerência é não desertar daquilo que se constrói de dentro para fora.
Atravessamos um oceano para aprender e voltaremos a atravessá-lo transformados, levando conosco tudo o que foi vivido e refletido. Foi uma experiência conduzida por docentes que ensinaram com rigor acadêmico, sensibilidade humana e compromisso com a formação crítica, fazendo de cada aula um espaço de reflexão duradoura. O curso se encerra, mas o aprendizado prossegue no exercício cotidiano dos direitos humanos; afinal, a intenção sobrepõe a literalidade. Tenho certeza de que cada colega retorna com suas próprias marcas, mas partilhamos uma transformação comum: aprendemos que o saber também se constrói no sentir.
Quando os sinos voltarem a tocar, já não estaremos mais ali. Ainda assim, o ritmo que Coimbra nos ensinou seguirá conosco, pois ao final da experiência, compreendemos que o sino das 18h não apenas anunciava a hora, mas organizava o tempo do aprender. Entre o sino e o silêncio, formou-se em nós uma experiência sensível dos direitos humanos, não apenas como saber acadêmico, mas como modo de estar no mundo, orientado pelo tempo justo da dignidade humana.