Em 9 de maio de 2026, o presidente paraguaio Santiago Peña fez um anúncio que poucos esperavam ouvir da América do Sul: o Paraguai e Taiwan vão construir, em investimento conjunto, "um dos maiores centros de inteligência artificial do mundo". A frase de Peña sintetiza a ambição de criar um hub global unindo a tecnologia taiwanesa com a abundante energia paraguaia. Não se trata de uma promessa vaga. O acordo, assinado em Taipei, inclui um memorando com fases concretas, orçamento bilateral e cronograma de execução. Trata-se do primeiro acordo governamental do mundo para a construção conjunta de infraestrutura de computação de inteligência artificial entre dois países soberanos. Para quem acompanha o ecossistema de negócios entre Brasil e Paraguai, esse evento não é apenas uma manchete. É um vetor de oportunidade estrutural que altera o cálculo de viabilidade para empresários brasileiros que operam ou pretendem operar no país vizinho. É exatamente por isso que proponho o conceito de "Maquila Tech" para descrever o que está nascendo.
A Maquila Tech representa a convergência entre três fenômenos simultâneos: a expansão do regime Maquila para empresas de tecnologia e serviços digitais (lei 7.547/25); a construção da infraestrutura soberana de computação de IA no Paraguai; e a janela de arbitragem tributária criada pela Reforma Tributária brasileira (LC 214/25), que eleva significativamente a carga sobre serviços digitais no Brasil.
Esses três vetores, de forma isolada, já seriam relevantes. Juntos, criam a possibilidade de uma empresa de tecnologia brasileira operar com tributação de aproximadamente 1%, utilizando energia entre as mais baratas do mundo e com acesso a uma infraestrutura de inteligência artificial de escala global - tudo dentro do Mercosul, a poucas horas de voo de São Paulo. Isso não é um simples "offshoring" ou "elisão fiscal", mas sim um reposicionamento estratégico em uma jurisdição que está se transformando em um polo tecnológico soberano.
O acordo central estabelece a criação de um Centro Soberano de Capacidade de Computação de Inteligência Artificial no Paraguai, iniciando com uma fase piloto de 10 MW e visando, a longo prazo, uma infraestrutura de escala global de até 1 GW, equivalente a 50 bilhões de dólares em investimentos. A equação que viabiliza esse projeto é clara: o Paraguai possui 9.000 MW de capacidade instalada de energia 100% renovável e utiliza apenas uma fração disso, enquanto Taiwan domina de forma absoluta o mercado global de semicondutores.
No contexto geopolítico, o Paraguai é o único país sul-americano que mantém relações diplomáticas formais com Taiwan. O acordo sinaliza a criação de sistemas livres de influência autoritária, conferindo às empresas que operam a partir do Paraguai um selo implícito de alinhamento com o bloco democrático. Para os empresários brasileiros, os impactos são concretos. A expansão do regime de Maquila permite a exportação de serviços digitais com tributação de cerca de 1% sobre o valor agregado e um sistema tributário territorial. Em contrapartida, a Reforma Tributária brasileira amplia a tributação sobre serviços digitais (como SaaS e cloud) para uma alíquota estimada em 28%. Toda transição regulatória cria uma janela durante a qual agentes informados capturam oportunidades. A atual transição brasileira, prevista entre 2026 e 2033, representa a maior janela de arbitragem fiscal da história recente do país.
Além disso, o Paraguai já está atraindo capital antes mesmo de o hub ser finalizado. O país liderou o crescimento econômico da América Latina em 2025 e oferece facilidades como o Investor Pass, que concede residência permanente direta a investidores.
A combinação de energia limpa abundante, regime tributário altamente competitivo e a iminente infraestrutura de IA cria um ecossistema sem paralelo na região. Para os empresários brasileiros que enfrentam o aumento da carga tributária e buscam eficiência operacional, a reflexão não deve ser mais "por que o Paraguai?", mas sim "por que ainda não?".