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Por que o Brasil precisa de usinas de reserva para evitar o colapso elétrico

A expansão das renováveis desafia a segurança do sistema elétrico. Sem reserva de potência suficiente, cresce o risco de apagões no país.

26/6/2026
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O SIN - Sistema Interligado Nacional vive um paradoxo técnico preocupante. Enquanto o Brasil celebra o avanço histórico da transição energética, ancorada na expansão das fontes solar e eólica, a infraestrutura de bastidores opera sob estresse agudo. Há anos, relatórios do ONS - Operador Nacional do Sistema Elétrico trazem alertas inequívocos: o país enfrenta um risco real e crescente de apagões sistêmicos de larga escala. Blecautes de menores proporções, em decorrência da atual situação, já ocorreram. O motivo principal para esse cenário não é a falta de energia, mas a escassez crítica de capacidade de reserva de potência para suportar os momentos de pico do consumo nacional.

Diariamente, entre 18h e 21h, ocorre o fenômeno técnico conhecido como rampa de carga. É o momento do dia em que a massiva geração solar do país desaparece com o pôr do sol, enquanto milhões de brasileiros retornam para suas casas e ligam chuveiros, aparelhos de ar-condicionado e eletrodomésticos. Para equilibrar essa balança e evitar o colapso físico da rede, o ONS enfrenta o desafio complexo de injetar, em menos de 120 minutos, entre 25 GW e 40 GW de potência firme - gerada por grandes hidrelétricas e termelétricas. Trata-se de uma operação de guerra repetida diariamente, com maior intensidade nos dias úteis.

A fragilidade desse arranjo não é teórica; ela foi testada e evidenciada em três episódios severos recentes, já divulgados pelo ONS e incorporados à literatura do setor elétrico brasileiro. Em agosto de 2023, um descasamento sistêmico e a baixa reserva de potência firme na região Nordeste provocaram a desconexão automática de milhares de megawatts após uma pane no Ceará.

Entre o fim de 2024 e o início de 2025, o PEN - Plano de Operação Energética emitiu alertas estruturais para 11 estados diante do calor extremo, obrigando o ONS a realizar cortes preventivos e a acionar térmicas caras fora da ordem de mérito - usinas que, em condições normais, não seriam acionadas, exceto por extrema necessidade.

Por fim, em outubro de 2025, um incêndio na Subestação de Bateias (PR) exigiu o acionamento emergencial do ERAC - Esquema Regional de Alívio de Carga, interrompendo 16 mil megawatts e afetando mais de 600 mil consumidores. A medida foi tomada para impedir um blackout generalizado que levaria o país à mais absoluta escuridão.

O Brasil já foi um país em que grandes hidrelétricas, com imensos reservatórios de água, eram construídas em diversas regiões. A última foi a Usina Hidrelétrica de Belo Monte, no Rio Xingu - um projeto de 11 mil MW de capacidade instalada e pouco mais de 4,5 mil MW de potência firme, o que significa um fator de capacidade de 40%. Essa limitação ocorre em razão das restrições da cota da barragem de Pimental e de Belo Monte, complexo que forma as reservas de água (o "combustível") que faz girar as turbinas. Hoje, é impensável a construção de projetos dessa natureza em rios da Amazônia. A resistência do movimento ambientalista inviabiliza tais obras, e nenhum governo tem força política para levá-las adiante. Logo, sem as grandes hidrelétricas na equação para ampliar a base do sistema elétrico - aquela energia que a tradição do setor chamava de "energia firme" -, não há outra alternativa imediata para garantir esse seguro de capacidade de reserva senão pela via das termelétricas.

Portanto, esses incidentes relatados pelo ONS reforçam que a estabilidade do SIN depende crucialmente da manutenção do Leilão de Reserva de Capacidade, realizado pela Aneel e pela CCEE. Contudo, reações contrárias e pressões jurídicas para anular o certame ameaçam paralisar o planejamento. A contestação jurídica desses leilões eleva o risco regulatório e afasta investimentos essenciais na expansão da infraestrutura básica.

O horizonte é de urgência máxima. As projeções oficiais indicam que, em 2028, a necessidade de mobilização instantânea no horário de pico saltará para 50 GW. Sabendo que uma usina termelétrica estruturada demanda ao menos dois anos de construção - sem computar eventuais entraves de licenciamento ambiental -, o tempo para garantir a segurança energética do fim da década esgotou-se. Sem usinas de reserva contratadas e prontas, o país caminhará para uma situação de altíssimo risco.

Autor

Daniel Santos Garroux Presidente do IBDEPS, advogado, tradutor e pesquisador. Possui doutorado em Teoria Literária pela Universidade de São Paulo, com estágio na universidade de Paris X - Nanterre. Traduziu diversas obras do idioma francês, com destaque para O Sobrinho de Rameau, de Denis Diderot, pela editora da Unesp. Atualmente, dedica-se ao Direito Econômico, com foco no Direito do Consumidor e no Direito Ambiental.

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