Migalhas de Peso

A saúde mental daqueles que intervêm nos litígios familiares

Os conflitos familiares estão entre as experiências humanas mais intensas e complexas.

3/7/2026
Publicidade
Expandir publicidade

Em artigo recente publicado na newsletter do IBDFAM, a psicóloga Claudia Pretti Vasconcellos Pellegrin aborda um tema de grande relevância: a saúde mental dos profissionais que atuam nos litígios familiares. No texto, ela destaca que advogados, psicólogos, assistentes sociais, magistrados e demais integrantes da rede de cuidado e justiça não são meros observadores neutros, mas profissionais diretamente afetados pelas complexas dinâmicas emocionais que permeiam os conflitos familiares.

Segundo ela, sob a perspectiva da psicanálise, o desafio ético está em resistir à pressão de ocupar lugares de julgamento ou de "detentores da verdade", sustentando uma escuta qualificada diante da dor, da transferência e dos impasses próprios do litígio. O texto conclui que a qualidade da atuação interdisciplinar depende não apenas do conhecimento técnico, mas também da supervisão, da formação contínua e do cuidado com a saúde mental dos profissionais, para que possam intervir de forma ética, respeitando a singularidade de cada família, a complexidade dos conflitos e o direito à diferença.

Tenho visto na minha experiência clínica e atuando como perita e assistente técnica forense em varas de família e criminais, que os conflitos familiares estão entre as experiências humanas mais intensas e complexas. Separações litigiosas, disputas pela guarda de filhos, acusações de violência, rompimentos afetivos e sucessivas perdas colocam em cena emoções profundas que desafiam não apenas as famílias envolvidas, mas também os profissionais responsáveis por escutar, avaliar, mediar e subsidiar decisões judiciais.

Psicólogos, assistentes sociais, advogados, magistrados e demais profissionais que atuam no sistema de Justiça vivem uma realidade bastante distinta daquela encontrada na clínica. Enquanto o paciente procura espontaneamente o atendimento psicológico porque deseja ajuda e está, em alguma medida, disposto ao tratamento, no contexto do litígio familiar as pessoas, em grande parte das vezes, estão ali por determinação judicial. Não buscam necessariamente compreender o conflito, mas defender suas posições, convencer a instituição de sua verdade ou responsabilizar o outro pelo sofrimento vivido.

Essa diferença muda completamente a dinâmica do trabalho. Na clínica, existe um desgaste que pode ser intenso pela empatia excessiva que se precisa ter, mas no judiciário, além disso, o profissional ainda precisa lidar com as questões relacionadas ao litígio. São horas seguidas ouvindo histórias de sofrimento, tentando compreender diferentes versões dos fatos sem perder a capacidade técnica de análise. Esse exercício contínuo mobiliza profundamente quem escuta e produz um desgaste emocional que nem sempre recebe a devida atenção.

Ao longo da jornada de trabalho, é natural que o profissional seja afetado pelas histórias que acompanha. Em muitos momentos, críticas das partes, frustrações com o andamento do processo ou ataques dirigidos à instituição acabam sendo direcionados também ao profissional. É preciso diferenciar o que efetivamente lhe cabe daquilo que é expressão da própria dinâmica do litígio.

Por essa razão, o cuidado com a saúde mental desses profissionais deve ser entendido como condição essencial para uma atuação ética e qualificada. Cuidar de quem cuida significa preservar a qualidade da escuta, da análise e das intervenções realizadas junto às famílias.

Nesse contexto, alguns pilares tornam-se indispensáveis. A psicoterapia ou análise pessoal oferece um espaço para elaborar os impactos emocionais da prática cotidiana. A supervisão técnica permite discutir casos difíceis, identificar pontos cegos e compartilhar responsabilidades, reduzindo o isolamento que frequentemente acompanha esse tipo de atuação. Igualmente importante é preservar espaços de lazer, convivência familiar, descanso e atividades que favoreçam o equilíbrio emocional fora do ambiente de trabalho.

Outro aspecto fundamental é a formação permanente. Os conflitos familiares acompanham as transformações da sociedade e apresentam desafios cada vez mais complexos. Atualizar conhecimentos em Psicologia, Direito, Serviço Social, Psicanálise e demais áreas que dialogam com o trabalho interdisciplinar amplia os recursos técnicos e fortalece a segurança profissional diante de casos delicados. Cuidar da saúde mental daqueles que intervêm nos litígios familiares não é um privilégio nem um benefício acessório. É uma necessidade ética. Somente profissionais que encontram espaços para elaborar suas próprias questões conseguem sustentar uma escuta verdadeiramente qualificada, mantendo a imparcialidade técnica sem abrir mão da sensibilidade humana.

Autor

Andreia Soares Calçada Psicóloga clínica e jurídica. Perita do TJ/RJ em varas de família e assistente técnica judicial em varas de família e criminais em todo o Brasil. Membro do IBDFAM e autora de livros e artigos na área.

Veja mais no portal
cadastre-se, comente, saiba mais

Artigos Mais Lidos