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De Erasmo a Huizinga: O jogo, a cultura e as origens do desporto

O texto explora a dimensão lúdica da experiência humana e mostra como o jogo participa da formação da cultura e dos valores do desporto.

4/11/2026
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1. Introdução

Há livros que permanecem durante anos nas nossas bibliotecas, aguardando o momento certo para serem lidos. Era o caso de Elogio da Loucura, de Erasmo de Rotterdam, e da biografia do humanista escrita pelo historiador neerlandês Johan Huizinga. Ambos repousavam nas minhas estantes, à espera de uma oportunidade que, curiosamente, surgiu durante uma recente viagem à Basileia, na Suíça.

A cidade impressionou-me pela sua extraordinária tradição intelectual. Há lugares que parecem conservar, nas ruas, nos edifícios e na própria atmosfera, a memória daqueles que por ali passaram. A Basileia é um desses lugares. Com uma atmosfera quase mística, a cidade acolheu, ao longo dos séculos, pensadores, humanistas e estudiosos que deixaram marcas profundas na cultura europeia. Entre eles, Erasmo de Rotterdam, que ali viveu parte da sua vida e onde faleceu, em 1536.

A visita despertou-me a curiosidade de conhecer melhor aquele personagem tão importante do humanismo renascentista. De regresso à minha biblioteca, retirei da estante os dois livros que há tanto tempo aguardavam leitura.

Foi assim que, ao percorrer as primeiras páginas de Elogio da Loucura, deparei-me com uma passagem aparentemente despretensiosa, mas que imediatamente chamou a minha atenção pela referência ao jogo.

A coincidência tornou-se ainda mais interessante quando recordei que o autor da biografia de Erasmo, publicada em 1924, escreveria, em 1938, Homo Ludens, uma das mais importantes obras sobre o significado do jogo na formação da cultura.

Estava estabelecida, assim, uma inesperada ligação entre uma experiência de viagem, duas leituras e uma reflexão sobre as origens culturais do desporto.

Na dedicatória de Elogio da Loucura ao seu amigo Thomas More, Erasmo procura justificar a escolha de um tema aparentemente pouco solene. Para tanto, recorda que autores consagrados da Antiguidade também se dedicaram a composições humorísticas, satíricas e até absurdas.

Depois de mencionar Séneca, Plutarco, Luciano e Apuleio, o humanista escreve:

“E, portanto, se os meus censores o quiserem, que imaginem que me quis distrair a jogar xadrez ou, se preferirem, a cavalgar infantilmente um cabo de vassoura”.1

A passagem encerra uma reflexão que ultrapassa o contexto da obra. Afinal, por que razão o divertimento, a brincadeira ou o jogo deveriam ser considerados atividades incompatíveis com a seriedade intelectual?

Erasmo não pretende formular uma teoria do desporto. Seu propósito é o de defender a legitimidade de uma criação literária que, recorrendo ao humor e à ironia, permite examinar criticamente os costumes, os vícios e as contradições da sociedade.

Entretanto, a referência ao jogo oferece uma oportunidade para refletir sobre a importância da dimensão lúdica na experiência humana.

A edição portuguesa consultada acrescenta, em nota de rodapé, uma informação histórica interessante. Os antigos romanos conheciam um jogo de tabuleiro denominado ludus latrunculorum, ou simplesmente latrunculi, frequentemente comparado ao xadrez e às damas.

Embora suas regras não sejam integralmente conhecidas, os testemunhos disponíveis permitem associá-lo à movimentação de peças, à estratégia e à competição entre jogadores. Trata-se de uma manifestação da presença de jogos organizados na vida social da Antiguidade.

A mesma nota remete às Sátiras de Horácio, evocando uma tradição literária que associa certas brincadeiras à infância, considerando-as inadequadas à maturidade.

Erasmo parece divertir-se justamente com essa oposição entre a seriedade dos adultos e a aparente frivolidade do jogo. Ao comparar sua atividade literária a uma distração, questiona a ideia de que o pensamento sério deva necessariamente apresentar-se de maneira solene.

É precisamente nesse ponto que a aproximação com Huizinga se torna particularmente sugestiva. O que em Erasmo aparece como recurso literário e expressão de liberdade intelectual encontrará, séculos depois, uma dimensão filosófica mais abrangente na compreensão do jogo como elemento constitutivo da cultura.           

2. O jogo como elemento da cultura

Em Homo Ludens, Huizinga desenvolve uma interpretação que ultrapassa a compreensão do jogo como simples passatempo.

O historiador sustenta que o jogo constitui um elemento fundamental da cultura, manifestando-se em diferentes formas de organização da vida humana. Sua análise alcança o direito, a guerra, a poesia, os rituais e as competições.

O jogo apresenta características próprias. Desenvolve-se dentro de limites de tempo e espaço, pressupõe regras e estabelece uma realidade temporária, distinta das ocupações habituais da existência.

Essa realidade, embora separada da vida quotidiana, não é necessariamente desprovida de seriedade. Pelo contrário, quem participa de um jogo pode fazê-lo com extraordinária concentração, disciplina e comprometimento.

Uma criança inteiramente envolvida numa brincadeira, um jogador de xadrez diante de uma posição decisiva ou um atleta que disputa uma final demonstra que o jogo pode exigir uma dedicação absoluta.

A seriedade, portanto, não constitui o oposto necessário do jogo.

Essa percepção permite estabelecer uma aproximação entre a ironia de Erasmo e a reflexão cultural de Huizinga, sem que seja necessário afirmar uma relação direta de influência entre as duas obras.

Erasmo utiliza o jogo como imagem de uma liberdade intelectual que desafia a solenidade. Huizinga, por sua vez, procura demonstrar que o fenómeno lúdico participa da própria formação da cultura.

A aproximação entre ambos foi objeto de investigação específica por Willem Otterspeer, em In Praise of Ambiguity: Erasmus, Huizinga and the Seriousness of Play, publicado em 2018.

O próprio título da obra revela a importância da questão, uma vez que a relação entre o jogo e a seriedade não deve ser compreendida como uma oposição absoluta.

Essa reflexão permite estabelecer outra aproximação particularmente sugestiva, desta vez com a ideia de utopia, sobretudo quando recordamos que Thomas More, destinatário da dedicatória de Elogio da Loucura, foi também o autor de Utopia, publicada em 1516.

Na obra Jogos Olímpicos sob o Signo da Utopia, Rui Proença Garcia e António Camilo Cunha recorrem à imagem da ilha como espaço de preservação de valores que resistem às imperfeições da sociedade2.

Como assinalam os autores, a utopia pressupõe um lugar protegido da degradação humana, capaz de conservar valores essenciais à existência. A reflexão remete à imagem da Ilha das Flores, evocada por Raul Brandão como uma paisagem imaculada.

O jogo e a utopia não se confundem, mas ambos permitem conceber uma realidade distinta da vida quotidiana. No universo desportivo, essa possibilidade manifesta-se na criação de um espaço próprio, disciplinado por regras e orientado por valores como a lealdade, o respeito e a igualdade de oportunidades.

Entretanto, esse espaço não pressupõe a ausência de conflitos ou de exigências. O jogo pode ser simultaneamente livre e disciplinado, recreativo e exigente, espontâneo e submetido a regras.

Essa aparente contradição constitui uma das suas características mais interessantes e permite compreender por que razão a liberdade de jogar não se confunde com a ausência de limites.

Clique aqui e confira o artigo na íntegra.

Autor

Mauricio de Figueiredo Corrêa da Veiga Sócio do escritório Corrêa da Veiga Advogados; doutorando em Ciências Jurídicas pela Universidade Autónoma de Lisboa (UAL); membro da Academia Brasiliense de Direito do Trabalho (ABRADT); membro do IAB.

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