A criminalidade mudou de patamar, deixou de ser local e passou a operar em escala interestadual e internacional, avaliou o ministro aposentado do Ministério da Justiça e Segurança Pública, Ricardo Lewandowski, em entrevista à TV Migalhas durante o II Congresso Ibero-brasileiro de Governança Global.
S.Exa. sustentou que o país precisa abandonar o enfrentamento tradicional e adotar uma estratégia integrada.
“Hoje, a criminalidade mudou radicalmente, do ponto de vista de sua natureza. A criminalidade não é mais local, mas ela é, em um país como o nosso, o Brasil, por exemplo, é interestadual e até global e internacional. Portanto, o tratamento hoje precisa ser totalmente diferente daquele tratamento, daquele enfrentamento tradicional.”
Ao explicar essa mudança, Lewandowski disse que crimes com alcance além do Estado pedem outro tipo de atuação.
“É claro que existem os crimes pequenos, os crimes de menor potencial ofensivo e merecem um tratamento local. Mas aqueles crimes que transcendem as fronteiras estaduais e aqueles que transcendem as fronteiras nacionais precisam ter um outro enfoque, evidentemente. Então, os crimes interestaduais precisam ter, necessariamente, uma conjugação de esforço de todas as unidades federadas, no Brasil, por exemplo.”
Nesse sentido, o ministro aposentado defendeu que a União coordene uma atuação conjunta e que o país fortaleça a cooperação internacional, com uma estratégia voltada a diferentes frentes, como fez durante sua gestão no ministério, quando reforçou o combate local, articulou as forças Federais, ampliou acordos com organismos internacionais e criou, em Manaus, um Centro de Cooperação Policial Internacional voltado à Amazônia Legal.
“Hoje é preciso ter uma visão holística, mais estrutural do enfrentamento à criminalidade, que já deixou de ser local, passou a ser transnacional e, portanto, é preciso uma outra visão totalmente distinta daquela que tradicionalmente nós tínhamos de combate à criminalidade.”
Assista:
Lewandowski também afirmou que o combate à criminalidade não se limita à força física e que exige, paralelamente, políticas de prevenção.
“É claro que o combate à criminalidade, não exige apenas a força física. Precisa mais. Precisa ter inversões de natureza social.”
Defendeu investimento social aliado à “repressão inteligente” com uso de tecnologia e mudança de mentalidade da sociedade.
“Nós precisamos de mais saúde, mais escola, mais educação, precisamos educar para a paz, precisamos tirar as crianças das ruas, os adolescentes para que não sejam recrutados pela criminalidade e, claro, precisamos ter uma repressão forte. Mas uma repressão inteligente também, o uso de mecanismos mais modernos, de instrumentos sofisticados, como a inteligência artificial, por exemplo. Então, há esperança, sim, mas é preciso uma mudança de mentalidade da própria sociedade.”
Por fim, ao citar o art. 144 da CF, Lewandowski sustentou que a segurança pública não se resume à atuação estatal.
“A segurança pública é dever do Estado, é direito e responsabilidade de todos. Portanto, não é só uma tarefa do Estado, mas todos, toda a sociedade precisa engajar no combate à criminalidade e aí teremos um país melhor.”
Confira:
O evento
Entre os dias 23 e 25 de fevereiro de 2026, a cidade de Salamanca recebe o II Congresso Ibero-brasileiro de Governança Global. Com o tema “Jurisdição e segurança jurídica”, o encontro reúne especialistas para debater os desafios contemporâneos da atuação jurisdicional e seus impactos na estabilidade institucional. O evento é promovido pelo IBDL – Instituto Brasileiro de Direito Legislativo, em parceria com a tradicional Universidade de Salamanca.