A PF abriu investigação para apurar a trend “caso ela diga não”, nas redes sociais, que reúne conteúdos de apologia à violência contra a vida e a integridade física de mulheres. O inquérito foi instaurado após pedido da AGU, que encaminhou notícia-crime à corporação no domingo, 8, Dia Internacional da Mulher.
Entenda
Os vídeos, publicados no TikTok e já retirados da plataforma, mostravam jovens simulando chutes, socos e facadas contra manequins que representavam mulheres. As postagens traziam ainda mensagens que associavam a violência a situações de rejeição afetiva, com frases como “Treinando caso ela diga não”.
O pedido de apuração foi apresentado pela Pndd - Procuradoria Nacional de Defesa da Democracia, vinculada à AGU. No documento, o órgão apontou ao menos quatro perfis responsáveis pela divulgação desse tipo de conteúdo.
Segundo a AGU, as publicações comprometem a atuação estatal voltada à promoção e proteção dos direitos das mulheres e enfraquecem a efetividade das políticas públicas de enfrentamento à violência de gênero e de promoção da igualdade material.
Assista:
Pedido citou risco coletivo às mulheres
A AGU afirmou que a medida integra o Pacto Brasil entre os três Poderes para enfrentamento do feminicídio, firmado em fevereiro de 2026, que prevê ações de combate à violência digital contra mulheres e meninas.
Segundo Raphael Ramos, procurador nacional da União de Defesa da Democracia, mesmo sem uma vítima individualizada, a circulação sistemática de conteúdo misógino nas plataformas representa ameaça concreta aos direitos fundamentais das mulheres e atinge toda a coletividade feminina. Ele também defendeu o aperfeiçoamento da governança das plataformas digitais, ao afirmar que, apesar de avanços recentes, as medidas adotadas até agora ainda são insuficientes.
Para o procurador, os vídeos podem configurar estímulo à prática de crimes previstos no Código Penal, como feminicídio, lesão corporal, intimidação sistemática, inclusive virtual, ameaça, perseguição, violência psicológica contra a mulher, além de incitação ao crime e apologia criminosa.
Nas redes sociais, a repercussão da trend também levou usuários a associar o conteúdo ao universo redpill, termo usado para designar comunidades online frequentemente ligadas à circulação de discursos misóginos.
O que é o movimento redpill?
O redpill é um conjunto de grupos virtuais, formados majoritariamente por homens, que afirmam ter “despertado” para uma suposta realidade sobre relações entre homens e mulheres. O termo vem do filme Matrix, em que tomar a “pílula vermelha” simboliza enxergar a verdade escondida. Em muitos desses espaços, circulam críticas ao feminismo e visões hostis às mulheres, sobretudo em discussões sobre relacionamentos, casamento e papéis de gênero.
Um exemplo citado nesse contexto foi o caso de Vitor Hugo Oliveira Simonin, investigado por estupro coletivo no Rio de Janeiro, que chamou atenção ao se apresentar à polícia usando uma camiseta com a frase “Regret nothing” (“Não se arrependa de nada”), mensagem que, nas redes, foi aproximada do discurso propagado em comunidades redpill, hoje personificado sobretudo na figura do influenciador britânico Andrew Tate.