A Justiça de São Paulo analisa uma disputa envolvendo o filme "Depois do Universo", lançado pela Netflix em 2022. Os autores do livro "Juilliard – A Arte do Amor", publicado em 2018, acusam a plataforma e o diretor Diego Freitas de terem reproduzido elementos centrais da obra literária.
Os escritores João Paulo de Carvalho Ribeiro e Lídia Bueno de Oliveira Ribeiro pedem o reconhecimento do plágio, além do pagamento de indenização por danos materiais e morais.
Em contestação, a Netflix e o cineasta negam a acusação. Sustentam que as semelhanças apontadas correspondem a temas recorrentes do gênero dramático sick-lit e afirmam que os autores teriam distorcido os enredos para aproximar as duas obras.
O que é sick-lit?Trata-se de subgênero da literatura contemporânea, geralmente associado à ficção juvenil (YA — Young Adult), em que doenças graves, crônicas ou terminais ocupam um papel central na narrativa. O termo vem do inglês: sick ("doente") + lit (abreviação de literature, "literatura"). Costuma designar histórias que combinam drama, romance e temas ligados à doença, à morte e ao luto, frequentemente acompanhando adolescentes ou jovens adultos.
Diego Freitas também apresentou reconvenção, na qual pede indenização por danos morais em razão de publicações feitas pelos escritores nas redes sociais. Segundo o diretor, ele foi acusado de plágio e chamado de "ladrão".
Entenda
Na petição inicial, os escritores afirmam que publicaram o livro em 2018 e que, ao assistirem ao longa lançado pela Netflix quatro anos depois, identificaram "a mesma essência, a mesma ideologia, o mesmo enredo", além de uma série de coincidências envolvendo personagens, estrutura narrativa e desenvolvimento da trama.
Eles sustentam a existência de indícios de plágio estrutural indireto e pedem o reconhecimento da violação de direitos autorais, com a consequente condenação dos réus ao pagamento de indenização.
Segundo os autores, ambas as obras retratam uma jovem pianista acometida por doença grave desde a infância, que se apaixona por um homem chamado Gabriel e desenvolve com ele um relacionamento em meio ao agravamento de seu quadro de saúde.
Na inicial, os escritores apresentam um extenso quadro comparativo, no qual apontam dezenas de supostas coincidências entre o livro e o filme, incluindo características dos personagens, acontecimentos da narrativa e elementos do desfecho.
Eles também citam entrevistas concedidas por Diego Freitas, nas quais o diretor afirmou pesquisar obras de outros autores durante seu processo criativo e declarou procurar "se apropriar de alguma forma" do que observa em outras mídias.
Para os escritores, as declarações reforçam a necessidade de uma perícia técnica capaz de verificar se houve aproveitamento indevido da estrutura narrativa da obra literária.
Defesas
Nas contestações, a Netflix e Diego Freitas sustentam que não houve plágio, sob o argumento de que o direito autoral protege a forma de expressão da obra, e não ideias ou temas gerais.
Segundo as defesas, elementos como uma pianista acometida por doença grave, o desenvolvimento de um romance em meio à enfermidade e a busca pela realização de um sonho são recursos narrativos amplamente explorados no gênero sick-lit.
Como exemplos, citam obras como "A Culpa é das Estrelas", "Um Amor para Recordar", "Como Eu Era Antes de Você" e "Outono em Nova York".
As contestações afirmam que os autores confundem ideias, que não são protegidas pela lei de direitos autorais, com a forma específica de expressão artística. Para os réus, a existência de temas semelhantes não basta para caracterizar plágio, sendo necessária a reprodução da expressão original da obra, o que, segundo sustentam, não ocorreu.
Outro argumento é o de que não há prova de que Diego Freitas ou qualquer integrante da produção tenha tido acesso prévio ao livro. As defesas afirmam que a mera disponibilidade da obra em plataformas digitais não permite presumir que ela tenha sido conhecida pelos responsáveis pelo filme.
Para rebater a acusação, os réus também comparam as duas narrativas e destacam diferenças que consideram centrais.
Segundo eles, "Juilliard – A Arte do Amor" acompanha uma adolescente com leucemia terminal que morre ao final da história. Já "Depois do Universo" retrata uma pianista adulta diagnosticada com lúpus, cuja trajetória culmina na realização de seu sonho profissional após receber um transplante.
As defesas também apontam diferenças entre os personagens, as doenças retratadas, os conflitos familiares e os desfechos.
As contestações sustentam, ainda, que recursos narrativos citados pelos autores, como o "piano imaginário", o sangramento nasal e a piora do quadro clínico da protagonista, já apareceram em outras produções e não podem ser apropriados com exclusividade.
Reconvenção
O diretor Diego Freitas, por sua vez, apresentou reconvenção contra os escritores.
Ele afirma que, desde 2023, é alvo de centenas de publicações feitas pelos autores nas redes sociais, nas quais teria sido acusado de plágio e chamado de "ladrão".
Segundo a defesa, as manifestações ultrapassam os limites da liberdade de expressão e atingem a honra e a reputação profissional do diretor.
Por isso, Diego pede a condenação dos escritores ao pagamento de indenização por danos morais, além da retirada das publicações consideradas ofensivas.
A banca BMA Advogados atua pelo diretor de cinema.
- Processo: 4002351-91.2025.8.26.0068