Quando o Mundie Advogados abriu as portas, há 30 anos, o Brasil atravessava uma profunda transformação econômica. O Plano Real havia estabilizado a moeda, a abertura de mercado avançava e o programa de privatizações começava a redesenhar setores inteiros da economia.
Foi nesse ambiente que Eduardo M. Zobaran, Rodolpho Protásio e o Kevin Mundie fundaram o escritório em 1996.
Três décadas depois, os sócios apontam justamente para a combinação entre experiência acumulada e proximidade com os clientes como um dos elementos que explicam a longevidade da banca. Segundo Eduardo Zobaran, hoje decano do escritório, a estrutura do Mundie se diferencia da tradicional pirâmide dos grandes escritórios. Ele prefere descrevê-la como um "cilindro": menos camadas hierárquicas e participação direta dos sócios nos trabalhos e no relacionamento com os clientes.
A origem dessa cultura remonta ao próprio Kevin Mundie, americano de nascimento e brasileiro de coração. Formado em Harvard, tinha uma compreensão muito boa dos problemas nacionais e conhecia o modo de atuar dos estrangeiros. Essa dedicação e devotamento seduziu todos os clientes até seu falecimento. De acordo com Zobaran, além do conhecimento do Direito brasileiro e da capacidade de compreender as necessidades de estrangeiros, Kevin deixou como legado uma cultura de dedicação ao cliente e rigor ético.
Mas a vocação vocação internacional estava presente também nos outros dois fundadores. Além de Kevin Mundie, Rodolpho Protasio havia estudado nos Estados Unidos, enquanto Zobaran fez mestrado na Alemanha. Essa experiência coincidiu com um período no qual investidores estrangeiros passaram a olhar com maior atenção para o mercado brasileiro.
Um dos marcos dessa trajetória foi a participação nas privatizações da década de 1990, sobretudo nos setores de telecomunicações e energia.
Essa última, se mistura à trajetória do sócio Rafael F. D'Avila, que chegou em 1997, ainda como estagiário e estudante do terceiro ano de Direito, atraído justamente pelas transformações que acompanhava nos jornais.
"Era um novo mundo. Era realmente uma transformação do Brasil", recordou. "Eu olhava para aquilo e falava: é com isso que eu quero trabalhar."
D'Avila ingressou em um momento em que os profissionais ainda transitavam por diferentes áreas e acabou se aproximando do setor elétrico. Entre os projetos daquele período esteve a privatização da Eletrosul.
Para D'Avila, hoje responsável pela área de energia, a oportunidade de acompanhar aquele momento foi determinante para sua própria formação profissional.
"Ter vivido tudo isso é muito bacana", afirmou, ao recordar a passagem de uma economia fortemente estatal para um ambiente de mercado e a oportunidade de trabalhar, desde cedo, com grandes agentes do setor.
A participação em grandes projetos de infraestrutura ajudou a ampliar a atuação do Mundie Advogados para além das próprias licitações. Antes dos certames, o trabalho envolvia estruturação societária, formação de empresas e joint ventures; depois deles, surgiam demandas regulatórias, contratuais e societárias relacionadas às novas operações.
Essa dinâmica contribuiu para a formação de uma carteira marcada por relacionamentos de longo prazo. Zobaran ressalta que, embora o escritório receba novos clientes, mantém vínculos profissionais que atravessam décadas.
Mas se energia e telecomunicações ajudam a contar os primeiros capítulos da história da banca, a evolução da área trabalhista mostra como ela buscou acompanhar as novas questões enfrentadas pelas empresas.
Nadia Demoliner Lacerda chegou ao Mundie Adviagdos há 14 anos, inicialmente como advogada, e tornou-se sócia no ano seguinte. Vinda de uma banca especializada em Direito do Trabalho, encontrou no novo escritório operações de grande porte e clientes de setores que haviam passado pelos processos de privatização. Parte de sua atuação inicial envolveu justamente consequências trabalhistas dessas transformações, como harmonização de benefícios e grandes demandas coletivas.
Com o tempo, a prática passou a incorporar temas como expatriados, proteção de dados, terceirização, pejotização e igualdade salarial. Hoje, segundo Nadia, a área conta com duas sócias e combina consultivo e contencioso estratégico, incluindo ações civis públicas, questões sindicais e procedimentos administrativos.
"São ações que a gente efetivamente faz muita diferença na vida da empresa, porque são ações normalmente milionárias e envolvendo questões que vão desde gestão de empregados afastados, implementação de regras e benefícios", afirmou. Entre os exemplos estão litígios envolvendo expatriados, questões coletivas, ações propostas pelo Ministério Público do Trabalho e discussões relacionadas a condições de trabalho e benefícios.
A atuação também ultrapassa os processos judiciais. Nadia participa de fóruns dedicados à discussão de mudanças legislativas e regulatórias, entre eles o Conselho de Apoio Legislativo de RH e o Conselho Superior de Relações do Trabalho da Fiesp. Nessas instâncias, acompanha assuntos como jornada 6x1, NR-1 e riscos psicossociais no ambiente de trabalho.
Ao projetar os próximos anos, uma transformação já está em curso dentro do escritório: a inteligência artificial.
O uso, contudo, vem acompanhado de cautelas, especialmente quanto à anonimização de informações e à necessidade de revisão humana.
Zobaran defende que, pelo menos no estágio atual da tecnologia, o raciocínio inicial continue sendo produzido pelo profissional. Depois disso, a IA pode funcionar como instrumento de diálogo, revisão e aprimoramento. "A gente tem que ser mais inteligente do que ela", resumiu.
Para D'Avilla, deixar de utilizar uma ferramenta disponível e capaz de melhorar o trabalho pode ser um erro. A diferença está na finalidade: em vez de substituir o raciocínio, a tecnologia pode atuar como uma espécie de "advogado do diabo", apontando inconsistências, brechas e argumentos que mereçam nova análise.
Se há 30 anos o Mundie nasceu em meio à abertura de mercados e às privatizações, agora se prepara para uma nova reorganização da profissão.
O futuro projetado pelo escritório continua baseado na participação direta de profissionais experientes, na transmissão de conhecimento entre gerações e em uma advocacia personalizada — características que, segundo Zobaran, atravessaram os primeiros 30 anos da banca e devem orientar os próximos.