A morte de Arnaldo Malheiros, aos 98 anos, nesta quinta-feira, 3, deixa uma lacuna na advocacia e, em especial, no Direito Eleitoral, área em que se tornou referência.
Em homenagem, Francisco Octavio de Almeida Prado Filho enviou ao Migalhas uma carta escrita por seu pai, Francisco Octavio de Almeida Prado, em 1994, quando chegava ao fim uma sociedade profissional de 16 anos com Arnaldo.
O texto recupera o início da parceria, em 1978, quando Francisco Octavio procurou Malheiros para auxiliá-lo em uma questão eleitoral. Embora ainda tivessem pouco contato, ele já conhecia a reputação do colega como "um dos maiores conhecedores do Direito Eleitoral".
A relação profissional logo se transformou em uma amizade que atravessaria os anos. Na carta, Francisco Octavio recorda o caráter, a grandeza de espírito, o equilíbrio, a lucidez e o bom humor de Arnaldo, a quem atribui a construção de um ambiente de "harmonia, de serenidade e de confiança" no escritório.
Mais do que um balanço dos anos de sociedade, a mensagem registra a dimensão pessoal daquela convivência. Ao encerrar a parceria, Francisco Octavio fez questão de afastar qualquer tom de despedida e celebrar a "inalterável amizade edificada ao longo dos últimos dezesseis anos".
Francisco Octavio morreu em 2003. Mais de três décadas depois de escrita, a carta é agora compartilhada pelo filho como homenagem a Arnaldo Malheiros.
Leia a íntegra:
São Paulo, 28 de dezembro de 1994
Meu caro Arnaldo,
Ao ensejo de seu desligamento do escritório, ao cabo de dezesseis anos de convívio profissional, sinto-me compelido a fazer um retrospecto desse período que foi para mim extremamente gratificante.
Tudo teve início com um telefonema que lhe dei, pedindo socorro para enfrentar uma questão que me surgira, meio que por encanto, e para a qual faltava-me o fôlego necessário – a defesa da candidatura do Dr. Paulo Maluf.
Conhecendo-o, então, pouco mais que de apresentação e de rápidos contatos no TRE, já lhe conhecia, no entanto, a reputação de um dos maiores conhecedores do Direito Eleitoral, inclusive pelas referências, sempre elogiosas, do Tito Costa com quem, por longos anos, partilhei intensa e fecunda convivência profissional.
Obtendo a receptividade procurada, passei a frequentar o escritório que você mantinha em casa, quando tive a satisfação de conhecer a Magaly, ainda sem supor que daqueles primeiros contatos nasceria uma grande e duradoura amizade – que esta, graças a Deus, há de persistir.
Não foi preciso muito tempo de convivência para perceber que eu estava diante de uma pessoa diferente, marcada por traços de caráter verdadeiramente raros, mercê de uma grandeza de espírito que transbordava espontânea nos mais corriqueiros gestos do dia a dia. E tudo isso presidido por um onipresente senso de humor, capaz de amenizar a aridez da rotina e de enfunar as velas com que navegar no acervo de aporrinhações que a vida nos reserva, notadamente numa profissão que, conquanto bela e apaixonante, não deixa de apresentar sua face obscura, marcada por misérias e futricas.
Você, contudo, sempre representou o lado nobre, não só da conduta profissional, como das regras de convivência, daí emergindo o clima de harmonia, de serenidade e de confiança sempre reinante no ambiente de trabalho, desde os tempos da Rua Senador Paulo Egídio, persistindo na segunda fase, iniciada com a mudança para a Avenida Rebouças.
Nessa segunda fase tivemos a satisfação de acolher novos colegas que muito contribuíram – cada um a seu modo – para consolidar um ambiente cordial e fraterno. É onde surge a figura ímpar do Antonio Carlos, que hoje, embora tragado pela Magistratura, aqui deixou uma raiz profunda que há de prendê-lo ao nosso convívio pela vida afora. Com ele veio o Augusto Faria, de esfuziante bom humor, que aqui deixou gratas recordações quando tomou seus próprios rumos.
À passagem meteórica do João Maria, seguiu-se a vinda do nosso amigo Joel que do alto de seus impecáveis bigodes tanto colaborou nas questões eleitorais, sempre leal e solidário.
Por fim, juntou-se a nós esse moço extraordinário, que é o Ricardo, grande colaborador e amigo cujo nome passa a integrar, para muita satisfação e orgulho, a denominação do escritório.
Aqui deram seus primeiros passos profissionais, ainda como estagiários, as Cláudias, respectivamente Junqueira e Skitminsky, bem como a nossa querida Vera Bava. Também elas, tomaram seus próprios caminhos, mantendo, embora, sólidos vínculos de amizade.
Ao tempo em que travamos relacionamento profissional, dois guris urinavam nas calças respectivas. Chamavam-se – e ainda se chamam – Carlos Eduardo e Marcelo. Já não o fazem, ao menos ao que consta. São nossos atuais estagiários, o primeiro já grande advogado, revelando um talento incrível. O segundo começando a se equilibrar na corda bamba. Ambos, ao que parece, sentem-se felizes com o ambiente de trabalho que traz a sua marca pessoal que buscaremos preservar com o maior carinho – e para o nosso próprio bem.
Feito esse breve retrospecto, é chegado o momento de testemunhar o quanto foi – e continua sendo – importante para mim o seu convívio, não só no plano profissional como nas mais importantes dimensões da vida para as quais, frequentes vezes, você me despertou com seu exemplo de equilíbrio e lucidez que tanto tem beneficiado os seus – muitos – amigos e que constitui o legado mais precioso que você deixará a seus filhos, dos quais, sem exceção, tive a ventura de me tornar amigo.
Se por um lado a sua decisão hoje concretizada me compeliu a dedicar-lhe estas palavras, marcadas pela sinceridade de quem lhe é profundamente grato, por outro, preocupo-me em dissipar qualquer compreensão de que elas possam sugerir um tom de despedida.
É que, sem prejuízo da continuidade de eventuais parcerias profissionais futuras, o mais importante é a sobrevivência da inalterável amizade edificada ao longo dos últimos dezesseis anos.
E como quem muito escreve acaba ficando piegas, encerro aqui como o caipira quando sai da festa: “descurpa qualquer coisa”.
Um abraço fraternal do amigo de sempre,
Chico