A Academia Paulista de Letras iniciou, nesta quinta-feira, 10/9, as comemorações pelo centenário de nascimento de Paulo Bomfim. Durante a cerimônia, a imortal Maria Adelaide Amaral prestou homenagem e deu seu testemunho sobre o amigo, enquanto as acadêmicas Mariana Ianelli e Bruna Lombardi declamaram poemas e leram textos do "Príncipe dos Poetas".
A mesa de abertura foi composta pelo presidente da APL, Antonio Penteado Mendonça; pelo presidente do TRE/SP, desembargador José Antonio Encinas Manfré; e pelo desembargador Alexandre Alves Lazzarini, do TJ/SP.
Em suas manifestações, eles relembraram a importância do imortal para a cultura paulista, sua profunda ligação com São Paulo e o legado deixado pelo poeta, inclusive em sua relação com o Tribunal de Justiça paulista.
Ao longo do mês de setembro, uma série de atividades celebrará a vida e a obra do escritor, jornalista, cronista e poeta que nasceu em 30 setembro de 2026 e morreu em 2019.
Funcionário do TJ/SP por décadas, exerceu diferentes funções e tornou-se uma figura querida da instituição, que inaugurou, em 2009, o Espaço Cultural Poeta Paulo Bomfim, único espaço do Tribunal batizado em homenagem a alguém ainda em vida. É autor do hino do TJ/SP, da EPM e da Apamagis, e também atuou na comunicação e na cultura.
Em seu testemunho, Maria Adelaide Amaral destacou a relação de Paulo Bomfim com a poesia, a arte, os amigos e a memória de São Paulo, registrada ao longo de mais de 30 livros. Ressaltou ainda sua capacidade de transformar experiências, alegrias e adversidades em poesia, sempre marcada pela celebração da vida. Recordou também sua dimensão humana, descrevendo-o como gentil, atento e profundamente afetuoso. Para ela, Paulo Bomfim tinha o dom de despertar o melhor nas pessoas e fez da amizade uma de suas grandes artes. Ao concluir, convidou o público a mergulhar em sua obra para conhecer verdadeiramente aquele que fez da própria vida matéria poética.
Confira a programação prevista:
Noite Poética
Data: 16/9
Horário: 19h
Endereço: Sesc Consolação, Teatro Anchieta | Rua Dr. Vila Nova, 245
Apresentação no Museu TJ/SP
Data: 24/9
Horário: 12h
Endereço: Palacete Conde de Sarzedas | Rua Conde de Sarzedas, 100
Missa - Capela Santa Luzia e Menino Jesus
Data: 30/9
Horário: 17h
Endereço: Rua Tabatinguera, 104
Inauguração da estátua, Exposição Poeta Paulo Bomfim e Sarau - TJ/SP
Data: 30/9
Horário: 18h
Endereço: Praça da Sé, s/n,
Confira a íntegra da homenagem prestada por Maria Adelaide Amaral.
Paulo Bomfim
Ele nasceu a 30 de setembro de 1926, quatro anos após a Semana de 22, nesta Insólita Metrópole, como tão bem definiu: cidade feita de cidades, ruas falando dialetos e homens com urgência de viver.
Na Biblioteca Infantil de Vila Buarque, ele começou a voar.
Nos saraus em casa dos avós maternos, conheceu Villa-Lobos, Mário de Andrade e o poeta Guilherme de Almeida, o mesmo que em 1947 faria o prefácio de seu primeiro livro de poesia, Antônio Triste, ilustrado por Tarsila do Amaral.
Foi fundamentalmente um paulista e um poeta.
Andou de bicicleta na Praça da República, aos domingos ia com os pais, ao Jardim da Luz. Frequentou todos os cinemas do Centro e de Santa Cecília.
Remou no Tietê, quando suas águas eram limpas, e no Esporte Clube Germânia, atual Clube Pinheiros, quando era atravessado pelo rio do mesmo nome. Nadou nos clubes da Ponte Grande e, na piscina do Paulistano, até morrer. Flertou nos bailes de Madame Poças Leitão, no antigo Trianon, que deu lugar ao Masp em 68.
Namorou muito. Apaixonou-se muito. Amou o eterno e transitório feminino, no que ele tinha de belo, misterioso, charmoso e inteligente. Amou a poesia, arte, o cinema, a música.
Amou os amigos e a cidade, incondicionalmente.
Viveu o tempo da urbe amena e de suas vertiginosas mudanças.
Viveu o Centro quando ainda palpitava no Triângulo das ruas 15 de Novembro. Direita e São Bento. Viu a importância do Centro atravessar o novo viaduto do Chá e se deslocar para o outro lado do vale do Anhangabaú. E, no retângulo formado pelas ruas Xavier de Toledo, 7 de abril, 24 de maio e Praça da República, ele viveu os anos fervilhantes da vida cultural de São Paulo nas décadas de 1940, 50 e 60: viu elegância da rua Barão de Itapetininga, frequentou a Confeitaria Vienense, no primeiro andar do Edifício Paz, onde um velho pianista e um trio de cordas tocavam valsas, que chegavam longínquas ao escritório de Guilherme de Almeida, no segundo andar.
Na rua Marconi, a Livraria Jaraguá, fundada por Alfredo Mesquita, era ponto de encontro da literatura da cidade. De velhos modernistas como Oswald de Andrade, à nova geração de intelectuais, os talentosos rapazes da revista Clima: Antonio Candido, Rui Coelho, Paulo Emílio Salles Gomes, Lourival Gomes Machado, aos quais Oswald chamava de chatoboys.
No edifício dos Diários Associados da rua 7 de Abril, ia à Redação de O Diário de São Paulo entregar sua crônica. Depois visitava o jovem Museu de Arte de São Paulo, a menina dos olhos de Assis Chateaubriand. Em seguida, ele entrava no recém-nascido Museu de Arte Moderna, onde Yolanda Penteado e Ciccillo Matarazzo sonhavam a Bienal.
No Clubinho dos Artistas, encontrava Clovis Graciano, Di Cavalcanti, Victor Brecheret e Lasar Segall, enquanto Menotti Del Picchia, muito concentrado, jogara xadrez com José Geraldo Vieira.
Esse menino que cresceu por distração amava tanto a liberdade que gostaria de ter filhos com ela, escreveu infinitas crônicas celebrando a cidade em todas as suas idades, esplendores e misérias. Resgatou a história de antiquíssimos e recentes ancestrais. Honrou a ascendência mameluca e alemã.
Resgatou memória de São Paulo e transformou sua história em saga e poesia. Pois para ele, tudo era matéria poética e o poeta se impunha em tudo que escrevia. Sua nostalgia não era um fado tristonho, mas celebração da vida. A memória é pura emoção nesse menino-homem que procurou renascer todos os dias e se definia como rebelde de paletó e gravata, e assim era onde quer que estivesse: no rigor formal das autarquias, nas reuniões da academia, apresentando notícias na época da tv ao vivo, entre seus pares e colegas, entre os amigos, infinitos e variados amigos que fez ao longo de sua vida.
Cavaleiro do tempo e eterno cavalheiro Paulo Bomfim - o homem que em sua profunda humanidade amava humanamente todos os seres. Não havia abstração em seu querer. O próximo era seu próximo e seu semelhante também.
"Só amando nos renovamos", ele dizia.
E sempre o olhar de quem foi muito amado e seguirá amando e se encantando pelo resto da vida. Mesmo diante da dor, da injustiça e da adversidade, não caiu na cilada da amargura, nem perdeu a paixão por existir. "Procuro renascer todos os dias", ele escreveu. E renascia transfigurando as experiências, boas ou não, em poemas, crônicas, sonetos, poesia em prosa, em sonoridades com rima e sem rima, reflexões eivadas de humor sutil, às vezes ferino, porque ninguém é de ferro. Nem Paulo Bomfim, que não aspirava a santidade, graças a Deus!
"O êxtase é a única linguagem comum a todo o infinito. É o alimento do efêmero e do eterno". É pelo amor que o humano se torna divino e vice-versa, dizia o poeta que gostava de habitar as pessoas, falar dialetos de ternura, acreditava na alquimia dos encontros e que a eternidade era uma questão de garra ou de Graça, com G maiúsculo.
"Tão bom poeta quanto prosador, além de perfeito na mais difícil das artes, que é a de ser amigo", escreveu Paulo Nathanael. Em cada um desses caminhos, colocou sempre a própria vida. Paulo Bomfim encantava a todos com a magia de seus falares e o calor que emanava de sua culta e serena presença. Nele, porém, a cultura era um dom natural. Ele não a exibia nem a fazia valer. Era parte intrínseca de seu ser. Como bem sabem todos os que tiveram o privilégio de conviver com ele.
Ser de luz perene, disse Ricardo Viveiros, ele era a encarnação da gentileza, da escuta atenta, da solidariedade e delicadeza. Relembrando a terna amizade que ele teve com Lygia Fagundes Telles, Anna Maria Martins e Adriana Florence, lembro que a seu lado me sentia mais interessante e inteligente.
Mas a verdade é que a seu lado, toda a gente se sentia bem, porque ele demovia inseguranças e mobilizava nas pessoas o que elas tinham de melhor.
Esse é meu testemunho, o testemunho de alguns amigos e estou certa de que é insuficiente.
Para desvendar Paulo Bomfim, mergulhem em sua obra. São mais de trinta livros publicados, em sua maior parte de poesia. E como não ser, se ele era poeta em tudo que fazia?
"Em meus passos caminham/ a alegria de minha mãe/ e a solidão de meu pai", ele diz em Diário do Anoitecer, onde também há uma espécie de testamento: "Legarei minha emoção aos indiferentes/ o riso aos lábios moços que murcharam, / a lágrima aos incapazes de sofrer/ a rebeldia aos acomodados, / calor aos corações polares/ e esta paixão ao desamor do mundo."
Leiam seus sonetos, reunidos em livros como “Os Sonetos do Caminho” e “O Livro dos Sonetos”. Como bem disse Gilberto de Mello Kujawski, o soneto de Paulo Bomfim é nuvem, pássaro, ciranda, carrossel, relógio de sol, ampulheta, paisagem marinha, sino, mandala, barco, destino.