No imaginário, Justiça é deusa; nas Cortes, mulheres são minoria
Representada como figura feminina na mitologia e nas artes, a Justiça contrasta com a baixa presença de mulheres nas Cortes superiores brasileiras.
Da Redação
sexta-feira, 6 de março de 2026
Atualizado em 5 de março de 2026 17:04
Além de habitar leis e processos, a Justiça também se faz imagem - feminina nas representações imaginárias, mas nem sempre nos tribunais reais.
Desde a Antiguidade, a figura da Justiça foi pensada como mulher. Na mitologia grega, ganhou forma em Têmis, deusa da ordem e da lei. Na tradição romana, reapareceu como Iustitia. Já no Egito antigo, era representada por Ma'at, divindade associada à verdade, ao equilíbrio e à ordem universal.
Não é por acaso que, nas línguas latinas, a própria palavra Justiça permaneça feminina.
A tradição imaginou o Direito como uma mulher.
Na mitologia...
Ao estudar as origens culturais dessas representações, a mestre em Direito Marita Beatriz Konzen observa que diversas civilizações antigas associavam os princípios de ordem, criação e equilíbrio às divindades femininas.
Segundo a autora, a veneração dessas deusas estava ligada à tentativa de compreender os mistérios da natureza e da existência humana, especialmente a capacidade feminina de gerar a vida e garantir a continuidade da comunidade.
Em artigo científico, Thais Helena Soares Porto, Denise Tatiane Girardon dos Santos, Vanessa Steigleder Neubauer e Fernanda Gausmann Vasconcellos observam que os mitos desempenham papel fundamental na formação das culturas e das instituições, funcionando como narrativas que refletem as inquietações humanas e ajudam a estruturar conceitos fundamentais da vida social, entre eles o próprio ideal de justiça.
Na mitologia grega, Têmis era considerada a guardiã da ordem e da consciência coletiva. Associada à ideia de lei divina e equilíbrio social, ela era invocada nos julgamentos e representava o ajuste das divergências para restaurar a harmonia da comunidade. Como conselheira de Zeus, sua função simbólica consistia em temperar o poder com prudência e justiça.
A iconografia da deusa consolidou símbolos que permanecem presentes até hoje na cultura jurídica: a balança, que representa o equilíbrio e a ponderação das decisões; a espada, que simboliza a autoridade da lei e sua capacidade de impor a ordem; e a venda, associada à ideia de imparcialidade no julgamento.
Mas a associação entre justiça e figuras femininas não se limita à tradição greco-romana.
Na mitologia egípcia, por exemplo, a deusa Ma'at representava a ordem universal, a verdade e o equilíbrio cósmico.
Segundo a tradição religiosa do Egito antigo, cabia a ela presidir o julgamento das almas no além-vida: o coração do falecido era pesado em uma balança e comparado com a pluma de Ma'at, símbolo da verdade e da justiça. Se o coração fosse leve o suficiente, o indivíduo poderia alcançar a vida eterna.
A comparação entre Têmis e Ma'at revela uma convergência simbólica importante: em diferentes civilizações, a ideia de justiça foi representada como uma força feminina responsável por equilibrar o mundo e ordenar as relações humanas.
...nas artes...
Como já apresentado nas reportagens do quadro "Moldura Jurídica", no início do século XIV, em Pádua, Giotto di Bondone pintou na Capella degli Scrovegni um ciclo de virtudes e vícios que atravessaria os séculos como uma das primeiras grandes sínteses visuais da moral cristã.
Entre Prudência, Fortaleza e Temperança, a Justiça aparece entronizada: uma figura feminina serena, coroada, sustentando a balança que pesa os atos humanos.
Dois séculos depois, no Vaticano, Rafael Sanzio retomaria essa mesma tradição simbólica.
Entre 1508 e 1511, ao decorar a Stanza della Segnatura por encomenda do Papa Júlio II, o artista organizou um programa iconográfico que representava quatro pilares do conhecimento humano: Filosofia, Teologia, Poesia e Justiça.
Todas, novamente, sob forma feminina.
...mas não no Poder
Basta sair da mitologia e das pinturas e entrar nas salas de julgamento para perceber o contraste.
Em mais de dois séculos de história das Cortes superiores brasileiras, apenas 36 mulheres ocuparam cadeiras no STF, STJ, TST, TSE e STM. Como algumas ministras passaram por mais de um tribunal, o número de mulheres distintas é ainda menor: 29 brasileiras chegaram ao topo do Judiciário.
O dado revela uma presença feminina ainda limitada nas estruturas de cúpula do sistema de Justiça.
No STF, criado em 1891, apenas três mulheres foram nomeadas ministras em toda a sua história: Ellen Gracie, em 2000; Cármen Lúcia, em 2006; e Rosa Weber, em 2011. Hoje, apenas Cármen Lúcia integra o plenário da Corte.
No STJ, desde a instalação em 1989, apenas dez ministras chegaram ao cargo. No TST, foram onze desde 1946. No TSE, apenas nove mulheres passaram pela Corte ao longo de mais de nove décadas. No STM, criado em 1808, a primeira mulher só foi nomeada em 2007.
A contradição é evidente. Durante séculos, a Justiça foi imaginada como mulher. Nas pinturas, nas esculturas e nos símbolos do Direito, ela aparece entronizada, coroada e portadora do poder de julgar.
Mas, nos tribunais, essa presença continua sendo exceção.
Para Marita Beatriz Konzen, essa tensão revela um problema estrutural: embora a igualdade entre homens e mulheres tenha sido reconhecida em diversos sistemas jurídicos modernos, a efetivação dessa igualdade ainda depende de transformações profundas nas instituições e nas estruturas sociais.
Talvez o desafio contemporâneo esteja justamente aí.
Aproximar a imagem da realidade. Fazer com que a Justiça deixe de ser apenas uma deusa imaginária e passe a ocupar, de forma mais plena, as cadeiras onde as decisões são tomadas.
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Referências
KONZEN, Marita Beatriz. O direito e a simbologia mitológica da alma feminina. Revista Liberato, Novo Hamburgo, v. 1, n. 1, 2000. Disponível em: https://revista.liberato.com.br/index.php/revista/article/view/26. Acesso em: 5 mar. 2026.
PORTO, Thais Helena Soares; SANTOS, Denise Tatiane Girardon dos; NEUBAUER, Vanessa Steigleder; VASCONCELLOS, Fernanda Gausmann. Deusas da justiça e as considerações do arquétipo feminino na mitologia grega e egípcia. In: SEMINÁRIO INTERINSTITUCIONAL DE ENSINO, PESQUISA E EXTENSÃO, 23., 2018, Cruz Alta. Anais [...] Cruz Alta: Universidade de Cruz Alta (UNICRUZ), 2018. Disponível em: https://shre.ink/A8Hz. Acesso em: 5 mar. 2026.






