Delegado que prendeu advogada chora ao ser transferido de unidade
Remoção ocorreu após pedido da OAB/GO por suposta violação de prerrogativas na condução da detenção.
Da Redação
sexta-feira, 24 de abril de 2026
Atualizado às 08:58
O delegado Christian Zilmon foi transferido de Cocalzinho de Goiás para Águas Lindas de Goiás após a polêmica envolvendo a prisão da advogada Áricka Rosalia, detida dentro de seu escritório por suposta difamação ao servidor nas redes sociais.
A remoção foi oficializada na última quarta-feira, 22, por decisão do Conselho Superior da Polícia Civil.
Após a transferência, passou a circular nas redes sociais um vídeo em que o delegado aparece chorando ao se despedir da equipe.
“Essas lágrimas aqui não são pela injustiça feita, mas sim pelo imenso apoio. Eu fiz amigos. É raro eu chorar, acho que já chorei umas cinco vezes na vida. Obrigado pelo carinho e respeito da equipe policial e permaneçam firmes”.
Assista:
A medida ocorreu após solicitação da OAB/GO, que pediu o afastamento do delegado sob a justificativa de violação de prerrogativas da advocacia durante a prisão da advogada, que teria criticado atuação do delegado. Segundo o órgão, a condução foi realizada de forma coercitiva, com uso de algemas.
A remoção foi adotada de ofício, sem prazo de trânsito, o que exige a apresentação imediata do servidor na nova unidade. A decisão foi assinada pelo delegado-geral da PC/GO, André Gustavo Corteze Ganga.
Além da transferência, a Diretoria-Geral da Polícia Civil editou a portaria 323/26, que veda a atuação de delegados em procedimentos nos quais possuam envolvimento pessoal. A norma estabelece diretrizes para assegurar a imparcialidade na condução de investigações e evitar que conflitos de interesse comprometam a atuação da autoridade policial.
Relembre o caso
A advogada Áricka Cunha foi presa na tarde de 15 de abril, dentro de seu escritório, em Cocalzinho de Goiás/GO, após publicar em rede social críticas a um despacho policial que havia arquivado ocorrência registrada por ela.
Segundo a advogada, o boletim tratava de suposta ofensa praticada por um servidor público, mas foi arquivado pelo delegado sob o fundamento de fato atípico e falta de efetivo.
Após a decisão, Áricka divulgou críticas ao despacho e reproduziu trechos do documento. O delegado entendeu que a publicação teria caráter ofensivo e determinou sua prisão por suspeita de difamação.
A detenção ocorreu no escritório profissional, foi registrada em vídeo e resultou na condução da advogada à delegacia. Ela foi liberada no mesmo dia, após pagamento de fiança de R$ 10 mil.
O delegado afirmou que a prisão também decorreu de condutas praticadas no momento da abordagem, incluindo, segundo ele, desacato, injúria e desobediência.
À época, Áricka sustentou que a medida representou afronta às prerrogativas da advocacia, especialmente à inviolabilidade do escritório profissional, prevista no Estatuto da Advocacia.
O caso gerou reação institucional da OAB/GO, que instaurou procedimentos para apurar possível violação de prerrogativas e eventual abuso de autoridade.
Ameaça de nova prisão
Posteriormente, o delegado afirmou, em vídeo, que tomou conhecimento de novas publicações nas redes sociais consideradas ofensivas, as quais poderiam configurar crimes como injúria e incitação.
Diante da repercussão, o delegado afirmou que chegou a cogitar uma nova prisão em flagrante, o que não se concretizou após interlocução com representantes da OAB. A entidade obteve liminar que impede Christian Zilmon Mata dos Santos de atuar em procedimentos nos quais figure como parte interessada.





