STJ diverge sobre monitoramento de conversas entre presos e advogados
Ministro Messod Azulay abriu divergência do relator, Joel Ilan Paciornik, ao afirmar que sigilo só pode ser relativizado por decisão individualizada, fundamentada em elementos concretos.
Da Redação
quarta-feira, 13 de maio de 2026
Atualizado às 10:44
A 5ª turma do STJ retomou julgamento de recurso em mandado de segurança que discute a validade da prorrogação do monitoramento ambiental de áudio e vídeo no presídio federal de segurança máxima de Planaltina/GO, inclusive em espaços destinados à comunicação entre presos, visitantes, advogados e servidores.
O julgamento teve início em 12 de fevereiro, quando o relator, ministro Joel Ilan Paciornik, votou pela manutenção da medida. Na ocasião, o ministro entendeu que a prorrogação do monitoramento observou juízo de proporcionalidade e tinha como finalidade impedir que internos da unidade prisional recebessem ou transmitissem ordens ilícitas relacionadas à atuação de organizações criminosas.
Após o voto do relator, o julgamento foi suspenso por pedido de vista do ministro Messod Azulay Neto. Ao apresentar voto-vista, o ministro abriu divergência para reconhecer a ilegalidade da captação ambiental autorizada de forma genérica e irrestrita.
Para Messod, embora o direito de comunicação livre e reservada entre preso e defensor não seja absoluto, sua relativização exige decisão judicial específica, excepcional, proporcional e individualizada, fundada em elementos concretos do caso.
Sigilo não é absoluto, mas exige decisão individualizada
O caso envolve novo recurso em mandado de segurança contra decisão que prorrogou por mais um ano o monitoramento ambiental autorizado em 2023 no presídio federal de segurança máxima de Planaltina/GO.
Ao apresentar voto-vista, o ministro Messod Azulay Neto abriu divergência por entender que a decisão questionada autorizou, de forma genérica e irrestrita, o monitoramento ambiental de áudio e vídeo em áreas do presídio federal de segurança máxima de Planaltina/GO, inclusive nos parlatórios destinados à comunicação entre advogados, defensores e custodiados.
Para o ministro, embora o direito de comunicação livre e reservada entre preso e defensor não seja absoluto, sua restrição exige decisão judicial específica, excepcional, proporcional e individualizada, amparada em elementos concretos do caso. Segundo Messod, é ilegal uma operação de inteligência estatal inespecífica, sem razões transparentes que permitam controle judicial prévio e posterior.
Ele destacou que o combate às organizações criminosas, especialmente em presídios de segurança máxima, é indispensável, mas não autoriza um estado de vigilância absoluta e permanente, baseado na presunção de suspeita sobre todos os custodiados e advogados.
Garantia constitucional
Messod baseou a divergência na leitura conjunta do art. 3º, § 2º, da lei 11.671/08, que trata dos presídios federais de segurança máxima, e do art. 8º-A da lei 9.296/96, que disciplina a captação ambiental.
Segundo o ministro, embora a lei preveja monitoramento de áudio e vídeo em parlatórios e áreas comuns, ela veda a captação em celas e atendimentos advocatícios, salvo autorização judicial em contrário. Essa exceção, afirmou, deve observar o regime geral da captação ambiental, com fundamentação proporcional, elementos concretos idôneos e prazo determinado.
Na avaliação de Messod, admitir autorização ampla para gravar atendimentos entre advogados e presos desnaturaria a garantia constitucional do custodiado e a prerrogativa constitucional da advocacia.
Crítica à autorização genérica
O ministro afastou a interpretação de que a expressão “salvo autorização judicial em contrário” permita monitoramento universal das conversas nos parlatórios. Para ele, a autorização não pode ser genérica, prospectiva ou baseada na presunção de que defensores possam aderir a práticas criminosas.
Messod também citou decisão recente do STF, do ministro André Mendonça, que assegurou a custodiado da penitenciária federal de Brasília visitas de advogado constituído sem monitoramento por áudio e vídeo.
Além disso, invocou precedente da Corte Interamericana de Direitos Humanos no caso CAJAR vs. Colômbia, segundo o qual operações de inteligência voltadas à comunicação entre advogados e clientes só podem ocorrer de forma excepcional, proporcional, mediante autorização judicial e diante de indícios de atos ilícitos no caso concreto.
Julgamento suspenso novamente
Ao final, propôs que a turma revisite o entendimento sobre a matéria. Com isso, divergiu do relator para conceder a segurança e reconhecer a ilegalidade da captação ambiental autorizada de forma ampla no presídio federal de segurança máxima de Planaltina/GO.
Após o voto-vista de Messod, o ministro Reynaldo Soares da Fonseca pediu vista. Com isso, o julgamento foi novamente suspenso, em vista coletiva.
- Processo: RMS 216.584




