1) Em recente concurso, indagou-se qual a forma correta em português para aquele famoso queijo napolitano de leite de búfala ou de vaca, que se talha com uma espécie de fungo conhecido por mozze no dialeto napolitano.
2) A primeira observação a ser feita é que, em nosso idioma, a autoridade oficial para dizer quais vocábulos pertencem ao vernáculo ou não é o Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa, uma espécie de dicionário que lista as palavras reconhecidas oficialmente como pertencentes à língua portuguesa, bem como lhes fornece a grafia oficial, mas normalmente não lhe dá o significado.
3) É ele elaborado pela Academia Brasileira de Letras, que tem a responsabilidade legal de editá-lo, em cumprimento à vetusta Lei Eduardo Ramos, de n. 726, de 8 de dezembro de 1900.
4) Por isso, dizer que tal ou qual dicionarista registra ou não registra determinada forma não resolve a questão nesse campo, uma vez que a palavra oficial não está com eles, mas com o VOLP; este, sim, é que diz oficialmente o que se deve acatar nessa esfera. Ou seja: por mais abalizados que sejam dicionaristas como Houaiss ou Aurélio, eles não são a autoridade oficial nesse campo.
5) Uma segunda observação é que, se há palavras vernáculas, isso significa que o vocábulo já sofreu aportuguesamento, de modo que, então, normalmente não mais se emprega o termo tal como escrito no idioma original, a não ser que haja expressa permissão do próprio VOLP.
6) Feitas essas ponderações, uma consulta do VOLP vai demonstrar que lá não se encontram as seguintes grafias: moçarela, morzarela, mossarela, mozzarela, murzarela, mussarela, muzzarela.
7) São apontadas, todavia, como formas corretas, em mesmo local, mozarela, muçarela e muzarela.1
8) Esclareça-se que o que se tem, nesse campo da grafia, em última análise, é uma lei: a Academia Brasileira de Letras tem a delegação legal para elaborar o rol dos vocábulos oficialmente existentes em nosso idioma, e o faz por intermédio do VOLP, de modo que qualquer discussão que se queira travar sobre a questão haverá de situar-se no plano científico. Não está, porém, no alvedrio de quem quer que seja adotar uma grafia não consagrada por ela, de modo que grafar diferentemente da determinação oficial será, em última análise, descumprir a lei.
9) Resolvida a consulta, quero, neste final, fazer três observações:
I) – se fosse submetido a tal exame, no qual a questão foi formulada, eu também erraria, pois ninguém sabe qual a grafia oficial de todos os vocábulos em nosso idioma;
II) – uma questão como essa não verifica o real conhecimento que um candidato tem do uso do idioma, nem mesmo se sabe manejá-lo adequadamente;
III) – bem por isso, um teste como esse não atinge o alvo nem seleciona, de modo efetivo, candidatos aptos para cargo nenhum, nem mesmo se estiverem buscando um pizzaiolo ou um garçom.
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1Cf. Academia Brasileira de Letras, Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa. 4. ed., 2004. Rio de Janeiro: Imprinta. p. 538 e 544.