1) Um leitor indaga, em resumo, se é correta a expressão "Dois pesos, duas medidas". Para ele, se são dois pesos, logicamente devem ser duas medidas, de modo que não haveria novidade alguma a ser ressaltada com uma expressão dessa natureza. Então lhe parece que o correto deveria ser "Um peso e duas medidas".
2) Ora, para que bem se possa entender o real sentido da expressão, é útil ir ao quinto livro da Bíblia, o Deuteronômio, de autoria atribuída a Moisés, onde se lê no capítulo 25, versículos 13-15: "Na tua bolsa, não terás pesos diversos, um grande e um pequeno. Na tua casa, não terás duas sortes de efa, um grande e um pequeno. Terás peso integral e justo, efa integral e justo; para que se prolonguem os teus dias na terra que te dá o Senhor, teu Deus". E, em outro livro da Bíblia, Provérbios 20:10, também se encontra a seguinte passagem: "Dois pesos e duas medidas, uns e outras são abomináveis ao Senhor".
3) A regra da Bíblia, como se vê, é que se deve ter apenas um peso, e não dois, para ponderar as pessoas, as coisas, as situações e as circunstâncias; e se deve ter também, em iguais condições, apenas uma medida, e não duas (o efa era uma unidade básica de medida para a época em que foi registrado o referido escrito do Velho Testamento). A expressão aqui analisada é bastante empregada, desse modo, para realçar que não pode haver posições diferentes para uma só e mesma situação.
4) Para os mais novos, deve-se lembrar que, até meados do século passado, não era incomum encontrar, em pequenos armazéns, empórios e mercearias, balanças similares à que se encontra no símbolo da Justiça: de um lado se põe o modelo do peso e do outro, o material a ser pesado. E o ensino bíblico é que tal modelo de peso deve ser um só, e não dois, de modo que não se tenha o manuseio e a manipulação maliciosa conforme as circunstâncias.
5) Num segundo passo, imagine-se um pequeno comerciante de tecidos da metade do século passado, que tivesse em sua bolsa uma fita métrica de um metro exato e outra com aparência de um metro, mas com extensão real menor do que isso, esta última para obter ganho indevido na venda dos produtos. E a Bíblia repete a lição de que a unidade de medida também deve ser uma só, e não duas, de modo que também aqui não se permita o manuseio e a manipulação maliciosa conforme as circunstâncias.
6) Em síntese, o peso que serve para considerarmos as coisas deve ser um só; e o instrumento com que medimos as coisas também deve ser um só. Não podemos ter dois pesos, nem duas medidas. Veja-se que a expressão não significa um peso para duas medidas. Existe uma repetição de ideias: uma para dizer que não se pode empregar dois pesos; e outra, refazendo o mesmo raciocínio, para dizer que não se pode empregar duas medidas. Assim, nem dois pesos, nem duas medidas, mas apenas um só peso para pesar e apenas uma só medida para medir. Não se pode pesar de dois modos, nem medir de dois modos, conforme seja a situação que apareça.
7) A partir dessas explicações, vê-se que nada há de errado com respeito à expressão "dois pesos, duas medidas". O que existe aqui é a referência a duas situações distintas: dois pesos de um lado, e duas medidas de outro. Não significa uma correlação entre ambos, de modo a permitir que se possa entender algo como "um peso para duas medidas".
8) Apenas para ilustrar, anota-se que a expressão em inglês é exatamente a mesma: "two weights and two measures".
9) E de Voltaire é o seguinte trecho em que se emprega exatamente a mesma expressão em francês: "Il y a toujours deux poids et deux mesures pour tous des droits des rois et des peuples" ('Há sempre dois pesos e duas medidas para os direitos dos reis e os direitos das pessoas comuns')". Ou seja: há um peso e há uma medida com que pesar e medir os direitos dos reis; e há um outro peso e uma outra medida para pesar e medir os direitos das pessoas comuns.