Falar alguma palavra ou escrever algum texto a respeito do pai, como a própria literatura pondera, traz um pouco de dificuldade. Isto porque a figura paterna é mais afastada do convívio familiar, justamente porque sai à frente para abrir trincheiras a fim de acolher a família, enquanto a mãe, que fica na retaguarda e em companhia dos filhos, é um repertório fácil: basta abrir as comportas do sentimento e deixar jorrar compassadamente as palavras de afeto. Tanto é verdade que até o comércio - que remete a data imediatamente ao consumo - é mais intenso e vibrante no dia das mães do que no dia dos pais.
Mas, na relação familiar, a figura do pai é imprescindível, seja ele quem for e tenha ele predicados e defeitos visíveis. Jamais deixará de ser pai.
Basta ver a parábola bíblica do filho pródigo que relata a figura do filho que esbanjou e dissipou os seus bens e, na avaliação das pessoas da época, deveria ser punido severamente, desalojado da casa da família e ser colocado em companhia dos servos. Ao mesmo tempo surge a figura do pai, que também é pródigo, generoso e magnânimo em seu sentimento, ampliando a dimensão do amor paterno.
É até um contrassenso tal comportamento do pai com o julgamento popular porque está prestigiando aquele que abandonou a família, perdeu os bens e viveu dissolutamente, enquanto seu irmão mais velho permaneceu trabalhando na casa do pai.
O pai determinou que fosse feito um lauto jantar para o filho e aos quatro ventos saiu bradando que foi o reencontro com aquele que estava morto e reviveu, estava perdido e foi achado.
Na realidade, é difícil dimensionar o potencial afetivo de um pai, que carrega no peito o espírito amadurecido pelo exercício da própria vida. Falar para o pai e a respeito dele é sempre uma tarefa difícil, quer esteja presente ou não. Você pode ter a mais singela formação, desde aquela que provoca os calos, duramente fincados em seu corpo, como a melhor experiência de vida, a sabedoria como estandarte, a poesia como tesouro para fazer coro com a mais bela canção que irá estancar num repente fazendo com que o espaço reservado às palavras fique ziguezagueando à sua frente, sem rumo, aguardando que as fibras do sentimento se comprimam para produzir a peça desejada.
Você irá perceber, com o passar do tempo, que a vida tem suas regras imprevisíveis e pode até mesmo ser comparada a uma peça de teatro, algumas vezes pendendo para o drama, outras para a comédia e outras ainda para o musical, em que cabe a cada um recitar o seu texto. E o mais interessante é que, quando você era criança assistia-o como ator principal e agora, como adulto, está no seu lugar e ele na plateia, na fila do gargarejo, sentindo já as primeiras fissuras da vida. Sabe que não é para avaliar seu desempenho e sim para torcer e aplaudir fazendo ver que sua interpretação é impecável, por pior que tenha sido.
Coloque em seu espírito a intensidade adequada para homenagear seu pai, isto se puder calibrar a dosagem de afeto que deseja manifestar. Quebre os paradigmas e protocolos e neste momento de efervescência espiritual, entre na mais perfeita harmonia, entoe a mais significativa melodia e recite a mais bela poesia. A imaginação é tão superlativa que consegue fazer artes, mágicas e até milagres.