Migalha do Saber

O Insper e a educação que olha para o futuro

Ao longo de quase três décadas, a instituição construiu uma trajetória marcada pela qualidade acadêmica, multidisciplinaridade e aproximação entre conhecimento e prática - princípios que também ajudam a explicar a criação de sua graduação em Direito.

18/9/2026

Poucas instituições de ensino construíram uma identidade tão associada à ideia de transformação e inovação quanto o Insper. Em quase três décadas, a escola passou por diferentes fases, ampliou áreas de conhecimento e acompanhou mudanças profundas na sociedade, mas sem abandonar uma característica que esteve presente desde sua origem: a convicção de que uma boa formação acadêmica deve não só transmitir alto nível de conhecimento técnico, mas preparar pessoas para compreender problemas complexos e encontrar novas soluções para eles, em um mundo que muda cada vez mais rápido. É dentro dessa trajetória que se insere também, mais recentemente, a criação do curso de Direito.

A história começou ainda em 1998, quando Claudio Haddad deixou o Banco Garantia e decidiu investir em educação. Para ele, naquele momento, havia uma carência de instituições de ensino superior no país. Coincidentemente, o Ibmec, estava à venda. Claudio e seu sócio à época, o economista Paulo Guedes, adquiriram a instituição. O que o atraiu particularmente, segundo ele próprio, foi a possibilidade de começar em São Paulo praticamente do zero e fazer algo diferente, melhor. Não havia sequer um campus quando a operação começou.

Claudio Haddad, aliás, não chegou à educação vindo de uma trajetória exclusivamente acadêmica. Ele construiu uma sólida carreira no mundo financeiro, foi diretor de Dívida Pública e Mercado Aberto do Banco Central e, posteriormente, sócio e CEO do Banco de Investimentos Garantia. Sua experiência no mercado certamente contribuiu para uma visão de educação que procurava aproximar conhecimento acadêmico e realidade profissional.

A aposta de Claudio em um ensino de alto nível rapidamente produziu resultados. O primeiro vestibular da instituição, em 1998, abriu 50 vagas para Administração e 30 para Economia, e no primeiro Provão (antecessor do atual Enade) do qual o então Ibmec participou, em 2003, ficou em 3º lugar em Administração e 1º lugar em Economia.  Naquele mesmo ano, Claudio tornou-se único proprietário da unidade paulista, que posteriormente se consolidaria como uma instituição sem fins lucrativos. Em 2009, viria a mudança de nome para Insper.

Apesar de ter começado com Administração e Economia, a escola não ficou limitada a essas áreas. Em 2015, passou a oferecer graduações em Engenharias e, posteriormente, avançou para Ciência da Computação e Direito. A tecnologia passou a ocupar um espaço cada vez maior na formação, justamente porque o mundo profissional também havia mudado. 

Portanto, a expansão para o Direito, com os primeiros alunos formados em 2025, não representa uma ruptura, mas uma consequência dessa história. O desafio era criar uma graduação que preservasse a essencial formação jurídica, mas também preparasse o aluno para um mundo em que Direito, economia, negócios e tecnologia estão cada vez mais próximos.

Pude acompanhar de perto parte dessa história como advogado e por meio da minha passagem pela faculdade, como professor e depois membro do seu conselho do Insper Direito. Também tive a oportunidade de ser professor visitante da Universidade de St. Gallen, na Suíça, uma das instituições com as quais o Insper mantém relacionamento acadêmico. Por isso, falar sobre o Insper é também uma oportunidade de homenagear uma instituição cuja trajetória fui testemunha e que só reforçou minha visão sobre a importância da educação.

A proposta de oferecer o curso em Direito me parece particularmente relevante porque o advogado contemporâneo encontra problemas que dificilmente cabem dentro das fronteiras de uma única disciplina. A experiência acumulada pelo Insper levou ao desenho de uma experiência acadêmica que busca combinar a formação teórica e humanista com o desenvolvimento de habilidades práticas. O objetivo é preparar profissionais capazes de lidar com questões jurídicas complexas e trabalhar em equipes multidisciplinares - uma realidade cada vez mais presente.

Essa diversidade é, aliás, uma das características da advocacia atual. O profissional pode atuar não só em escritórios, mas também em diferentes áreas de empresas e bancos, na advocacia pública, em agências reguladoras, organizações sociais, tribunais ou mesmo empreendendo.

Desde os primeiros anos, os alunos trabalham com problemas apresentados por organizações reais. Empresas como Google, Stone, Microsoft, Cosan e BTG Pactual, além de instituições públicas, organizações do terceiro setor e escritórios de advocacia, já participaram de iniciativas, como uma forma de aproximar a sala de aula de situações que o profissional encontrará fora dela.

A formação também procura não se limitar às fronteiras nacionais. Parcerias com instituições como Notre Dame Law School, Duke University e University of Chicago e a Universidade de St. Gallen ampliam as oportunidades.

Apesar de recente, o curso de Direito já evidencia a importância desses fatores com indicadores concretos, já que em 2025, recebeu nota máxima, 5, na avaliação de reconhecimento do MEC - Ministério da Educação. Além disso, a primeira turma de formados mostra alta aprovação na OAB e elevada empregabilidade, distribuída entre escritórios, bancos e instituições financeiras.

Não podemos esquecer, porém, que uma das características mais relevantes de uma instituição acadêmica é a qualidade das pessoas que dela participam. E o Insper também construiu, em seu corpo docente e em seus órgãos de governança, uma combinação de experiências acadêmicas, empresariais e jurídicas.

O seu Conselho Deliberativo, órgão máximo de administração da instituição, reúne profissionais reconhecidos como Ana Paula Martinez, advogada, sócia do Levy & Salomão e ex-diretora do Departamento de Proteção e Defesa Econômica do Ministério da Justiça. Também integram o conselho Tania Haddad Nobre, presidente do órgão, formada em Economia pela University of Chicago; Pedro Moreira Salles, presidente do Conselho de Administração do Itaú Unibanco; entre outros nomes de peso e de diferentes áreas.

Essa composição mostra que a interdisciplinaridade não está apenas no discurso ou na grade curricular. Ela também aparece nas pessoas que participam de sua construção e governança. Uma das maiores contribuições do Insper talvez esteja justamente em ter compreendido que educação é um processo de permanente construção. A história da instituição foi iniciada por Claudio Haddad, mas é continuada diariamente por professores, alunos, conselheiros e pesquisadores, sem perder sua identidade.

Recentemente, em uma conversa com Claudio, eu lhe disse que imaginava que talvez ele tivesse fundado o Insper, de alguma maneira, como uma homenagem a seu pai, que sei que foi um importante professor universitário. Ele me respondeu que sua mãe também era professora e, em tom de brincadeira, que talvez eu estivesse no caminho certo. Certamente foi em casa, desde cedo, que ele viu e sentiu o papel da educação na sua vida.

É uma lembrança simples, mas ajuda a compreender que instituições de ensino não são feitas apenas de prédios, currículos e indicadores, mas de pessoas que persistem no caminho da educação, que não a enxergam apenas como um setor ou objetivos financeiros, mas seguem apostando na sua capacidade de transformar pessoas e, consequentemente, a sociedade.

Colunista

Pierre Moreau é sócio-fundador do Moreau Advogados e da Casa do Saber (2004), ex-conselheiro fiscal do Hospital Sírio Libanês, árbitro de diversas câmaras de arbitragem. Professor do Insper e professor visitante na Universitat St. Gallen, organizou e escreveu diversos livros como Fora da Curva II (Portfolio-Penguin, 2020), A Nova Geração de CEOs (Portfolio-Penguin, 2018), Grandes Crimes (Três Estrelas, 2017), Fora da Curva (Portfolio-Penguin, 2016), Grandes Advogados (Casa da Palavra, 2011 e O Financiamento da Seguridade Social na União Europeia e no Brasil (Quartier Latin, 2005). É mestre e doutor em Direito pela PUC/SP. Cursou Harvard Law School e Harvard Business School.

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