O Brasil é um país que aprendeu a interpretar-se antes de aprender a decidir-se. Produziu diagnósticos monumentais sobre suas origens, seus vícios, suas promessas, sua desigualdade, sua cordialidade e sua violência; converteu o autoconhecimento quase numa especialidade nacional. A inteligência brasileira nunca foi escassa. Escassa tem sido outra coisa, menos brilhante e mais penosa: a passagem da inteligência à decisão, da decisão à execução e da execução à continuidade. Conhecemos há décadas parte considerável de nossos impasses e, ainda assim, recebemos suas consequências com o espanto reservado ao imprevisto. Talvez seja essa uma das nossas formas mais persistentes de inocência política: tratar como surpresa aquilo que se decidiu não enfrentar.
As eleições de 2026 deveriam ser observadas sob esse prisma. A pergunta decisiva não é apenas quem vencerá, nem qual coalizão administrará a República pelos quatro anos seguintes. A pergunta é se o país será capaz de escolher-se. Isso significa recusar a política como sucessão de personagens e recuperá-la como decisão sobre uma forma de vida comum. A política reduzida à coreografia das indignações é barulhenta, mas intelectualmente pobre: ela transforma cada conflito em prova moral e cada adversário em obstáculo absoluto. A Política, com letra maiúscula, começa onde termina essa infância. Começa quando uma sociedade reconhece que adversários continuarão a habitar o mesmo território, depender das mesmas instituições e transmitir aos filhos as consequências das decisões tomadas hoje. Hannah Arendt insistiu que a política nasce da existência de um mundo comum entre diferentes, não da fantasia de eliminar a diferença.1
O Brasil precisa, portanto, de um projeto nacional, mas a expressão exige cuidado. Há palavras que envelhecem mal porque carregam consigo o abuso que delas se fez. “Projeto nacional” pode sugerir plano central, unanimidade compulsória, ideologia de Estado ou nostalgia de grandeza. Não é disso que se trata. Um projeto nacional democrático é mais sóbrio: um conjunto limitado de compromissos capazes de sobreviver à alternância partidária. Uma República adulta altera prioridades, instrumentos e ênfases quando muda o governo: não destrói a memória administrativa para permitir que cada maioria (partidariamente desorganizada) se sinta fundadora. O verdadeiro sinal de maturidade não é a capacidade de recomeçar. É a capacidade de continuar sem deixar de corrigir.
Esse tema é trivial e, por isso mesmo, raramente é levado a sério. O Brasil recomeça demais. Políticas mudam de nome antes de produzirem resultados. As estruturas são desmontadas antes de serem avaliadas, os programas passam a pertencer simbolicamente a governos e, por isso, tornam-se suspeitos aos sucessores. A descontinuidade é apresentada como “energia reformadora”, quando muitas vezes é apenas “desperdício institucional”. O país possui recursos suficientes para financiar por algum tempo a própria desorientação, mas esse privilégio tem prazo. Demografia, tecnologia, crime organizado, clima e reorganização das cadeias produtivas já cobram juros elevados da improvisação. Administrar o presente como sucessão de emergências é uma maneira elegante de escolher a decadência. É o que estamos a fazer.
O primeiro compromisso desse projeto deveria ser com a realidade. O Estado brasileiro produz uma quantidade impressionante de informações e, ainda assim, frequentemente conhece pouco os efeitos daquilo que faz. Há uma diferença elementar entre medir atividade e compreender resultado. Saber quantas crianças estão matriculadas é informação, mas saber por que não aprendem é inteligência. Contar atendimentos médicos é informação, mas identificar o que poderia ter sido prevenido é inteligência. Registrar prisões é informação, mas saber se a violência diminuiu é inteligência. A Administração Pública tende a confundir execução orçamentária com realização social porque a primeira é mais facilmente demonstrável. Gasta-se e, portanto, supõe-se que algo foi feito. Todavia, orçamento não é apenas contabilidade: é uma declaração moral em números. Revela quais urgências foram reconhecidas, quais sofrimentos foram adiados e quais interesses conseguiram apresentar-se como interesse público.
Há que se qualificar que essa defesa da inteligência não deve transformar-se na religião dos números. A tecnocracia também possui suas superstições. Nem tudo o que importa cabe numa métrica, e uma sociedade que mede tudo pode terminar sem saber o que vale a pena medir. Confiança, dignidade, pertencimento e liberdade não se esgotam em tabelas. A técnica pode estimar consequências, mas não pode decidir sozinha quais consequências são aceitáveis. A tarefa democrática é obrigar valores a conviver com evidências e evidências a não se disfarçarem de valores. È sutil, mas é verdadeiro! Políticas públicas são hipóteses sobre a realidade: o erro honesto deve gerar aprendizagem. Já a negligência, correção e responsabilidade. De outro lado, temos a fraude: aqui cabe punição. Confundir essas categorias produz, ao mesmo tempo, impunidade e medo burocrático de decidir.
Conhecer o país também significa abandonar a ficção de uma média nacional que não mora em lugar algum. O lugar de nascimento ainda determina excessivamente a escola que se terá, a violência a que se estará exposto – veja-se o caso do Rio de Janeiro -, o tempo de espera por um médico e a possibilidade concreta de fazer valer um direito. Isonomia não é uniformidade. Tratar de modo idêntico territórios profundamente desiguais pode ser apenas uma forma burocrática de conservar a desigualdade. Amartya Sen2 deslocou a discussão sobre justiça para as capacidades reais das pessoas de viver e agir. Essa intuição é especialmente útil num país em que direitos formalmente universais convivem com possibilidades radicalmente distintas de exercê-los. Direitos devem ser comuns, já os meios para torná-los reais precisam reconhecer distância, renda, escala, capacidade administrativa e história. O federalismo deveria partir dessa diferença: direitos comuns, capacidades distintas. A União não precisa executar tudo, mas deve produzir inteligência, padrões e cooperação. Descentralizar sem capacidade pode apenas descentralizar o fracasso.
Um país que se descreve apenas por suas carências torna-se prisioneiro de uma política de compensação permanente. O Brasil precisa saber onde estão suas privações, mas também precisa reconhecer onde estão suas competências. Celso Furtado advertiu, de modos distintos ao longo de sua obra, contra a ilusão de que desenvolvimento seja consequência automática da abundância material. Os recursos só se convertem em desenvolvimento quando organizados por conhecimento, instituições e escolhas coletivas.3 Ter petróleo não é dominar energia. Ter biodiversidade não é possuir bioeconomia. Ter universidades não é produzir inovação. Ter sol, água e terra não é política econômica. A abundância pode ser uma vantagem, mas também pode ser uma anestesia.
Talvez a competência brasileira mais original seja aquilo que se poderia chamar de “inteligência tropical”: a capacidade de transformar condições ecológicas, sanitárias, agrícolas e climáticas em conhecimento próprio. A agricultura tropical já demonstrou que natureza não é destino. O próximo passo, porém, não pode ser apenas produzir mais toneladas. Deve ser produzir mais conhecimento, produtividade e valor com menos destruição: bioinsumos, recuperação de solos, rastreabilidade, genética, novas fibras, combustíveis e sistemas de baixo carbono. A floresta não é somente estoque de matéria-prima, nem cenário moral para discursos internacionais. É sistema ecológico, território social, patrimônio científico e ativo climático. Preservar sem conhecer é frágil: explorar sem preservar é suicida.
O mesmo raciocínio vale para energia, saúde e infraestrutura digital. A combinação energética brasileira será desperdiçada se o país se limitar a fornecer eletricidade limpa ou matérias-primas para produtos concebidos em outros lugares. A transição só será estratégia se criar capacidade industrial e tecnológica. Na saúde, o SUS oferece escala e experiência para unir direito social, inovação e soberania. Na esfera digital, sistemas de grande alcance demonstram capacidade de organização, mas ampliam o perigo da vigilância e da decisão invisível. Quanto mais o Estado souber sobre o cidadão, maior deve ser o direito do cidadão de compreender e contestar como o Estado decide sobre ele, não é mesmo? Nenhum algoritmo deve converter-se em soberano clandestino. Jamais.
É aqui que os três Poderes precisam ser vistos menos como personagens de um drama permanente e mais como partes de uma arquitetura. O Executivo deve escolher, e escolher significa renunciar. Uma lista infinita de prioridades é a forma administrativa da covardia. O Legislativo deveria transformar a pluralidade social e territorial em escolhas compreensíveis, não em soma opaca de demandas locais. Toda lei relevante deveria dizer que problema pretende resolver, quem pagará seu custo e como seus efeitos serão avaliados. O Judiciário, por sua vez, deve proteger direitos e limitar o arbítrio sem esquecer que decisões individuais podem produzir efeitos coletivos. Independência não significa indiferença às consequências. A República necessita de uma ética do limite: cada Poder precisa resistir à tentação de imaginar que a própria expansão resolverá a crise dos demais. A improvisação institucional simplesmente precisa acabar, mesmo diante de desafios difíceis.
Max Weber tornou clássica a distinção entre a ética da convicção e a ética da responsabilidade. Governar exige considerar não apenas a pureza das intenções, mas as consequências previsíveis da ação.4 Essa ideia parece especialmente necessária num ambiente político em que a declaração moral frequentemente substitui a prestação de contas (accountability). A responsabilidade fiscal, por exemplo, não é o contrário de um projeto social: é a condição temporal de sua permanência. Um Estado excessivamente endividado transfere ao futuro a conta de decisões que o presente preferiu não tomar. A dívida pode financiar investimento e enfrentar crises. Todavia, não pode funcionar indefinidamente como mecanismo de adiamento da escolha.
O mesmo princípio deveria ordenar as políticas públicas: quem ganha, quem paga e qual benefício coletivo será produzido? Programas eficazes precisam ter chance de continuar. Já os programas ineficazes precisam ser corrigidos, estruturas sem finalidade devem poder terminar. O Estado brasileiro precisa aprender a encerrar. Toda política cria beneficiários, fornecedores, carreiras e símbolos. Com o tempo, sua sobrevivência pode passar a depender menos da finalidade e mais dos interesses organizados ao redor dela. Direitos são permanentes. Instrumentos não. Uma República que não consegue rever nada, simplesmente perde, pouco a pouco, a capacidade de escolher qualquer coisa. É o que tem acontecido.
Há ainda um valor político pouco celebrado: o invisível. A manutenção que impede o colapso, a prevenção que evita a doença, o sistema de dados preservado, a formação de servidores, a instituição técnica que resiste à captura. Nada disso oferece a imagem heroica de uma inauguração, por vezes, eleitoreira. E talvez por isso mesmo seja precisamente o lugar do estadismo. O estadista não é aquele que ocupa todo o horizonte: é aquele que constrói capacidades que poderão ser utilizadas (ironicamente) até por seus adversários. Governa para um tempo no qual seu nome já não será necessário. O melhor monumento de um governante é uma instituição que funciona sem precisar lembrá-lo. A moeda forte, por exemplo.
Esse patriotismo institucional exige liberdade de crítica. Instituições que punem quem traz más notícias começam a governar sobre ficções. O dado inconveniente é um serviço público. Imprensa livre, pesquisa independente, auditoria responsável e transparência não são obstáculos à ação - são mecanismos de inteligência coletiva. A confiança não se fabrica por propaganda. Ela emerge, lentamente, quando regras são cumpridas, erros são reconhecidos e compromissos sobrevivem à conveniência. Democracias necessitam de uma realidade compartilhada antes de necessitarem de consenso. Sem uma base comum de fatos, a divergência deixa de ser política e transforma-se em universos paralelos. Afora as fakes news.
O futuro torna essa discussão mais severa porque seus principais interessados ainda não votam. Dívida, educação, clima, infraestrutura e ciência são campos em que o presente pode apropriar-se das possibilidades do amanhã. A responsabilidade entre gerações não exige sacrificar os vivos em nome de abstrações futuras. De fato, exige que benefícios imediatos não destruam capacidades duradouras. A fome não pode esperar, mas a educação exige décadas. A política adulta é a arte de manter, ao mesmo tempo, a urgência e a duração.
Por isso, o Brasil precisa abandonar a sedução do “país do futuro” – nada mais anacrônico. A frase sempre conteve esperança, mas também adiamento: o futuro funcionava como absolvição do presente. Não haverá momento redentor. O futuro será o resultado banal - e por isso implacável - de escolhas acumuladas. A grandeza não é atributo natural de um território vasto ou de recursos abundantes. É uma forma de organização.
As eleições de 2026 serão importantes, mas não serão fundadoras. Nenhuma eleição deveria carregar esse peso. O Brasil não precisa ser salvo por uma personalidade, uma facção ou uma reforma isolada. Precisa construir a capacidade de formular planos melhores, corrigir erros, preservar conquistas e ampliar possibilidades. Precisa transformar recursos em conhecimento, conhecimento em decisão, decisão em execução e execução em aprendizagem. Não há herói central nesse processo. Há instituições, equipes, rotinas, avaliações, limites e continuidade. A história política prefere personagens. Por sua vez, o desenvolvimento depende de sistemas.
Escolher-se, portanto, não é um gesto único. É um hábito republicano. O país escolhe-se quando recusa que o endereço de uma criança defina seu destino, quando trata educação como soberania e confiança como infraestrutura, quando entende que orçamento é estratégia e responsabilidade fiscal é responsabilidade com o tempo, quando exige dos Poderes não a ausência de conflito, mas a disciplina dos limites, quando aceita que uma política boa criada pelo adversário continua sendo uma política boa. A Política com letra maiúscula não promete abolir o conflito. Promete torná-lo fecundo. Não promete perfeição. Promete capacidade de correção.
Talvez seja essa a escolha que 2026 deveria tornar visível. Não apenas entre candidatos, mas entre duas ideias de país: uma que continua a administrar a própria promessa e outra que aceita o trabalho menos sedutor de adquirir forma. A esperança adulta não espera que abundância, tempo ou acaso resolvam nossos dilemas. Conhece os limites da realidade e, ainda assim, decide transformá-la. O Brasil possui território, recursos, cultura, diversidade e conhecimento. O que lhe falta não é uma profecia e nem um profeta. Precisamos urgentemente de uma direção capaz de sobreviver aos governos e incluir aqueles que a história manteve à margem.
Transformar potencial em competência e competência em destino compartilhado: esse é o trabalho de uma geração. Chega de improvisações.
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1 ARENDT, Hannah. A condição humana. Tradução de Roberto Raposo. 10. ed. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2007.
2 SEN, Amartya. Development as Freedom. New York: Alfred A. Knopf, 1999.
3 FURTADO, Celso. O mito do desenvolvimento econômico. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1974.
4 WEBER, Max. Ciência e política: duas vocações. Tradução de Leonidas Hegenberg e Octany Silveira da Mota. São Paulo: Cultrix, 2011.