Migalhas de Peso

Trump e a política internacional

Análise crítica do nacionalismo e do reducionismo econômico na política, destacando paixões humanas como força central da história e do extremismo.

4/2/2026
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Nada mais difícil do que avaliar um momento histórico que ainda não entrou para a história. O calor dos acontecimentos, as idas e vindas dos agentes políticos, as contradições e, sobretudo, as paixões que marcam a ação das pessoas envolvidas, sejam líderes ou massas de liderados, tudo isso forma um mosaico que, pelo menos à primeira vista, é marcado pela incoerência. Como observadores, colocamo-nos o desafio de dar um sentido ao que parece não ter sentido e, ao fazê-lo, ao pôr ordem no que não tem ordem, ao estabelecer conexões naquilo que não tem nexo algum, corremos o sério risco de, mediante interpretações baratas e vulgares, fazermos um falso diagnóstico do momento presente.

Esse risco existe mesmo em relação a processos históricos concluídos. Não falta, por exemplo, quem acredite encontrar no desemprego a explicação definitiva para a ascensão do nazismo, na Alemanha dos anos 1930. O raciocínio, em linhas gerais, é simples: há um fenômeno econômico, seguido de um fenômeno político. Essa coincidência temporal é suficiente para estabelecer a conexão entre ambos, numa relação de causa e efeito que parece tudo explicar. Se o desemprego causa o nazismo, eis o diagnóstico, então, para combater propostas políticas extremadas, basta criarmos um Estado de bem-estar social, com políticas públicas que impeçam a sedução das massas por políticos carismáticos, amparados por retórica inflamada e apaixonante.

A falha nesse raciocínio está em ignorar que, entre o fenômeno econômico e o fenômeno político, há um sujeito com suas paixões, seus impulsos e suas contradições. Nem sempre uma pessoa desempregada se torna nazista, assim como nem sempre pobres se tornam criminosos. Há pessoas desempregadas que aderem a movimentos de esquerda, assim como há pobres que, em vez de se deixarem levar pela criminalidade, buscam dois ou três empregos para que possam ter uma vida minimamente digna. Se a satisfação das necessidades materiais fosse o motor da política ou do crime, não teríamos operadores da justiça regiamente pagos envolvidos com movimentos de extrema-direita, nem juízes igualmente ricos que vendem sentenças. 

Ora, se não há uma relação direta e necessária entre pobreza e extremismo político ou entre pobreza e criminalidade, como entender o que se passa no mundo atualmente? Como entender o fenômeno Donald Trump? Se o presidente dos Estados Unidos existe e tem relevância como ator político, isso se deve a uma larga margem de apoiadores, de pessoas que o adoram e veneram, que se deixam levar por sua retórica. Por quê? Por que figuras como Trump, Hitler e outros de igual quilate seduzem as massas, levando-as ao êxtase?

“Make America Great Again”, “America First”, “Deutschland über alles”, “Brasil acima de tudo”, essas palavras excitam multidões, mas, infelizmente, a historiografia, ou parte dela, focaliza apenas aquilo que se acha na superfície dos fenômenos políticos. Das pulsões humanas, as únicas que parecem ser captadas por analistas são as relativas à ganância, ao egoísmo e ao medo. Parte-se do pressuposto de que qualquer ação no plano internacional será ditada exclusivamente pelo desejo de adquirir recursos naturais ou estabelecer uma posição geopolítica que garanta segurança. Petróleo, gás natural, terras raras, a localização estratégica da Groenlândia, tudo isso parece fornecer ao mundo as explicações para os movimentos recentes dos Estados Unidos no plano internacional. 

Nessa linha, tudo parece seguir um roteiro racional e coerente, como se não houvesse nenhuma outra alternativa ao caminho tomado, como se as ambições de Trump fizessem parte não de uma política de governo, mas de Estado, vale dizer, qualquer um que estivesse na Casa Branca invadiria a Venezuela e sequestraria Maduro, anexaria a Groenlândia, quiçá também o Canadá, ignoraria o Direito Internacional e ainda reclamaria para si o prêmio Nobel da Paz, tudo em detrimento de parcerias e alianças estáveis. 

Sabemos que isso não é verdade. Outros cursos de ação poderiam ser adotados, da mesma forma como outras forças políticas poderiam ter ascendido ao poder na Alemanha dos anos 1930. Se não ocorreu, será preciso entender então o que houve. Reduzir tudo ao desemprego ou à luta de classes simplifica a história de modo grosseiro, pois coloca em segundo plano outras forças que sustentam políticos como Hitler ou Trump. Por que há o nacionalismo? Que estranha força é essa, resultado de uma visão de mundo inventada na Europa, que mobiliza corações e mentes, tornando tanto os imperialistas como suas vítimas tão parecidos no amor que descobrem ter por suas pátrias, em cujo nome tudo se justifica, inclusive matar e morrer? 

Colocar a própria Nação acima de tudo ou em primeiro lugar significa ter como pressuposto um comportamento competitivo em vez de cooperativo no contexto das relações internacionais, significa embarcar numa insana luta de maximizar vantagens e minimizar perdas, em detrimento de toda a humanidade. Trata-se, em suma, de abraçar uma utopia que não levará a lugar algum, pois não há primeiro lugar para todos.

A Europa se vê às voltas com partidos de extrema-direita em ascensão, muitos, senão todos, com o profundo desejo de abortar o projeto de união, desenvolvido a duras penas nos últimos 70 anos. Um continente desunido, no qual cada Estado e sua gente se coloca, de punho erguido, acima de tudo e de todos, facilitará enormemente as ambições de tipos como Trump ou Putin. Por que enveredar por esse caminho? Além de puro narcisismo coletivo, o nacionalismo se alimenta do ódio pelo outro, seja sob a forma de antissemitismo, seja na versão islamofóbica ou simplesmente racista. Por que isso ocorre? O que se passa no mundo das paixões que permite o surgimento de líderes que seduzem as massas e as levam para o precipício? Se não entendermos isso, a história se repetirá, como já está a se repetir, e não haverá Estado de bem-estar social em condições de impedi-lo. 

Autor

Geraldo Miniuci Professor Livre-Docente do Departamento de Direito Internacional e Comparado da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo.

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