A lei de Parkinson diz que o trabalho tende a ocupar todo o tempo disponível para ser feito. Essa lei pode demonstrar como é o impacto na gestão do tempo e na produtividade dos advogados.
A lei de Parkinson é um princípio de produtividade formulado por Cyril Northcote Parkinson (historiador e escritor britânico) que resume um padrão comum no trabalho: “O trabalho se expande de modo a preencher o tempo disponível para a sua realização.” Na advocacia, isso aparece quando um prazo longo vira permissão tácita para adiar, revisar demais e complicar.
O resultado costuma ser noites em claro, retrabalho e peças maiores sem ganho proporcional de persuasão.
Aplicá-la bem não é “correr mais”, e sim criar limites inteligentes para entregar com consistência.
No ano que completo 1 de estágio + 39 anos do exercício da advocacia explicito sugestões para usar a lei de Parkinson no contencioso e no consultivo no Brasil.
1) Onde a Lei de Parkinson “pega” mais forte
Prazos processuais (CPC/CLT/CPP) muitas vezes parecem folgados, mas a peça cresce até o último dia.
A pesquisa de jurisprudência se expande em abas infinitas quando não há um critério de suficiência.
A revisão vira perfeccionismo: “só mais um ajuste” em vez de clareza, estrutura e tese. Reuniões com clientes ou equipe ocupam o bloco inteiro porque não têm pauta e decisão definida.
A gestão do escritório (financeiro, marketing, operacional) toma o dia quando não há janelas fixas.
2) Sintomas típicos na rotina do advogado
Peças com 30 páginas que poderiam ter 12, ou menos, porque o tempo disponível incentiva “encher” o argumento.
Checagens repetidas de andamento processual sem objetivo, virando uma forma sofisticada de procrastinar.
Delegação tardia: o sócio segura tudo até perto do prazo, e a equipe vira gargalo na reta final.
Tarefas pequenas (juntar documento, protocolar, gerar guia) viram “pendências eternas” no fim do dia do derradeiro prazo.
Agenda reativa: o dia é consumido por urgências alheias porque não existe timeboxing.
3) Princípio central: reduzir o tempo disponível (com segurança)
Para cada entrega, defina um prazo interno menor que o prazo legal, com folga para imprevistos.
Exemplo: se a contestação vence em 15 dias, trate como se vencesse em 10 e reserve 5 para ajuste final.
Isso não diminui qualidade; aumenta previsibilidade e reduz a chance de erro por cansaço no último dia.
O prazo interno deve ser comunicado como regra de operação, não como “favor” da equipe.
A folga final serve para anexos, validações, checagem de poderes, custas, e contingências de sistema.
4) Timeboxing para atividades jurídicas (modelo simples)
Separe a elaboração de peças em blocos: (a) tese e pedidos, (b) fatos e provas, (c) direito, (d) revisão.
Defina tempo máximo por bloco, por exemplo 45/60/60/30 minutos, conforme complexidade do caso.
Ao fim de cada bloco, produza um entregável: tópicos prontos, ainda que imperfeitos. A revisão deve ter checklist objetivo (ortografia, datas, pedidos, documentos, preliminares, jurisprudência).
Se o checklist está ok, encerre: isso combate a expansão infinita do “polimento” textual.
5) Definição de “pronto” para peças e pareceres
Antes de escrever, declare o padrão mínimo: tese central, pedidos, fundamentos, prova citada e risco mapeado.
Tudo que não melhora a chance de convencimento ou reduz risco é candidato a ser cortado.
Use a pergunta: “se eu remover este parágrafo, perco algo essencial?” Padronize estruturas por tipo de peça (inicial, contestação, réplica, agravo, apelação, embargos).
Modelos reduzem variância e evitam que cada peça “recomece do zero”, alimentando a Lei de Parkinson.
6) Pesquisa jurídica com limite e critério
Ao contrário de “pesquisar jurisprudência”, defina: tribunal-alvo, tema exato, período e 5 precedentes máximos.
Trabalhe com “suficiência probatória” da tese: 2 precedentes fortes valem mais que 12 medianos.
Salve as referências em um repositório com tags (tema, tribunal, resultado, fundamento-chave).
Isso evita reabrir a mesma pesquisa em todo processo e reduz a sensação de trabalho infinito.
7) Reuniões e atendimento ao cliente sem expansão
Toda reunião precisa de objetivo, pauta e decisão esperada (ex.: aprovar estratégia, definir documentos).
Limite padrão: 25 ou 50 minutos, com ata de 5 linhas e responsáveis por próximos passos.
A atualização de andamento deve ser “por exceção”: comunique quando houver fato relevante, não por hábito.
Isso preserva horas de trabalho profundo e reduz o “tempo morto” que a Lei de Parkinson ocupa.
8) Delegação e fluxo: evitar gargalos de última hora
Delegue cedo e com contexto: objetivo, padrão de qualidade, exemplo, e prazo interno do rascunho.
Adote revisão em duas etapas: feedback rápido no esqueleto e revisão final apenas no texto consolidado.
Assim, você não descobre falhas estruturais quando já não há tempo para reescrever com calma.
Quadros simples (Kanban - método de gestão do trabalho - exemplo na advocacia: A Fazer - Em Andamento - Em Revisão - Concluído, respectivamente, Elaborar contestação - Revisar inicial - Separar documentos do cliente - Fazer protocolo - Atualizar cliente (ponto de controle) - Preparar audiência) ajudam a visualizar o WIP (Work In Process - “Em Andamento”, “Em Revisão”, “Aguardando Cliente”, etc.) e impedir que tudo esteja “em andamento” ao mesmo tempo. Exemplo prático de Kanban com WIP na advocacia.
Colunas:
- A Fazer
- Em Andamento (WIP = 2)
- Em Revisão (WIP = 1)
- Concluído
Regras:
Se “Em Andamento” já tem 2 cartões, ninguém começa outra coisa.
Para puxar nova tarefa, precisa finalizar uma ou mover adiante.
Resultado: o escritório começa a operar com ritmo e previsibilidade, em vez de “urgências eternas”.
9) Ética e qualidade: O limite não é descuido
Aplicar a lei de Parkinson não autoriza atalhos que comprometam sigilo, diligência e veracidade.
O objetivo é cortar excesso e atraso, preservando o núcleo: fatos corretos, prova organizada e tese clara.
Use uma checagem final obrigatória: prazos, competência, pedidos, documentos, procuração, custas e protocolo.
Esse “gate” protege contra o risco típico de compressão de tempo: errar onde não pode.
10) Conclusão: O advogado que controla o tempo controla a causa
Quando você reduz o tempo disponível e aumenta a clareza do “pronto”, a peça para de inflar sozinha.
Você ganha cadência, melhora a qualidade por foco e reduz o custo emocional do contencioso.
Próximos passos: (1) implemente prazo interno + checklist em 1 tipo de peça; (2) crie timeboxes por bloco; (3) padronize a pesquisa em 5 precedentes máximos. Espero ter ajudado.