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Lei de Parkinson na advocacia brasileira: Produtividade, prazos e qualidade

Norma aplicada à advocacia mostra que limites claros de tempo aumentam foco, reduzem excessos e elevam eficiência sem perder qualidade.

4/2/2026
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A lei de Parkinson diz que o trabalho tende a ocupar todo o tempo disponível para ser feito. Essa lei pode demonstrar como é o impacto na gestão do tempo e na produtividade dos advogados.

A lei de Parkinson é um princípio de produtividade formulado por Cyril Northcote Parkinson (historiador e escritor britânico) que resume um padrão comum no trabalho: “O trabalho se expande de modo a preencher o tempo disponível para a sua realização.” Na advocacia, isso aparece quando um prazo longo vira permissão tácita para adiar, revisar demais e complicar.

O resultado costuma ser noites em claro, retrabalho e peças maiores sem ganho proporcional de persuasão.

Aplicá-la bem não é “correr mais”, e sim criar limites inteligentes para entregar com consistência.

No ano que completo 1 de estágio + 39 anos do exercício da advocacia explicito sugestões para usar a lei de Parkinson no contencioso e no consultivo no Brasil.

1) Onde a Lei de Parkinson “pega” mais forte

Prazos processuais (CPC/CLT/CPP) muitas vezes parecem folgados, mas a peça cresce até o último dia.

A pesquisa de jurisprudência se expande em abas infinitas quando não há um critério de suficiência.

A revisão vira perfeccionismo: “só mais um ajuste” em vez de clareza, estrutura e tese. Reuniões com clientes ou equipe ocupam o bloco inteiro porque não têm pauta e decisão definida.

A gestão do escritório (financeiro, marketing, operacional) toma o dia quando não há janelas fixas.

2) Sintomas típicos na rotina do advogado

Peças com 30 páginas que poderiam ter 12, ou menos, porque o tempo disponível incentiva “encher” o argumento.

Checagens repetidas de andamento processual sem objetivo, virando uma forma sofisticada de procrastinar.

Delegação tardia: o sócio segura tudo até perto do prazo, e a equipe vira gargalo na reta final.

Tarefas pequenas (juntar documento, protocolar, gerar guia) viram “pendências eternas” no fim do dia do derradeiro prazo.

Agenda reativa: o dia é consumido por urgências alheias porque não existe timeboxing.

3) Princípio central: reduzir o tempo disponível (com segurança)

Para cada entrega, defina um prazo interno menor que o prazo legal, com folga para imprevistos.

Exemplo: se a contestação vence em 15 dias, trate como se vencesse em 10 e reserve 5 para ajuste final.

Isso não diminui qualidade; aumenta previsibilidade e reduz a chance de erro por cansaço no último dia.

O prazo interno deve ser comunicado como regra de operação, não como “favor” da equipe.

A folga final serve para anexos, validações, checagem de poderes, custas, e contingências de sistema.

4) Timeboxing para atividades jurídicas (modelo simples)

Separe a elaboração de peças em blocos: (a) tese e pedidos, (b) fatos e provas, (c) direito, (d) revisão.

Defina tempo máximo por bloco, por exemplo 45/60/60/30 minutos, conforme complexidade do caso.

Ao fim de cada bloco, produza um entregável: tópicos prontos, ainda que imperfeitos. A revisão deve ter checklist objetivo (ortografia, datas, pedidos, documentos, preliminares, jurisprudência).

Se o checklist está ok, encerre: isso combate a expansão infinita do “polimento” textual.

5) Definição de “pronto” para peças e pareceres

Antes de escrever, declare o padrão mínimo: tese central, pedidos, fundamentos, prova citada e risco mapeado.

Tudo que não melhora a chance de convencimento ou reduz risco é candidato a ser cortado.

Use a pergunta: “se eu remover este parágrafo, perco algo essencial?” Padronize estruturas por tipo de peça (inicial, contestação, réplica, agravo, apelação, embargos).

Modelos reduzem variância e evitam que cada peça “recomece do zero”, alimentando a Lei de Parkinson.

6) Pesquisa jurídica com limite e critério

Ao contrário de “pesquisar jurisprudência”, defina: tribunal-alvo, tema exato, período e 5 precedentes máximos.

Trabalhe com “suficiência probatória” da tese: 2 precedentes fortes valem mais que 12 medianos.

Salve as referências em um repositório com tags (tema, tribunal, resultado, fundamento-chave).

Isso evita reabrir a mesma pesquisa em todo processo e reduz a sensação de trabalho infinito.

7) Reuniões e atendimento ao cliente sem expansão

Toda reunião precisa de objetivo, pauta e decisão esperada (ex.: aprovar estratégia, definir documentos).

Limite padrão: 25 ou 50 minutos, com ata de 5 linhas e responsáveis por próximos passos.

A atualização de andamento deve ser “por exceção”: comunique quando houver fato relevante, não por hábito.

Isso preserva horas de trabalho profundo e reduz o “tempo morto” que a Lei de Parkinson ocupa.

8) Delegação e fluxo: evitar gargalos de última hora

Delegue cedo e com contexto: objetivo, padrão de qualidade, exemplo, e prazo interno do rascunho.

Adote revisão em duas etapas: feedback rápido no esqueleto e revisão final apenas no texto consolidado.

Assim, você não descobre falhas estruturais quando já não há tempo para reescrever com calma.

Quadros simples (Kanban - método de gestão do trabalho - exemplo na advocacia: A Fazer - Em Andamento - Em Revisão - Concluído, respectivamente, Elaborar contestação - Revisar inicial - Separar documentos do cliente - Fazer protocolo - Atualizar cliente (ponto de controle) - Preparar audiência) ajudam a visualizar o WIP (Work In Process - “Em Andamento”, “Em Revisão”, “Aguardando Cliente”, etc.) e impedir que tudo esteja “em andamento” ao mesmo tempo. Exemplo prático de Kanban com WIP na advocacia.

Colunas:

  1. A Fazer
  2. Em Andamento (WIP = 2)
  3. Em Revisão (WIP = 1)
  4. Concluído

Regras:

Se “Em Andamento” já tem 2 cartões, ninguém começa outra coisa.

Para puxar nova tarefa, precisa finalizar uma ou mover adiante.

Resultado: o escritório começa a operar com ritmo e previsibilidade, em vez de “urgências eternas”.

9) Ética e qualidade: O limite não é descuido

Aplicar a lei de Parkinson não autoriza atalhos que comprometam sigilo, diligência e veracidade.

O objetivo é cortar excesso e atraso, preservando o núcleo: fatos corretos, prova organizada e tese clara.

Use uma checagem final obrigatória: prazos, competência, pedidos, documentos, procuração, custas e protocolo.

Esse “gate” protege contra o risco típico de compressão de tempo: errar onde não pode.

10) Conclusão: O advogado que controla o tempo controla a causa

Quando você reduz o tempo disponível e aumenta a clareza do “pronto”, a peça para de inflar sozinha.

Você ganha cadência, melhora a qualidade por foco e reduz o custo emocional do contencioso.

Próximos passos: (1) implemente prazo interno + checklist em 1 tipo de peça; (2) crie timeboxes por bloco; (3) padronize a pesquisa em 5 precedentes máximos. Espero ter ajudado.

Autor

Stanley Martins Frasão Advogado, sócio de Homero Costa Advogados Diretor Executivo do CESA Centro de Estudos das Sociedades de Advogados Membro da Comissão Nacional das Sociedades de Advogados do Conselho Federal da OAB

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