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Viés de confirmação e IA: Desafios para o pensamento jurídico

Entre vieses cognitivos, algoritmos e julgamentos precipitados, o artigo revela como crenças moldam decisões no Direito e alerta para o papel crítico do advogado na busca pela verdade.

18/3/2026
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Vivemos em uma era em que nunca tivemos tanto acesso à informação, e paradoxalmente nunca estivemos tão expostos à desinformação, às narrativas enviesadas e aos julgamentos precipitados.

Esse fenômeno não é apenas social ou político. Ele atravessa as organizações, molda decisões profissionais e impacta diretamente ambientes altamente sensíveis, como os escritórios de advocacia. Para compreender esse cenário, é necessário olhar para um mecanismo fundamental da mente humana: o viés de confirmação.

O viés de confirmação é um fenômeno amplamente estudado pela psicologia cognitiva e pela neurociência. Ele descreve a tendência humana de buscar, interpretar e lembrar informações de forma que confirmem crenças pré-existentes, ignorando ou minimizando evidências contrárias. Em outras palavras, nosso cérebro não busca necessariamente a verdade, muitas vezes ele busca coerência com aquilo que já acredita. Isso ocorre porque o cérebro humano procura economizar energia cognitiva. Processar informações contraditórias exige mais esforço mental, ativa áreas relacionadas ao conflito cognitivo e pode gerar desconforto psicológico.

Assim, naturalmente, tendemos a procurar informações que reforcem nossas crenças, ignorar dados que desafiem nossas convicções, interpretar fatos de forma alinhada com nossas narrativas internas. Esse mecanismo pode ser útil para decisões rápidas no cotidiano. Mas ele se torna perigoso quando aplicado a contextos complexos, como decisões jurídicas, gestão de equipes ou análise de fatos.

A amplificação digital do viés

Se o cérebro humano já possui essa tendência natural, o ambiente digital pode ampliá-la significativamente. Estudos recentes demonstram que mecanismos de busca, redes sociais e sistemas baseados em inteligência artificial podem reforçar esse comportamento.

Uma pesquisa publicada no Proceedings of the National Academy of Sciences demonstrou que indivíduos que recebem resultados de busca alinhados às suas próprias palavras-chave tendem a reforçar suas crenças iniciais, enquanto aqueles expostos a resultados mais diversos apresentam maior probabilidade de revisar suas opiniões. Em síntese: quanto mais estreito o escopo da busca, maior o risco de reforço do viés de confirmação.

Plataformas digitais funcionam frequentemente com base em algoritmos de personalização. Eles aprendem com nossos comportamentos e passam a oferecer conteúdos cada vez mais alinhados às nossas preferências. Isso cria o que muitos pesquisadores chamam de bolhas informacionais. Dentro dessas bolhas, a sensação de consenso aumenta, mesmo quando esse consenso não existe na realidade.

O laboratório social das narrativas

Um exemplo curioso de como esse fenômeno se manifesta no comportamento humano pode ser observado em experimentos sociais contemporâneos. Programas como o Big Brother Brasil acabam funcionando, de certa forma, como um laboratório social.

Ali vemos um grupo de pessoas convivendo em um ambiente isolado, sem acesso a informações externas, construindo narrativas sobre quem é “bom”, quem é “vilão”, quem merece confiança e quem deve ser excluído.

É impressionante observar como, rapidamente, os participantes passam a interpretar qualquer comportamento do outro a partir da narrativa já formada. Se alguém foi rotulado como vilão, cada gesto passa a ser interpretado como prova dessa narrativa. Se alguém foi rotulado como herói, suas falhas são relativizadas. Esse processo acontece também nas organizações.

Quando o viés entra nos escritórios de advocacia

Ao longo da minha atuação como consultora e mentora de líderes de escritórios de advocacia, já presenciei inúmeras situações em que o viés de confirmação influenciou diretamente a dinâmica de equipes jurídicas.

Lembro-me de um caso específico. Em um grande escritório, havia uma percepção generalizada de que uma determinada advogada da equipe era "difícil de trabalhar". A narrativa já estava consolidada. Sempre que havia algum ruído de comunicação ou atraso em uma entrega, rapidamente alguém dizia: "Está vendo? É sempre ela."

Quando começamos a investigar a situação com mais profundidade, percebemos algo interessante. A maioria dos conflitos não vinha dela. Na verdade, a advogada era extremamente técnica e concentrada. O problema estava em diferenças de estilo de comunicação e na ausência de alinhamentos claros sobre processos de trabalho, mas como a narrativa já estava estabelecida, qualquer comportamento dela era interpretado como confirmação daquela crença inicial.

Esse é o viés de confirmação atuando dentro da cultura organizacional. E ele pode gerar consequências sérias:

  • Conflitos entre equipes;
  • Perda de talentos;
  • Decisões injustas;
  • Deterioração do clima organizacional.

O maior gargalo das organizações

Costumo dizer em minhas mentorias que o maior gargalo de qualquer organização é gente. E no mundo jurídico isso é ainda mais sensível. Escritórios de advocacia lidam diariamente com decisões que impactam diretamente a vida das pessoas, o patrimônio das famílias e o destino de empresas.

Se profissionais do direito passam a tomar decisões baseadas em narrativas, julgamentos precipitados, e crenças não verificadas, o risco institucional aumenta.

Além disso, o ambiente jurídico é particularmente suscetível a esse fenômeno porque a profissão exige argumentação. Advogados são treinados para defender uma tese, mas defender uma tese não pode significar ignorar fatos contrários. É aí que entra a importância do pensamento analítico.

Fake news, inteligência artificial e responsabilidade jurídica

Outro desafio contemporâneo é a disseminação acelerada de informações falsas ou distorcidas. Com a popularização da inteligência artificial e das redes sociais, conteúdos podem ser produzidos e espalhados em escala inédita.

Se o profissional jurídico não desenvolver uma postura crítica diante das informações que consome, corre o risco de reproduzir desinformação, construir argumentos frágeis, e basear estratégias jurídicas em dados equivocados. Por isso, a responsabilidade do advogado hoje vai além da interpretação da lei. Ela envolve também curadoria informacional e pensamento crítico.

Cultura de aprendizagem como antídoto

Uma das formas mais eficazes de reduzir os efeitos do viés de confirmação nas organizações é construir culturas de aprendizagem contínua. Ambientes em que o debate é estimulado, visões divergentes são respeitadas e a curiosidade intelectual é valorizada tendem a produzir decisões mais equilibradas. Nesses contextos, o erro deixa de ser visto apenas como falha e passa a ser compreendido como fonte de reflexão e desenvolvimento coletivo. Além disso, quando líderes incentivam a escuta ativa, a análise crítica de informações e a exposição a perspectivas diferentes, ampliam a capacidade das equipes de questionar certezas precipitadas. Em organizações baseadas no conhecimento, como os escritórios de advocacia, essa postura é fundamental para evitar julgamentos simplistas e fortalecer decisões mais responsáveis e fundamentadas.

A cultura organizacional tem papel central nesse processo

Como discuto em meu livro Liderança e Cultura Organizacional na Advocacia, escritórios que cultivam valores como reflexão crítica, diversidade de pensamento e aprendizado constante conseguem construir ambientes mais saudáveis, inovadores e intelectualmente mais sofisticados. Essas organizações entendem que pensar diferente não é ameaça, é riqueza intelectual. Ao estimular o questionamento responsável e o diálogo qualificado, elas reduzem decisões precipitadas e ampliam a qualidade das análises jurídicas. No campo do Direito, onde interpretações moldam destinos, reputações e patrimônios, desenvolver essa maturidade cultural não é apenas desejável, é uma responsabilidade ética das lideranças.

O exercício mais difícil: Questionar a si mesmo

Talvez o maior desafio nesse processo seja desenvolver uma habilidade rara: questionar as próprias convicções. Em um mundo marcado por polarizações e disputas narrativas, exercitar a autocrítica se torna um ato de maturidade intelectual. Isso vale para líderes, para equipes e, especialmente, para profissionais do direito. Por isso, antes de julgar, é preciso perguntar:

  • Estou analisando fatos ou apenas confirmando minhas crenças?
  • Estou ouvindo todas as versões?
  • Estou aberto a mudar de opinião?

Porque, no final das contas, o verdadeiro compromisso do direito não é com narrativas. É com a verdade. E buscar a verdade exige algo que a tecnologia ainda não consegue substituir: consciência crítica.

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LEUNG, Eugina; URMINSKY, Oleg. The Narrow Search Effect and How Broadening Search Promotes Belief Updating. Proceedings of the National Academy of Sciences, 2025.

DELOITTE. Global Human Capital Trends 2025. Deloitte Insights.

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KAHNEMAN, Daniel. Thinking, Fast and Slow. New York: Farrar, Straus and Giroux, 2011.

SUNSTEIN, Cass. Republic: Divided Democracy in the Age of Social Media. Princeton University Press, 2017.

FONTENELE, Ísis. Liderança e Cultura Organizacional na Advocacia. São Paulo: Editora, 2024.

Autor

Ísis Fontenele Consultora, autora e professora. Foi presidente da Comissão de Gestão da OAB/GO (2016-2021) é reconhecida por ter criado o primeiro curso de pós-graduação em gestão para advogados no Brasil.

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