Migalhas de Peso

Quando advogar passa a custar vidas

O que mais inquieta não é apenas a violência em si, mas a sua repetição.

20/7/2026
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Quando o exercício da advocacia passa a conviver, com frequência, com notícias de morte, nós chegamos à conclusão de que algo está errado. Já não se trata de episódios isolados, nem de fatalidades desconectadas. O que se observa, nos últimos tempos, é uma sequência de casos que revelam um cenário preocupante: advogados sendo assassinados em razão direta daquilo que fazem: trabalhar.

Recentemente, mais um caso veio à tona. Um advogado foi morto após cumprir uma diligência judicial, no exercício regular da profissão. Mais um. E é justamente esse “mais um” que causa incômodo. Porque ele já não soa como exceção: soa como padrão.

O problema não está apenas na violência em si, mas na sua repetição. Advogados mortos durante diligências, executados após atuarem em processos sensíveis, atacados em seus próprios escritórios ou até em encontros profissionais. A cada nova notícia, a reação parece menor. E isso talvez seja o mais grave de tudo: o risco de normalização.

Mas não há nada de normal nisso.

A advocacia é, por essência, uma atividade que lida com conflitos. Interesses opostos, tensões econômicas, disputas pessoais (tudo isso faz parte do cotidiano da profissão). Ainda assim, jamais se cogitou que esse cenário pudesse transbordar para o risco à vida. Não é aceitável que o exercício da profissão envolva esse tipo de exposição.

Diante de mais esse episódio, é difícil não sentir algo além da indignação. Há um cansaço que se impõe. Cansaço de ver a repetição dos fatos. Cansaço de perceber que vidas estão sendo perdidas enquanto as respostas ainda caminham em ritmo lento. Cansaço de constatar que, em muitos momentos, o advogado segue sozinho diante de situações que claramente extrapolam o campo jurídico.

Mas é justamente nesse ponto que o debate precisa amadurecer.

Se os fatos recentes escancaram a gravidade do problema, também é verdade que algumas iniciativas já apontam possíveis caminhos. Em Minas Gerais, por exemplo, a OAB estruturou um protocolo de segurança voltado à advocacia, com orientações práticas sobre atuação em diligências, organização do atendimento, identificação de riscos e adoção de medidas preventivas.

Não se trata de uma solução definitiva, e nem seria razoável esperar que fosse. Mas é um movimento relevante. Um reconhecimento institucional de que a questão da segurança deixou de ser periférica e passou a exigir atenção estruturada.

Mais do que isso: o exemplo mineiro sugere uma mudança de perspectiva. A segurança da advocacia não pode ser tratada apenas como um cuidado individual, dependente da experiência ou da cautela de cada profissional. Ela precisa ser pensada de forma coletiva, organizada e contínua.

Talvez esse seja um dos caminhos possíveis.

A partir dessa base, o debate pode avançar. É preciso refletir sobre protocolos mínimos de segurança em diligências sensíveis, especialmente aquelas que envolvem maior carga de conflito. É necessário fortalecer canais institucionais de apoio e resposta rápida diante de ameaças.

E é igualmente importante discutir mecanismos que assegurem maior proteção ao advogado no exercício da profissão, compatível com a relevância da função que desempenha.

Não se trata de soluções simples. Mas também não é mais possível tratar o tema como eventual.

Este não é um texto confortável. Nem pretende ser.

Ele nasce de um sentimento que mistura indignação e exaustão. Exaustão de ver a repetição das mesmas notícias, com nomes diferentes. De perceber que o debate ainda não alcançou a urgência que o tema exige. E de saber que, em algum momento, qualquer advogado pode se ver diante de um cenário que ultrapassa o processo e atinge a própria integridade física.

Quando advogar passa a custar vidas, o problema já deixou de ser individual.

E talvez já tenha passado da hora de tratarmos essa realidade como aquilo que ela de fato é: uma pauta urgente, que exige reflexão séria, coordenação institucional e, sobretudo, ação efetiva. 

Autor

Thalles Vinícius de Souza Sales Juiz Titular do Tribunal Regional Eleitoral do Acre (jurista). Membro da Comissão Nacional de Defesa de Prerrogativas e Valorização da Advocacia, do CFOAB.

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