Juvenal cunhou panem et circenses no século I. Dois mil anos depois, a frase continua servindo e isso, por si só, já deveria nos preocupar. Se uma crítica política formulada na Roma imperial ainda descreve com precisão o que acontece no Brasil de 2026, alguma coisa muito séria não evoluiu.
Mas vamos ao que interessa. As eleições estão aí, e o que a gente vê de novo é o velho jogo se repetindo com tecnologia nova.
O “pão” que a gente conhece bem
O “pão” de Juvenal era trigo. O nosso vem em formato de medida provisória, de reajuste anunciado em maio, de programa social criado às pressas com nome bonito e sem fonte de custeio definida. Todo ano eleitoral a mesma história: o teto de gastos (ou o que restou dele depois do arcabouço fiscal de 2023) vira uma sugestão, e quem levanta a mão pra falar de responsabilidade fiscal é tratado como alguém que “quer tirar comida da mesa do pobre”.
Não é isso. Ninguém sério defende acabar com o Bolsa Família ou com o BPC. Num país onde 33 milhões de pessoas passaram fome há poucos anos, segundo o relatório da Rede PENSSAN, proteção social não é luxo. Mas existe uma diferença enorme entre proteger quem precisa e transformar gente em refém de programa de governo. Benefício sem porta de saída sem qualificação profissional de verdade, sem creche pra mãe trabalhar, sem microcrédito que funcione não é política pública. É curral eleitoral com CNPJ.
E o Direito Financeiro assiste a tudo meio de mãos atadas. A LRF - lei de responsabilidade fiscal, de 2000 foi pensada justamente para evitar esse tipo de coisa. Mas basta olhar a criatividade contábil que aparece a cada ciclo eleitoral pra perceber que a lei, sozinha, não segura a pressão política.
O “circo” agora tem algoritmo
Aqui a coisa ficou mais sofisticada. O circo romano tinha gladiadores e feras. O nosso tem cortes de 40 segundos no Instagram, prints descontextualizados no Twitter (ou X, tanto faz) e deepfakes que vão aparecer com força total nessa campanha.
O picadeiro principal em 2026 é o celular de cada um. É lá que a política virou entretenimento de baixa caloria você consome, se irrita, compartilha, e no fim do dia não sabe mais o que é real. E os candidatos sabem disso. A campanha não é mais pra convencer ninguém; é pra ativar gatilhos emocionais. Raiva, medo, indignação. O que viraliza não é proposta, é provocação.
O STF e o TSE, que deveriam estar acima desse circo, são empurrados pra dentro dele toda semana. Cada decisão do ministro Alexandre de Moraes no inquérito das fake news gera mais polêmica política do que análise jurídica. Cada julgamento no plenário vira torcida organizada. E aí a gente perde algo fundamental: a capacidade de discutir o mérito técnico de uma decisão judicial sem precisar vestir camisa de time.
Enquanto o país gasta energia brigando sobre quem xingou quem, ficam de lado questões que vão definir o futuro de verdade. Exemplo: o Brasil se comprometeu no Acordo de Paris com metas de redução de emissões. Como vamos cumprir isso com a matriz energética que temos e o desmatamento que praticamos? Alguém viu candidato ser pressionado sobre isso? Outro: a reforma administrativa. O Estado brasileiro gasta mais com pessoal do que a maioria dos países da OCDE, proporcionalmente. E esse debate sumiu. Não dá like, não viraliza.
O que cabe ao Direito nessa bagunça
Advogados, juízes, promotores e professores de Direito não podem se comportar como torcida. Parece óbvio, mas olhe as redes sociais de muitos deles e me diga se parecem juristas ou militantes.
O papel do operador do Direito é chato. É técnico. É insistir que a Constituição não é cardápio que não dá pra pegar só o art. 5º que convém e ignorar o art. 167. É cobrar que propostas de campanha digam de onde sai o dinheiro. É fiscalizar abuso de poder econômico e político nas eleições sem transformar essa fiscalização numa guerra cultural.
E tem a questão da desinformação, que é o desafio mais difícil. Garantir liberdade de expressão sem deixar que a mentira industrializada destrua o debate público isso não se resolve com uma decisão monocrática nem com um art. no Código Eleitoral. Exige regulação séria, que o Congresso vem enrolando pra votar desde o PL 2.630. A inteligência artificial generativa só tornou o problema mais urgente: hoje qualquer pessoa com um notebook produz um áudio falso de candidato que parece real. E a legislação brasileira ainda trata isso com ferramentas do século passado.
Pra fechar
Este ano de 2026 vai ser ruidoso. Vai ter promessa de dinheiro fácil e espetáculo pra todo lado. Vai ter gente de boa-fé sendo manipulada e gente de má-fé lucrando com isso.
O pão acaba no dia seguinte da eleição. O circo desmonta quando mudam os personagens. O que fica é o estrago ou o avanço, se a gente decidir exigir mais. Mais substância, mais seriedade, mais projeto e menos performance.
Eu não sei se a gente vai conseguir. Sinceramente, olhando o histórico, não dá pra ser otimista. Mas recusar o papel de plateia parar de aplaudir o espetáculo e começar a cobrar o roteiro já seria um começo que não é pouco.